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A MAGIA DE SÃO PAULO
Acadêmico: José Renato Nalini
São Paulo é um grande mistério. Acumula todos os benefícios de metrópole cosmopolita e todas as misérias de uma conturbação insensata.

A magia de São Paulo

São Paulo é um grande mistério. Acumula todos os benefícios de metrópole cosmopolita e todas as misérias de uma conturbação insensata. O grande estudioso da cidade, Lewis Mumford, já afirmara que "na cidade, forças e influências remotas se fundem com o local".

Para a época de seu surgimento, em 1554, era muito distante do litoral. Para chegar ao Planalto, era-se obrigado a vencer a grande muralha verde e inóspita da Serra do Mar. Aqui, um clima distinto das cidades litorâneas: Recife, Salvador, Rio de Janeiro. Algo que assustou os acadêmicos das Arcadas, a partir de 1828.

José de Anchieta apaixonou-se pela região. Dizia que São Paulo "era terra de grandes campos, fertilíssima de muitos pastos e gados, de bois, porcos, cavalos, e abastada de muitos mantimentos". Situação bem parecida com a Europa, tanto que fecunda a plantação de uva, marmelo, romã e outras árvores de fruto da terra de Portugal.

Eduardo Prado salienta que São Paulo foi pioneiro no cultivo de plantas: "Ali se cultivaram pela primeira vez as espécies indígenas novas para os colonos, ao lado das velhas plantas clássicas trazidas da Europa, plantas ligadas à história das raças e que estas transplantam nas suas migrações com as suas tradições e os seus altares".

Até trigo São Paulo produzia, o que era estranho para os europeus. Isso porque, na linguagem de Frei Vicente do Salvador, os ares da terra de Piratininga eram frios e temperados como os de Espanha e assim a terra, "mui sadia, fresca e de boas águas", tinha o verão suavizado pelas chuvas e o frio do inverno amenizado pelo sol.

As "boas águas" foram a razão principal da escolha deste espaço para iniciar nova povoação. E o que fizemos com essas águas boas? Enterramos os córregos, os riachos, os cursos d'água e as nascentes. E conspurcamos o Tietê, que foi maldosamente retificado, o Tamanduateí, o Pinheiros. Todos coletores de esgotamento doméstico e da imundície produzida por uma população que não tem noção do que significa ecologia.

Vai muito além da poluição das águas a nossa ignorância em relação à exuberante flora paulistana. Saint-Hilaire visitou São Paulo e colheu espécies botânicas que pertenciam a famílias igualmente existentes na França. Em sua "Viagem à Província de São Paulo", escreve: "sementes e plantas europeias, sem dúvida transportadas com sementes de legumes, se naturalizaram na região".

Isso é mais importante do que a mera preservação da cobertura vegetal que a ocupação desenfreada e insuscetível de controle, além da resistência a um planejamento saudável para adequada urbanização, tem sacrificado de forma incessante. É que "o alimento e a bebida - observou Mumford - não menos que o clima, contribuem para acentuar a individualidade de uma cidade; afetam o porte, os gestos, a atividade dos seus habitantes".

Tivéssemos a cultura da ampliação das áreas verdes, não o hábito de seu extermínio, e São Paulo teria garantido a existência de glebas favoráveis à mais saudável qualidade de vida. Não teria regiões como a Zona Leste, em que a deficiência de verde é constatável a olho nu. Principalmente quando se está num avião, de volta à pauliceia, e o piloto não recebeu ainda a ordem de pouso em Congonhas. Fica sobrevoando a capital e arredores e então se tem exata noção da mancha cinzenta dessa tão densa área populacional paulistana.

Esse paraíso poderia ter sido poupado, tivera administradores sensíveis e uma cidadania preocupada em oferecer ambiente prazeroso, agradável e conforme com as necessidades da saúde física e mental das criaturas que se autodenominam racionais.

A opção jesuítica pelo Planalto era profética. Pretendiam os sacerdotes educadores proteger a gente que ali viria surgir, das contínuas invasões que o litoral sofria. O isolamento paulistano foi o que garantiu uma trajetória histórica imune aos constantes assaltos de piratas e aventureiros. Tanto que, em sua "Informação", de 1885, o nosso taumaturgo escrevia: "A quarta vila na capitania de São Vicente é Piratininga, que está dez a doze léguas pelo sertão e terra a dentro. Vão lá por umas serras tão altas que dificultosamente podem subir nenhuns animais, e os homens sobem com trabalho e às vezes de gatinhas por não despenharem-se, e por ser o caminho tão mau e ter ruim serventia padecem os moradores e os nossos grandes trabalhos".

Como o perigo maior que ronda a humanidade e está cada vez mais próximo e mais violento é a mudança climática, aguarda-se, qual verdadeiro milagre, se devolvam as águas boas e puras a São Paulo e multipliquem-se suas áreas verdes, com todas as espécies que aqui já existiram e que podem voltar a existir. Por que não?

Publicado no Blog do Fausto Macedo/Estadão
Em 02 06 2023



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