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A MÃO QUE APEDREJA
Acadêmico: José Renato Nalini
"Somente a ingratidão - esta pantera - Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera!" (Augusto dos Anjos)

A mão que apedreja

O poeta Augusto dos Anjos (1884-1914)conhecia bem a alma do bicho-homem. Os que se iludem com agrados quando podem fazer algo em troca, se frustram se privados de tais poderes. Interesses prevalecem sobre sentimentos. "Somente a ingratidão - esta pantera - Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera!".

Pedro I, aclamado como defensor perpétuo do Brasil - recusou-se a ser chamado também "protetor" - menos de dez anos após à Independência era alvo de intrigas e de traições. Quando o Imperador voltou de sua viagem a Minas Gerais, em março de 1831, seus seguidores o saudavam e os opositores perpetraram a célebre "noite das garrafadas".

Acusava-se o titular do Império de ser refém dos portugueses, interessados no retorno ao estado colonial. Tudo lembrava a Paris do ano anterior, em que o populacho ocupou barricadas e expulsou o Rei Carlos X.

A imprensa açulava os exaltados. Em 19 de março o Imperador organizara um Ministério que não conseguiu restabelecer a ordem nas ruas. Em 5 de abril substituiu-o pelo Ministério dos Marqueses, o que excitou ainda mais os ânimos dos revoltados. No dia 6 correu o boato de que foram presos Evaristo da Veiga e Nicolau de Campos Vergueiro, duas lideranças liberais.

Solicitado a reintegrar o Ministério anterior, Pedro I recusou-se. Os deputados oposicionistas conquistaram a simpatia do Brigadeiro Francisco de Lima e Silva, pai do futuro Duque de Caxias. O militar concordou comparecer ao Palácio da Boa Vista e alertar o Imperador sobre a gravidade do quadro.

Enquanto isso, a tropa se confraternizava com os manifestantes e agitadores. O comandante Lima e Silva mandou que o Major Miguel de Frias fosse comunicar ao Imperador que o Exército passara a apoiar o povo e exigia resposta rápida.

Pedro I ainda tentou fazer com que o Senador Nicolau de Campos Vergueiro formasse novo Ministério. Mas o Senador não foi localizado. A própria guarda pessoal do Imperador o abandonou. O único militar que se manteve a seu lado foi o Major Luis Alves de Lima e Silva, que se tornaria o Duque de Caxias. Ele ainda ofereceu ao chefe a alternativa de conceder baixa a todos os soldados, deixando os oficiais sozinhos. Mas o Imperador não aceitou: "não quero que, por minha causa, se derrame uma só gota de sangue brasileiro".

Percebeu então, o nosso Primeiro Imperador, que "o homem, que, nesta terra miserável, mora, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera".

Abdicou em favor de seu pequenino Pedro, na madrugada de 7 de abril de 1831. Encontrou abrigo na fragata inglesa "Warspite" e depois se transferiu com a família para a "Volage", na qual retornou à Europa.

Deixou ao filho de cinco anos a carta que passou a integrar a antologia da História do Brasil: "Meu querido filho e meu Imperador. Muito lhe agradeço a carta que me escreveu, eu mal a pude ler, pois as lágrimas eram tantas que me impediam de a ver; agora que me acho, apesar de tudo, um pouco mais descansado, faço esta para lhe agradecer a sua e para certificar-lhe que, enquanto vida tiver, as saudades jamais se extinguirão em meu dilacerado coração. Deixar filhos, pátria, amigos, não pode haver maior sacrifício; mas levar a honra ilibada, não pode haver maior glória. Lembre-se de seu pai, ame a sua, a minha pátria, siga os conselhos que lhe derem aqueles que cuidam de sua educação, e conte que o mundo o há de admirar, e que eu hei de me encher de ufania por ter um filho digno da pátria. Eu me retiro para a Europa: assim é necessário para que o Brasil sossegue, o que Deus permita, e possa para o futuro chegar àquele grau de prosperidade de que é capaz. Adeus, meu filho, receba a benção de seu pai que se retira saudoso e sem mais esperanças de o ver. D. Pedro de Alcântara".

De fato, nunca mais se viram. Pedro I reconquistou o trono português para sua filha D. Maria II e faleceu em 24 de setembro de 1834. Experimentou o que Augusto de Campos eternizou em precioso soneto: "O beijo, amigo, é a véspera do escarro. A mão que afaga é a mesma que apedreja".

Por uma irônica e melancólica repetição da História, Pedro II também viria a sentir o sabor da ingratidão dos brasileiros. Mais impiedosa em relação ao filho do que ao pai, considerado o longo, estável e admirado período em que o estadista respeitado em todo o planeta respondeu pelos destinos do Brasil.

Publicado no Blog do Fausto Macedo/Estadão
Em 30 03 2023



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