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OS PRIMÓRDIOS DA PAULISTA
Acadêmico: José Renato Nalini
A São Paulo pacata do início do século XIX foi-se transformando por vários fatores, mas dos quais não é menos importante a instalação da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Os primórdios da Paulista


A São Paulo pacata e provinciana do início do século XIX foi-se transformando por vários fatores, mas dos quais não é menos importante a instalação da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. A mocidade acadêmica trouxe novos hábitos e valores novos à paulistanidade de então. A mutação ocorreu em todos os setores, inclusive na destinação urbanística.

Depois dos Campos Elíseos e de Higienópolis, chegou a vez do espigão merecer a atenção da elite. Surgiram os palacetes hoje substituídos por edifícios de estilo arquitetônico suscetível de reparos.

Existe excelente bibliografia sobre o que a Avenida Paulista já foi. Mas é interessante observar como os paulistanos da época assistiram à mutação. No livro “Elos de uma corrente”, Laura Oliveira Rodrigo Octávio conta haver conhecido “esta avenida despovoada; meu tio Horácio (Sabino) construiu nova residência à Alameda Santos, deixando a Vila Buarque. Não sei dizer o ano, mas lembro-me de meu avô Sabino nessa casa e ele morreu em 1902?.

Sobre as casas de Horácio Sabino na Alameda Santos e Avenida Paulista, recorda: “A primeira era de um só pavimento tendo uma sala interna, como se fosse um pátio, para onde abriam todos os cômodos e onde eram as brincadeiras, quando o tempo não nos deixava ficar no jardim. O terreno enorme permitia a permanência de uma vaca “Arruma caixa”, que nos dava leite quentinho pela manhã. O jardineiro era um italiano, Nacca, e sua mulher, Chiarina, fabricava o pão e era uma curiosidade para nós vê-la preparar a massa, fazer os pães, cobri-los com toalhas limpas e depois os cobertores, fermentavam então e lá se iam para o forno”.

Havia um atelier no porão e o avô Sabino confeccionava bonecas. Possuía enorme quantidade de cabeças em biscuit, das quais saíam os corpos que ele fazia.

Horácio Sabino foi o precursor da venda de terrenos a prestações. “Abriu ruas naquele bairro para o lado da várzea de Pinheiros e aos domingos oferecia cerveja aos fregueses que vinham fazer negócios, com xaranga, para alegrar mais o ambiente, e assim se fez a “Vila América”, nome de sua mulher”.

Imagine-se o que era residir numa Paulista cujas residências possuíam enormes jardins, pomares e eram verdadeiras chácaras. O “Parque Paulista”, hoje Trianon, era um passeio de aventuras, pois as crianças conseguiam ver os bichos preguiça a dormitarem nos ramos e os saguis a pularem de galho em galho.

Horácio Sabino chegou a edificar outra casa, na esquina da Paulista com Augusta. O terreno fora adequadamente preparado a fim de que, ao final da construção, o parque ao redor estivesse pronto. Árvores frutíferas, flores, horta, vaca, um sonho. “A casa da Avenida Paulista, número 46, mais tarde 2133, foi afinal construída, no auge da Art Nouveau, com desenho de Victor Dubugras, arquiteto francês. Era uma perfeição no gênero, acabamento o que se pode desejar de fino, não havia nada que não estivesse dentro da nova estética. O salão, incomodíssimo, depois foi substituído por móveis estofados; no hall entrou um magnífico terno Mapple em couro, cadeiras de vime confortáveis no jardim de inverno, ornado de vitrais. A cozinha era forrada de azulejos brancos até o teto e um sistema de campainhas defendia os moradores de qualquer assalto”.

Ali nasceram as primas Sabino de Laura Rodrigo Octávio: Mequinha, casada com Cesario Coimbra, Marina, casada com Domingos Assumpção Filho, Helena, casada com Álvaro Souza Queiroz Filho e Sylvia, casada com João Laraya. A família ocupou a residência enquanto os genitores viveram, falecidos na década de cinquenta do século passado.

No jardim, plantados pelo próprio Horácio Sabino, dois ciprestes cresceram, se juntaram e formaram uma só árvore. Ele dizia ser a própria imagem dele e de sua mulher América: formavam sólida, afetuosa e única realidade. Lembra-se a sobrinha de que “acabaram a vida com intervalo de dias: um não pode viver sem o outro”.

E a Avenida Paulista de hoje? Guardará também consistentes laços amorosos? Quem se propõe a descrevê-los?

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 14 01 2024



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