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GOFREDO DA SILVA TELLES
QUANDO NOS DISPOMOS A tratar da construção da sede própria e da constituição do patrimônio material da Academia, com rendas líquidas e permanentes definitivamente asseguradas, deveríamos encimar o presente capítulo com o nome, apenas, do Presidente Honorário da Academia, o acadêmico Gofredo Teixeira da Silva Telles, que, com louvável tenacidade e o descortino de administrador experiente da coisa pública e particular, levou a cabo a ideia por muitos combatida ou, pelo menos, afastada como absurda e impraticável, do planejamento e construção daquele monumento. O cargo de tesoureiro da Academia que ele, havia muito, dignificava, predestinava-o para acompanhar e fiscalizar as obras da construtora de sua própria indicação.

Desde a escritura do terreno doado pelo Governo do Estado, aparece o nome de Gofredo T. da Silva Telles, ao lado do de Altino Arantes e de René Thiollier e dos demais acadêmicos presentes àquela cerimônia.

Mais uma particularidade interessante: o cartório em que foi lavrada a escritura de doação era o 209 de títulos, do Tabelião Menotti, ou seja, o laureado escritor Menotti Del Picchia, tantas vezes lembrado nesta Pequena História, já pelo seu nome de escritor e acadêmico, já com o pseudônimo de "Hélios", conforme assinou, anos seguidos, seus artigos nos jornais do dia. Elogios no momento indicado, estímulos, e até censuras quando preciso, fluíam com freqüência da sua pena amiga, sob o disfarce tênue de um quase anonimato, para maior liberdade do colunista.

209 Tabelião de São Paulo — Bacharel Menotti Del Picchia, Tabelião. Escritura de doação que faz a Fazenda do Estado à Academia Paulista de Letras. Data: 11 de outubro de 1944...

Saibam quantos esta pública escritura virem, que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil novecentos e quarenta e quatro, aos dois dias do mês de outubro, nesta cidade de São Paulo, no Palácio dos Campos Elísios, à Alameda Barão do Rio Branco, onde chamado vim ...

Presentes neste ato estiveram o Excelentíssimo Sr. Dr. Interventor Federal, Dr. Fernando de Sousa Costa, o Secretário de Estado da Justiça e Negócios do Interior, Dr. José Adriano Marrey Júnior, e diversos membros da Academia Paulista de Letras, que assinam também esta escritura. Eu, Heitor Bueloni, ajudante habilitado, a escrevi. Eu, Carlos Eduardo Guerra de Aguiar Vallim, Oficial maior, a subscrevi. (aa) Messias Junqueira — Altino Arantes — René Thiollier — Fernando Costa — José Adriano Marrey Júnior — Gofredo da Silva Telles — Guilherme de Almeida — Ulisses Paranhos — Cândido Mota Filho — Spencer Vampré — Francisco Pati — Rubens do Amaral — Roberto Moreira — Francisco N. Lima Filho — Raul Briquet — Pedro Antônio de Oliveira Ribeiro Neto — Benedito Vastano — Lorival Job Rocha. (Isenta de selos e de emolumentos na forma da lei.)

Falaram depois da cerimônia : Marrey Júnior, Altino Arantes e Fernando Costa. Trecho do discurso do Presidente Altino Arantes:

"A singeleza autenticamente paulista de suas atitudes, senhor doutor Fernando Costa, e a lisura irrepreensível do seu procedimento de político longamente afeito às vicissitudes e às desilusões do poder, não se compadecem, evidentemente, com aquela imensa vaidade do Rei magnífico que pretendia encarnar o Estado na sua própria pessoa. Mas, o de Mecenas pode V. Exª, em bom direito, arrogar-se o nome, a benemerência e a glória."
Final da oração do Dr. Fernando Costa:

"Não recebemos agradecimentos. Vós outros é que deveis receber o quinhão do vosso merecimento, pois vindes cumprindo com fidelidade, com dedicação, o pensamento normativo que se contém na frase esclarecida do fundador da vossa Academia: Trabalhar para as letras e para a ciência: tal é o nosso compromisso."

A evocação inesperada da figura do Dr. J. J. de Carvalho no final da alocução imprimiu à cerimônia um cunho de alta espiritualidade, quase religioso, pela delicadeza da lembrança, que a projetava muito além da órbita dos eventos puramente humanos, para situá-la no domínio transcendental e eterno das ideias, da Beleza em si e por si mesma, incomovível e eternamente válida.

O homem predestinado para a realização dessa grande obra foi o acadêmico Gofredo Teixeira da Silva Telles. Escapa aos moldes da nossa narrativa enumerar as dificuldades iniciais do empreendimento, os óbices vencidos e as diferentes medidas de que lançou mão o nobre Tesoureiro da Academia para levar a bom termo o seu objetivo. E os recursos financeiros para iniciar a construção? E o crédito na praça, a fim de convencer alguma construtora idônea a meter-se nessa aventura, em que os riscos quase à vista sobrepujavam de longe as probabilidades de bons lucros?

Para todas as objeções Gofredo Telles tinha resposta imediata, a começar pelas conversas nas reuniões acadêmicas, ou onde quer que se comentassem tais problemas. Nem tudo naqueles agrupamentos eram sorrisos e alegria. Alguns espíritos práticos e nada sonhadores objetavam contra os riscos incalculáveis do negócio e o perigo de desmoralizar-se a Academia. A mais autorizada voz de discordância em tais encontros era a do financista Roberto Símonsen, autor de obras clássicas nesse campo do saber e homem experimentado de negócios.

Vocês estão loucos! costumava dizer. Levantado esse prédio — dando de barato que cheguemos ao fim — a sua renda não bastará nem para o pagamento do empréstimo da Caixa ou de quem quer que se abalance a financiá-lo. Em tais ocasiões é mau conselheiro o entusiasmo. Toda a cautela é pouca.

Não percamos tempo com tais conversas e contestações. Passemos para dados mais concretos, para arrematar a contento o nosso quadro. A escritura de doação data de 1944; mas, o lançamento da primeira pedra só foi realizado no dia 25 de janeiro de 1948, data gratíssima para os paulistas e, sobre todos os títulos, memorável. A cerimônia contou com a presença do Senhor Presidente da República, o General Eurico Gaspar Dutra. Alguns anos depois, foi inaugurada na sede da Academia, quando a ideia daquela construção já se tornara esplêndida realidade, no átrio do belo edifício uma placa comemorativa da efeméride, além de figurar num quadro próprio a ata da cerimônia, numa das salas do segundo andar, em vistoso pergaminho adrede preparado, com as assinaturas que se seguem à do Presidente da República: dos membros da Diretoria, do Senador Roberto Símonsen, do arquiteto Jacques Pilon, dos acadêmicos presentes e de crescido, número de intelectuais e de pessoas de prestígio da sociedade paulistana.

Aliás, a inauguração foi resolvida com certo açodamento, bem antes do dia previsto para o início das obras, por haver corrido o boato de que o Governador de São Paulo — estava, então, nos Campos Elísios o Doutor Ademar Pereira de Barros — pretendia anular a doação, para instalar no casarão do Largo do Arouche algum serviço do Estado, de mais proveito para a comunidade do que uma simples Academia de Letras.

0 convite para o Presidente Dutra assistir à cerimônia do lançamento da primeira pedra, e a homenagem à sua memória, da placa comemorativa, no átrio da sede social, inaugurada em 27 de novembro de 1974, prendem-se ao empréstimo concedido pela Caixa Econômica Federal para o vultoso empreendimento, com a autorização do ilustre Presidente.

Mais uma vez, omitamos os passos dados, no sentido de arranjar esse fiador, e passemos sem maiores preâmbulos à cerimônia anunciada. A bênção religiosa da pedra fundamental foi ministrada no início da cerimônia por Sua Eminência o Senhor Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, Cardeal-arcebispo de São Paulo. Era, então, Governador do Estado o Doutor Ademar Pereira de Barros; presidente do Tribunal de Justiça, o Desembargador Teodomiro Dias; Prefeito da Capital, o Senhor Doutor Paulo Lauro, e Presidente da Assembléia Legislativa o Senhor Doutor Valentim Gentil... A construção deste prédio resultou da iniciativa dos diretores e demais membros da Academia, assim como do patrocínio que lhe concederam sucessivos Governos do Estado. O projeto da obra é da autoria do arquiteto Jacques Pilon, a quem foi também confiado o trabalho integral da sua execução. — A Academia Paulista de Letras, ao iniciar estas obras, confiando-as à proteção divina, espera que sua nova casa de trabalho seja propícia ao cumprimento da sua missão de cultura e aperfeiçoamento moral dentro da coletividade brasileira.

São expressões textuais daquele documento, a que se segue um sem-número de assinaturas das pessoas que vieram prestigiar a iniciativa, dispostas em todos os sentidos no belo pergaminho, e que, parecendo lançadas com displicência, senão mesmo com o propósito de enfeiá-lo, só contribuem para ressaltar o seu alto significado, à vista da sofreguidão das pessoas presentes, para aporem a assinatura no documento histórico.

Não é possível descer a minúcias no relato das diferentes fases da construção do prédio de propriedade da Academia, e do qual ela aufere renda própria para manter-se e custear suas iniciativas culturais. Na sessão de encerramento dos trabalhos do ano de 1955, realizada a 15 de dezembro, o tesoureiro Gofredo da Silva Telles apresentou o relatório final da sua administração, com a exatidão e meticulosidade muito próprias do seu estilo, conquanto se tratasse de fatos do conhecimento de todos — conforme salientou — pois durante o decurso dessa tarefa ingente não deixou de prestar contas de suas atividades, através de extensos, minuciosos e exaustivos relatórios, balanços, balancetes e demonstrações anuais, semestrais e mesmo mensais, apresentadas pontualmente por ele durante todo o período da sua gestão, e nas quais se registra, em conjunto e no pormenor, em todos os seus aspectos e episódios a vida administrativa da Academia.

Esse documento não foi publicado na Revista; mas, do apanhado que lemos no resumo das atas e dos seus relatórios anuais, é possível acompanhar nas linhas mestras a exposição do Relator, e admirar os frutos da sua fecunda e impertérrita orientação. Campanha iniciada sem recursos pecuniários, conduzida resolutamente através de incessantes dificuldades, foi levada vitoriosamente a termo por preço inacreditavelmente baixo.

Referiu-se, ainda, o nobre acadêmico à extraordinária rapidez com que foi formado o patrimônio da Academia e ao vultoso superavit com que se encerrava o exercício daquele ano. Aprouve-lhe mencionar, também, as normas de severidade administrativa de que promanaram tais proventos. Mas, transpostos os óbices da penosa fase de construção, concluído o custoso equipamento da sede social, e consolidado, como se achava, o grande patrimônio da Academia, tornara-se fácil prever a sua marcha progressiva para níveis cada vez mais elevados. A esse respeito, as contas apresentadas demonstravam que as rendas líquidas e permanentes da Academia já se achavam asseguradas em bases definitivas; recursos certos, que lhe proporcionam verbas folgadas para o custeio de seus serviços, com larga margem de sobras mensais e anuais para a ampliação concomitante de seus programas educativos e a incrementação progressiva dos capitais de renda.

Capítulo final

COM O TÉRMINO DAS obras e a inauguração da sede própria chegamos ao fim da nossa Pequena História. Daí em diante, tudo é diferente, ou melhor: tudo mudou. Nem o cenário é o mesmo, a cidade que mais cresce no mundo, nem as figuras do diálogo se comportam como antes, ou se esforçam por escutar o ponto e ouvir a leitura do libreto da velha Academia, bastante gasto pelo manuseio e desatualizado ao máximo. Nessas condições fora imprudência insistir nos tópicos prediletos dos nossos maiores, como se o tempo houvesse parado e os homens de hoje pudessem tirar algum proveito da discussão de assuntos tão surrados e totalmente carecentes de interesse.

O certo é que, com o surgir da sede própria, ao toque mágico da varinha de Próspero, o cenário da Academia Paulista transfigurou-se e os rumos da instituição sofreram uma guinada de tontear os mais experimentados timoneiros.

Que se trata de uma construção imponente, para durar mil anos — tal como a Academia original, a Academia katexokén, numa palavra: a Academia de Platão — bastará abrir os olhos para nos convencermos da assertiva, no caso, bem entendido, de só depender a duração de um instituto desse tipo de inabaláveis fundamentos materiais, princípio e mola da civilização moderna, e a chave miraculosa que nos desvendará os dilatados horizontes da história universal, das aventuras e dos feitos do homem em sociedade, depois de retirados da caverna.

Diante de transformação tão radical e da diferença do plano em que fora preciso movimentar-se, uma vez concluído o edifício e consolidado o patrimônio financeiro da Academia, só restava àqueles sonhadores entregar a direção do prédio à geração mais nova, para melhor dirigir os seus destinos e levar o barco ao porto seguro, sem desvios nem perigo de encalhar.

Pois não vimos há pouco o acadêmico Gofredo Telles, cônscio das limitações humanas, confiar aquela grandiosa iniciativa à proteção divina? Maior prova de atraso não fora possível nesta época em que o mecânico, a saber, o operário habilidoso, é considerado o mais elevado espécime do gênero homo sapiens que já teve a ventura de pisar neste planeta.

Nesse ponto preciso começa a história da terceira Academia, com problemas financeiros para serem relatados e de cuja importância os antigos acadêmicos nem sequer imaginavam. A fase de transição para a idade em que nos encontramos se processou imperceptivelmente, sem saltos nem comoções intestinas, e dentro do mais louvável espírito de camaradagem. Tudo se operou por si mesmo, tal como se observa nas transformações paulatinas da crosta da Terra, pela simples deslocação dos elementos, razão-de-ser da própria natureza na sua proverbial mobilidade.

Em resumo, o que se passou foi apenas isto: Nas primeiras eleições da Academia, depois de solenemente inaugurada a nova sede e de ela própria chamar a si a direção do seu belo patrimônio, foi vencida pelos novos a velha direção do Silogeu, em eleições conduzidas com a mais escrupulosa honestidade. E apeados do poder.

A bem da verdade, convirá esclarecer que vinha de longe a cisão no seio da Academia. Como já observamos, o período presidencial de Alcântara Machado se distinguiu pela harmonia reinante entre a Diretoria e o corpo de acadêmicos propriamente dito, sem dissensões internas nem formação de partidos no seio da sociedade, sendo decisivo nas eleições para o preenchimento das vagas do quadro social o parecer do Presidente com o seu alto descortino.

Já no período do Presidente Altino Arantes, o mais longo da história da Academia, firmou-se a doutrina de que o Presidente não deveria influir diretamente nas eleições, porém manter-se à parte, como simples espectador ante as paixões em jogo, e sem quebrar a sua serenidade olímpica para intervir no pleito ou indicar algum nome da sua simpatia.

Conforme teria sido fácil adivinhar, dessa época em diante somente a oposição elegia os seus simpatizantes. Essa estranha dualidade de poderes não podia durar indefinidamente: o do presidente e o do partido da oposição ao seu governo ou que outro nome lhe emprestemos — com a possibilidade de fortalecer-se este último a cada escolha de novos acadêmicos. É o que explica a derrota do Presidente Altino e de seus companheiros de Diretoria nas eleições de dezembro de 1956 para o biênio subseqüente, no momento preciso em que eles ultimavam a instalação da nova sede da Academia e proclamavam a sua independência econômica e financeira.

Missão cumprida, eis tudo. A vez, agora, é dos acadêmicos mais novos, borbulhantes de idealismo e do desejo de experimentar as forças na direção do barco. Para consolidar a posição dos novos, a reforma Cassiano Ricardo extinguiu os mandatos longos, nos cargos de Diretoria, só permitindo em cada caso particular a reeleição por mais um biênio, depois do que os diretores cediam o lugar aos seus colegas mais indicados para a direção da coisa.

A esse modo, aquelas eleições assinalaram o término natural da nossa Pequena História, ou melhor, este ciclo bem delimitado da história da Academia Paulista, e que vai desde a ideia muito avançada para a época, de criar em São Paulo uma Academia de Letras, por um médico que nem era paulista nem escritor de reconhecida competência, à plena realização desse mesmo sonho por um pugilo de acadêmicos bastante ingênuos para se deixarem contaminar do entusiasmo do velho Dr. J. J. de Carvalho, e levantarem no coração de São Paulo a Casa de Alcântara Machado e de Fernando Costa, de René Thiollier e de Gofredo da Silva Telles.

Como é fácil compreender — e sobre isso voltamos a insistir — aquela mudança de Diretoria marcou o início da fase nova da nossa história, que dificilmente poderá ser considerada continuação da que a precedeu no tempo. Há maior diferença entre essas duas fases da nossa história, do que a transição da primeira Academia para a reforma Gomes Cardim com a sua reformulação total da Sociedade.

Mas, para escrever a história da nova Academia rica e independente, e falar dos benefícios que a instituição desparziu sobre os seus associados, os novos relatores se ressentirão, de início, com a escassez de documentos. Conquanto a Revista da Academia esteja em dia com a publicação das atas das sessões ordinárias e dos discursos de recepção dos novos acadêmicos, documentos há que continuam inéditos, da mais alta significação para o estudo do nosso passado recente e das conquistas paulatinas, porém seguras, dos acadêmicos nas suas justas reivindicações, com respeito às regalias inerentes ao cargo e à dignidade dos respectivos titulares.

Serão duas histórias diferentes, por decorrerem de sistemas antagônicos de vida, duas filosofias em permanente estado de tensão: a academia modesta dos primeiros anos e a Academia independente dos nossos dias. Até ontem, a Academia só vivia da ajuda de terceiros — donativos generosos do Governo ou de sociedades particulares — o Jóquei Clube, entre outras — e até dos próprios acadêmicos em condições de favorecê-la. Seria o caso do deputado federal Menotti Del Picchia, que mais de uma vez incluiu a Academia na relação das entidades contempladas na repartição da sua verba oficial para gastos de benemerência. E que mais belo exemplo do que o de René Thiollier? Para editar quatro números por ano da sua Revista, outra coisa não fez senão importunar amigos e pessoas influentes, com pedidos de dinheiro. Em testamento, um simpatizante da nossa Casa e leitor assíduo da Revista, o comerciante J. Gonçalves Moreira, deixou-nos cinqüenta contos de réis, quantia apreciável para a época, se considerarmos que na década de 50 a edição de um número da Revista não chegava a três contos, no valor antigo (Revista n° 7, p. 154, setembro de 1939).

Pois foi nesse ambiente modesto que Afrânio Peixoto descobriu a própria essência do mais lídimo "espírito acadêmico".

"Em vez de umas sessões vazias, apenas para assinar o ponto, lograr proventos e partir: este cenáculo, em que o pão e o sal fazem conviver, demorar, pensar, dizer e, mutuamente, dar e receber o encanto familiar e humano, discreto e literário, da conversação."

E com a eloqüência muito própria, e a erudição ainda mais para louvar, apoiado em Santayana, alarga-se o grande camonista na diferenciação entre a oratória campanuda, arte para a plebe ou para grandes auditórios, e a conversação particular de alguns seres de exceção.

"O discurso é alarmante, sem réplica, enfático, peremptório... Arte para o povo, para espetáculo. A conversação é persuasiva, convincente, pede colaboração, aceita a contradita, promove o bom dito e a reflexão. Arte de boa companhia que afina os homens em humanismo... Não é esse o destino das Academias? Vós tendes a melhor parte." (Revista n° 8, dezembro de 1939.)

Depois desses conceitos tão lisonjeiros, seríamos levados a concluir que com a aquisição da sede própria o chamado Espírito acadêmico encontraria condições ideais para expandir-se. Porém, nada disso aconteceu. Num ponto central, em praça arborizada e livre das consabidas poluições — a do barulho e outras — de repente viu-se a Academia a braços com o mais grave problema da sua história: descobrir a causa do esvaziamento das sessões ordinárias e a completa falta de interesse, por parte dos acadêmicos, para essas reuniões. O que parecia natural ao descampado ou nalguma salinha de aluguel, tornara-se então impossível no novo ambiente.

De novo, perguntamos: que acontecerá? Para desintricar esse problema é que estão chamados os novos historiadores, ou melhor, os historiadores de verdade, contemporâneos de seus próprios feitos e que, como Tucídides, escrevam a história enquanto a história se fizer, e da qual eles próprios participam como atores, a um tempo, e espectadores, ou melhor: como corresponsáveis e juizes.

O assunto é fascinante, mas a vitória está à vista: hoje a Academia Paulista de Letras desfruta de prestígio incontestável no concerto das instituições culturais do nosso Estado e do Brasil, tanto pelo alto nível das suas publicações como por ser a agremiação literária que mais gratas recompensas distribui entre os seus membros componentes, animadores das sessões ordinárias e assíduos colaboradores da Revista.

Tudo isso, com referência ao passado recente, não à história primitiva, objeto de nossas cogitações, a dos antigos lidadores que se compraziam com o trabalho anônimo de complanar dificuldades e que se consideravam mais do que recompensados com a alegria de vencê-las. A história que nos propusemos escrever, de ambições mais modestas, só vai até à noticia oficial da inauguração da sede própria, marco da nova era em que nos encontramos: precisamente, a Pequena História, que se encerra neste ponto.





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