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AFRÂNIO PEIXOTO
COM O RISCO DE TORNAR fastidiosa a narrativa, foram relatados com certa minúcia os trabalhos da segunda Academia, a Academia de Alcântara Machado, de René Thiollier e de Altino Arantes, e que vai da morte de Amadeu Amaral, em 1929, à renúncia inesperada de Altino Arantes, em dezembro de 56, ao findar-se a instalação da sede própria. Foi uma geração de construtores, no mais lídimo sentido da expressão.

Nesta altura, a saber, com o início da construção da sede própria, entra em cena como figura de primeira plana, o acadêmico Gofredo T. da Silva Telles, de perfil inconfundível e sobre cujos ombros pesou a responsabilidade do bom êxito daquele empreendimento, verdadeira loucura, na opinião dos mais acreditados acadêmicos — Roberto Símonsen e outros — dadas as condições desfavoráveis do comércio imobiliário na década de 40. No tempo certo voltaremos a falar dos seus méritos e do muito que lhe deve a Academia para alcançar a sua independência versus a generosidade de terceiros e impor-se como entidade cultural do mais alto padrão em nosso meio. Animava-o, como a poucos, o entusiasmo contagiante do dr. J. J. de Carvalho. Não foi por acaso que ao término da construção do edifício levantado no Largo do Arouche, e logo após a sua inauguração oficial, mandou esse acadêmico insculpir por conta própria, quando já não exercia nenhum cargo na Diretoria, em lugar de relevo, um medalhão de bronze com a efígie do Dr. J. J. de Carvalho, como preito individual de reconhecimento à memória do grande idealizador da Academia Paulista.

Mas, pela própria limitação do título deixaram de ser mencionados muitos nomes nesta Pequena História da Academia Paulista, com o seu quadro de ocupantes em permanente estado de renovação. De regra, em vinte anos engalana-se a Academia com quarenta festivais, ou sejam, oitenta discursos, de saudação e de posse; só não havendo renovação total dos titulares, na trajetória de tais ciclos, em virtude da preferência nada invejável das Parcas, com relação a determinadas Cadeiras, o que permitiu a alguns privilegiados sobreviver à hecatombe. Na presente data, 1979, somente três acadêmicos podem orgulhar-se de terem sido contemporâneos dos grandes luminares do passado da Academia triunfante: Gofredo T. da Silva Telles, Menotti Del Picchia e Oliveira Ribeiro Neto. Mas, o certo é que naquela fase de crescimento da Academia, todos contribuíram para manter o nome da instituição no nível estabelecido pelos primeiros construtores, os que se deixaram contaminar do divino entusiasmo, ainda no albor do século expirante. Para tanto, não havia necessidade de indicação especial; onde quer que aparecessem, no exercício normal de suas atividades, servia-lhes de credencial o simples título de membro da Academia Paulista de Letras; no começo, com algumas reservas; mas, aos poucos, com demonstrações crescentes de respeito e até de emulação.

Assim, o prestígio crescente da Academia era constituído pela soma dos aplausos colhidos por seus membros nas mais diversificadas circunstâncias. Ao falarmos desse trabalho anônimo ou — como diremos? — involuntário, surge-nos à mente a imagem dos santeiros de Júlio Dantas, que, em decorrência mesmo de sua profissão, ao se retirarem da oficina de trabalho deixavam cair por onde passassem, das vestes e das mãos, poeira fina de ouro.

Só há vantagem em repetir: paradoxalmente, foi essa a idade de ouro da Academia pobre. Afrânio Peixoto, numa das suas visitas à Academia Paulista — note-se: a Academia destelhada, naquelas recepções improvisadas do pé para a mão — apanhou com felicidade única esse traço essencial da nossa Academia, a exuberância dos benefícios espalhados, em contraste com a exigüidade dos recursos próprios. E, para exemplificar com o paradigma das Academias, a Academia Francesa, recorda as suas instalações modestas, "numa sala de empréstimo, no segundo andar, ala esquerda do Palácio Mazarino". Dispõe, é certo, a Academia Francesa de imensos tesouros para distribuir benesses a mãos cheias, prêmios quantiosos de cem mil francos, e menores, infinitos, não apenas ao talento como à virtude. Mas é pobre; o jeton é escasso, senão mesmo irrisório, simplesmente simbólico.

E com a afabilidade que a todos encantava, no meio de seus amigos de São Paulo, depois de confessar que, se não fosse natural da Bahia desejaria ser paulista, encorajava os acadêmicos presentes, sem lhes dar tempo de se envergonharem daquela recepção numa sala de empréstimo, ou de aluguel, porque de tudo careciam, mas que fosse um cubículo de sua propriedade.

"Para que lastimar a sua pobreza a Academia Paulista de Letras? Se for um dia afortunada, fará mais conta dos seus haveres, do que dará conta de literatura e espiritualidade... Não é o mesmo com o homem? Diogo do Couto conta, de Camões, em Moçambique, que, de tão pobre, "comia de amigos"; por isso havia escrito os divinos carmes dOs Lusíadas. Rico, as letras seriam de câmbio, ou o que as valesse, e não teria amigos, senão serviçais, e, no tráfico da pimenta e da especiaria, havia de esquecer as Musas... Temos de escolher, e, pelo divino Juízo, Maria optimam partem elegit... Marta terá suas compensações."



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