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![]() Acadêmico: Gabriel Chalita Os sentimentos foram se apoucando com o tempo. Mudei de cidade e de desejo.
O que não ficou Fazia tempo que não nos encontrávamos. A casa não havia envelhecido. Achei falta do papagaio. Sempre soube que papagaios vivem muito. O dele não resistiu. Foi com ele que senti prazeres desajeitados no início e depois... depois de cortada pela paixão, jurava ser para sempre. Ele tinha uma certa sisudez que o tempo foi levando. O espelho em que ele se olhava, depois de estarmos, ainda está. O quarto não mudou tanto. Há alguns retratos da mulher que morreu há não muito. Não sei se foram felizes. Sei que, no dia em que ele disse que não seria eu, atravessei em silêncio a secura do dia e fui ter comigo mesma. O que no dia trouxe um estranhamento foi o saliente de suas calças. Era como se a ruptura oferecesse prazer. Eu nada disse. Disse a mim que, decerto, era um casamento arranjado. Que a outra deveria ter um dinheiro que eu não tinha. Que eu sempre soube que ele era ambicioso. Não que ele falasse tanto. Foi por isso que não o beijei na despedida. Beijar uma boca misteriosa não deixaria boas lembranças. Os sentimentos foram se apoucando com o tempo. Mudei de cidade e de desejo. Era preciso salvar a mim mesma daquele dia. Outros dias nasceram e, também, outros encontros. Não me casei. Tive sucesso nas minhas decisões profissionais. No resto, fui me ajeitando. Tive preguiça de conversas que me traziam nada. De homens sem a delicadeza necessária para reacender o que um dia se foi. Não que ele fosse um especialista em afetos. Mas me afetou, certamente. Fomos nos descobrindo nos silêncios e, aos poucos, as palavras nasciam. Sem pretensões de nos darem respostas sobre o tempo. O tempo em que ele ficou casado não foi muito, a não ser para mim. Não sei como o papagaio morreu. A esposa sofreu um acidente. Ele disse que esperava que eu tivesse ido ao sepultamento. Eu disse nada. Se não fui ao casamento, por que iria? Ele disse que queria me ver. Que precisava me ver. Fiquei pensando no que ele não disse. Estive exposta a tantas dores. Com meu corpo burro, mais de uma vez, passei pela frente da casa. A casa parecia apagada com eles dentro. "Mudou quase nada, não é"? "Quase nada". "Sente falta dela"? "Não sei ainda". "E o papagaio"? "Não resistiu." "E você?" "Eu, sim." Os cabelos eram menos orgulhosos que antigamente. Os óculos explicavam a visão mais fraca. O corpo não era o mesmo que me fez mulher. Havia um cansaço. Ele disse das palavras gordas da mãe da esposa morta. De alguma acusação de ausência de amor. "Quem é que manda no pensamento?" Essa frase foi dele. Solta. Entendi que ele nunca havia deixado de pensar em mim. E, subitamente, ele rejuvenesceu aos meus olhos. Os mesmos olhos molhados de quando fui embora, enquanto o papagaio repetia o meu nome. "Você se olhava no espelho do quarto?" "Sim, e via quem eu não queria ver." Entendi que a escolha havia sido errada. Que não se abandona um amor por uma promessa de felicidade das coisas. Coisas não trazem felicidade. A felicidade mora dentro. Eu desalojei muitos abraços, quando no abraço não havia nada. Aprendi a sentir os sentimentos e a ver cada um deles no espelho da alma. Não sei ainda se quero voltar a estar com ele. Talvez tenha mais saudade do que eu sentia com ele, naquele tempo, do que dele mesmo. Ah, o peso dos anos. A casa não envelheceu. Certamente. Até porque há disfarces e remendos por todos os lados. Não me sinto velha, também. Sinto que vivo em um outro tempo. "Por que você não quis um outro papagaio?" "Porque eu gostava muito do que se foi." Ele gostava de mim e me deixou ir. Ouviu dos outros que a outra seria melhor para ele, para a carreira dele. Foi o que me disseram. Ele comeu as palavras e nem sei se conseguiu a proeza da digestão. "Eu preciso ir." "Fique, por favor, um pouco mais pelo menos, para pensarmos juntos." Por que ele não disse isso antes? "Eu preciso decidir o que eu sinto antes de decidirmos juntos." Foi o que eu disse. E dei um beijo no rosto que tanto sonhei voltar a beijar. Não quero que o sentimento seja o de vingança. Virei uma mulher muito mais poderosa do que ele poderia imaginar. Se era dinheiro que ele queria, dinheiro hoje não me falta. Ele pode ter mudado. Ele pode ter aprendido. Só não sei o que eu sinto. Sinto saudade do papagaio que morreu. Publicado em O Dia, em 07 12 2025 voltar
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