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NINGUÉM PRESTA ATENÇÃO
Acadêmico: José Renato Nalini
Alguém já se propôs a ler o “Atlas Digital de Desastres” que divulga o número de mortes e prejuízos em virtude de catástrofes ambientais?

Ninguém presta atenção

Alguém já se propôs a ler o “Atlas Digital de Desastres” que divulga o número de mortes e prejuízos em virtude de catástrofes ambientais? É um levantamento feito entre 1991 e 2022, que indica o ano de 2011 como o mais trágico. Nele, quase mil pessoas perderam a vida em virtude de chuvas intensas. Mais de quinhentos e cinquenta mil desabrigados e desalojados. Foi o ano da tragédia em Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis.

Onze anos depois, morreram quase quatrocentas pessoas em virtude do mesmo fenômeno. No ano passado, a situação calamitosa de São Sebastião. Este ano, as vítimas do Rio Grande do Sul.

Como salienta Vinicius Torres Freire (FSP, 5.5.24), tais dados são subestimados. Isso porque “morre muito mais gente pelo efeito difuso da combinação de ruína climática com a incompetência e a crueldade nacionais”.

Não faltaram avisos. A publicação “Avaliação da Infraestrutura do Brasil”, do Banco Mundial, anunciara a desgraça em que o Brasil mergulhou. Isso porque, a partir de 2018, acelerou-se a emissão dos gases venenosos causadores do efeito estufa. A causa: o desmatamento cruel e o uso insensato da terra. Para vergonha nossa, em 2019, a emissão de gases devido ao desmatamento foi 70 maior do que em 2010. Dado comprovado por estudo da OCDE.

Quem se dispuser a ler o Relatório do Banco Mundial encontrará o diagnóstico de um Brasil que dilapida seu patrimônio maior: os recursos naturais, a biodiversidade a exuberância verde que nós assassinamos. Textualmente: “A mudança do uso da terra, em especial em ecossistemas frágeis, indica que o resultado da exploração de recursos não renováveis tem sido mal utilizado. Em vez de passar por um aumento de produtividade em vários setores de “renováveis”, o Brasil parece ficar para trás em relação a países antes menos produtivos. Além do mais, a fim de continuar a crescer, o Brasil adota comportamentos cada vez mais insustentáveis como a conversão de ecossistemas frágeis em terras produtivas e a ocupação de terras marginais e inseguras. Em última instância, isso drena recursos fiscais escassos, degrada o capital natural e deteriora o capital social”.

Não é brincadeira, não é leviandade. Infelizmente, a mais absurda realidade, o que faz duvidar de que exista racionalidade neste imenso território que foi abençoado com uma biodiversidade bilionária, mas que a põe a perder, sem sequer conhecer suas potencialidades.

Tudo vai se tornar muito pior daqui por diante. E aqueles que só pensam em acumular dinheiro, deveriam prestar atenção em outros trechos do relatório do Banco Mundial: “Desastres como enchentes, deslizamentos de terra e incêndios florestais afetam a infraestrutura (estradas, pontes, barragens) e diminuem ainda mais a produtividade. A mudança climática agrava esses desastres, mas, ironicamente, esse tipo de estratégia de crescimento (o uso desordenado da terra) também contribui para a mudança do clima por meio do aumento da emissão de gases de efeito estufa”.

É um círculo mais do que contaminado. Em lugar da economia circular, nós caprichamos na desgraça circular. Coisas ruins produzindo coisas piores e resultando em tragédias que seriam perfeitamente evitáveis.

Os que estão preocupados com seus investimentos, com os seus lucros sem limites, com o futuro patrimonial de seus descendentes, deveriam prestar mais atenção à advertência do Banco Mundial: “As empresas brasileiras perdem, por ano, 1,3 do PIB (cerca de R$ 140 bilhões) devido a problemas na infraestrutura (piorados por eventos climáticos). A maioria (55) é causada por falhas na infraestrutura de transporte, a seguir na energia (44) e no fornecimento de água (2). A vulnerabilidade a choques relacionados à mudança climática é uma realidade para um de cada cinco brasileiros. Em diferentes cenários para o clima, prevê-se que o número de dias de extremo calor vai aumentar”.

Isso é constatável empiricamente, até pelo mais bizarro cético ou pelo mais ignorante dos negacionistas. Abril não teve um terço das chuvas esperadas. Maio começou com ondas de calor que brecaram a frente fria e que causaram a hecatombe gaúcha. Continuarão a colher vultosos prejuízos, pois o impacto na infraestrutura, causado pelos desastres provocados pela ação humana, resultam da falta de preparo e de planejamento, projeto e manutenção ruins.

Os que morrem são os mais pobres. Os excluídos. Aqueles que, por estarem à margem da sociedade, são levados pela enxurrada. Aquela de verdade, mas também a metafórica: o descaso, a desconsideração, o desprezo, a invisibilidade dos carentes.

Enquanto isso, o Congresso cuida de Fundões Eleitoral e Partidário, de eleições e da matriz da pestilência chamada reeleição. Queda de braço entre Parlamento e Executivo, Judiciário a fazer turismo internacional e a nação mergulhada em permanente infausto. Alguém presta atenção naquilo que o mundo civilizado pensa do Brasil?

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 08 05 2024



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