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CARÁTER BOÊMIO E DESORDENADO
Acadêmico: José Renato Nalini
Na revisita que faço à plúrima existência do Barão de Rio Branco, fácil é concluir que ele era portador de um caráter boêmio e desordenado.

Caráter boêmio e desordenado

Na revisita que faço à plúrima existência do Barão de Rio Branco, fácil é concluir que ele era portador de um caráter boêmio e desordenado. Uma personalidade eminente que não teve descanso, nem deixou descansar os seus auxiliares. Ocupava-se de mil coisas, ininterruptamente, dia e noite, sem exercitar-se fisicamente. Situação que lhe comprometeu a saúde.

Rio Branco não era muito são. Tinha varizes, o que exigia tratamento permanente. Mas para equilibrar suas forças, possuía um predicado extraordinário. Conseguia recostar-se em qualquer sofá e dormia. Não significava isso que seus auxiliares podiam relaxar. Não se sabia se o Barão dormiria meia hora ou seis horas. Quando despertava, pedia logo chá ou café, o que lhe apetecesse. E retomava o trabalho interrompido.

Essa facilidade em dormir fez seus médicos passarem alguns sustos. Quando chegou para um curativo, o médico Fernando Magalhães encontrou o Barão deitado, imóvel, no chão. Precipitou-se para o corpo, acreditando que ele estivesse morto. Mas viu que respirava. Pulso regular. Era apenas um sono, e sono profundo.

Rio Branco despertou e, sem constrangimento, explicou-se: - “Estava estudando uns mapas; por comodidade, porque eram grandes, pu-los aqui no chão, para bem os ver. Deitei-me. Veio o sono, deixei-me ficar aqui mesmo. Dormi. Foi tudo”.

Tal sistema deixava seus auxiliares diretos extenuados. E o Barão se divertia de forma bizarra. Passava dias sem sair de casa. Apreciava a visita dos amigos. Era sua grande distração. Descansava do trabalho conversando. Era um conversador magnífico e sedutor.

Um de seus costumes curiosos era apanhar pernilongos com vela acesa. Manuel Bernardez, escritor que foi Cônsul e Embaixador do Uruguai no Brasil, escreveu um livro em que dedica um capítulo a Rio Branco: “El Canciler Brasileño”. Nele, diz que o Barão apanhava moscas, deixando cair sobre elas pingos de espermacete da vela acesa. Não é bem isso. O Barão apanhava pernilongos. Percorria todas as dependências do Itamarati procurando aqueles que repousavam nas paredes e procurava queimá-los com a chama da vela.

Também praticava o chamado “banho aos gatos”. Muitos desses felinos repousavam à noite no Itamarati. Ele achava graça imensa em jogar em cima deles a água de um balde. Para isso, logo que se encerrava o expediente da Secretaria e o sombrio casarão se esvaziava, um servente trazia baldes com água e os colocava nas janelas. Quando um gato se aproximava, ele chamava o Barão e jogava a água sobre o visitante. Rio Branco se regalava com esse espetáculo. Fora isso, ele não ia ao teatro e raras visitas fazia.

Vestia-se bem, com roupas especialmente confeccionadas em Paris. Mostrava os costumes que recebera do famoso Krieg, da rua Royale, da capital francesa, seu alfaiate por muitos anos. Tão seu amigo que vinha ao Brasil visitá-lo.

Não hesitava em mostrar aos seus auxiliares cada peça, ressaltando a qualidade do pano, o acabamento do feitio, a elegância do corte. Encontrou um colete de cor marrom e disse não saber como “esse animal” de alfaiate lhe mandara roupa de tal cor. Já que sabia, desde há muito, que ele tinha ojeriza ao marrom. Nunca usaria aquele colete. Dava azar.

Também era daqueles que não se sentava à mesa em que estivessem treze comensais, não gostava que se entornasse sal na toalha, que facas se cruzassem, não passava sob escadas, nem apreciava encontrar-se com gatos pretos.

Coincidentemente, Wenceslau Braz era um dos que acreditavam no malefício do marrom. Quando Presidente da República, dizia que todos os que o procuravam e lhe contavam desgraças e misérias da vida, traziam sempre vestida alguma peça de roupa marrom. Tanto que se surpreendeu quando um solicitante, que lhe relatara coisas ruins, trajava roupas de outra cor. Mas notou que, ao retirar-se, o postulante levava em suas mãos um chapéu marrom.

Sobre Rio Branco há um anedotário enorme, que, infelizmente, não foi escrito. O mesmo ocorre em relação a Paulo Bomfim, o último Príncipe dos Poetas Brasileiros, que não deixou registrada a história humorística e secreta dos paulistanos de seu tempo. Tais episódios morrem com quem os conhece e não ganham a merecida divulgação. Pois conhecer alguém só pelas obras, pela produção científica, deixa de lado aspectos importantíssimos, talvez mais relevantes do que o currículo oficial.

A História não se faz exclusivamente pelo relato das grandes façanhas, ou da celebração de datas inesquecíveis. A pequena história dos seres humanos é composta de fatos às vezes ingênuos, mas indicativos de que sob o perfil oficial, residem seres sensíveis, vulneráveis e simples. Existe mais identidade entre os humanos do que o registro dos grandes acontecimentos quer fazer supor.

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 31 03 2024



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