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NÓS E OS EUA
Acadêmico: José Renato Nalini
A partir da República, três brasileiros influíram nas relações com os Estados Unidos: Salvador de Mendonça, Joaquim Nabuco e Rio Branco.

Nós e os EUA

A relação Brasil-Estados Unidos tem oscilado ao longo do tempo. Já se ouviu dizer que “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”. Mas também já existiu início de rebelião estudantil contra o Acordo Mec-USAID, na década de sessenta do século passado.

Para Manuel Oliveira Lima, em suas “Memórias”, à época da proclamação da República, “os Estado Unidos gozavam entre nós da mais invejável popularidade. O panegírico de Alexis de Tocqueville era o prisma através do qual o viam monarquistas e democratas, e o próprio Imperador que de lá trouxera a impressão de uma terra de liberdade e de equidade, deixara por sua vez a recordação de um soberano com o qual se podia consorciar uma democracia”.

Os republicanos brasileiros viam nos Estados Unidos o modelo para seus anseios federativos e para a organização de uma justiça constitucional. Mas essa ilusão foi-se desfazendo. A auréola clássica da liberdade veio a se desmanchar “numa atmosfera de intolerância em que os direitos individuais são sacrificados a uma pseudo-proteção social. O cidadão norte-americano perdeu até, por disposição constitucional, o direito de que Noé usou, segundo a Bíblia, de embriagar-se”. Embora a Bíblia continuasse a ser o livro fundamental do povo americano. Só que de maneira fundamentalista. Menciona Oliveira Lima que há cem anos, instaurara-se na cidade de Dayton, no Tennessee, um processo em que o por três vezes candidato à Presidência dos Estados Unidos acusava o professor de uma high school por haver violado a legislação do Estado. Era crime ensinar uma teoria de criação diferente da versão do Gênesis.

Seria a intolerância nos Estados Unidos o reflexo de sua grandeza, juntamente com a arrogância disfarçada em palavras de concórdia internacional?

A partir da República, três brasileiros influíram nas relações com os Estados Unidos: Salvador de Mendonça, Joaquim Nabuco e Rio Branco. Oliveira Lima foi secretário de legação do primeiro, entre 1896 e 1898. Considerava-o um dos homens mais inteligentes que conheceu, mentalidade formosa, de prontíssima receptividade e em nada empanada pela vaidade que turvava a irradiação de outros espíritos.

Salvador de Mendonça conhecia bem os Estados Unidos. Morou muitos anos numa Nova Iorque diferente do excessivo cosmopolitismo e da corrupção política. O casamento com americana e a bondade que o despia de preconceitos o levou a amar sinceramente o país onde viveu por um quarto de século. Sua diplomacia poderia sintetizar-se no lema: “é preciso amarrar o touro pelos laços de afeto e pelas obrigações dos tratados, antes que ele, entrando em fúria, descobrisse a extensão de sua força”.

Tão afeiçoado a Salvador de Mendonça era Oliveira Lima, que prodigaliza em elogios, enquanto destina críticas a outros diplomatas: “Salvador de Mendonça era dotado de faro diplomático e possuía muito encanto no seu trato, de sorte que adquiriu na sociedade política americana dos 90 (do século XIX), um prestígio que nenhum outro representante do Brasil obteve depois dele, na gradação descendente que vai do imaginativo Nabuco ao imbecil Cochrane de Alencar e ao fátuo Sylvino do Amaral, passando pelo dengoso Domício da Gama, ainda assim dotado de certa distinção intelectual e de um certo sentimento de reserva social”.

Joaquim Nabuco mereceu a estima de Elihu Root e de Roosevelt, que perceberam sua superioridade espiritual e seu consciente panamericanismo, porém nunca soube como Salvador percorrer toda a gama sobre o teclado da alma americana. Mas, como sempre ocorre, Salvador encontrou quem o enganasse: o Secretário de Estado Blaine, “que tanto tinha de inteligente quanto de velhaco”. Blaine se comprometera a conceder tratamento exclusivo ao açúcar brasileiro, mas fez o mesmo com o açúcar cubano.

Também foi traído em sua pátria, quando transferido para Lisboa, na intenção pérfida de pô-lo à margem da carreira, “intriga em que desempenhou papel ignóbil o Cônsul Fontoura Xavier, obcecado pela ambição de ser ministro”.

Quantos outros embaixadores brasileiros não passaram por Washington desde então? Haverá um Oliveira Lima contemporâneo, que narre a seus patrícios as peripécias diplomáticas tupiniquins em Terras do Tio Sam?

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 30 12 2023



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