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RENÉ THIOLLIER
QUANTO A RENÉ THIOLLIER, sempre será pouco o que se disser, no sentido de encarecer o seu grande merecimento nessa longa fase da história da Academia, em que, por falta de sede própria, era difícil tornar-se conhecida no nosso meio como instituição independente e projetar-se fora do Estado com o prestígio de que veio a gozar anos afora, depois de definitivamente instalada na sua nova sede. Só a criação da Revista e a sua manutenção durante tantos anos consecutivos, abriu-lhe um crédito positivo na gratidão da Academia, apesar da sua impertinência, ou por isso mesmo, para obter de seus companheiros de casa a colaboração necessária para cada número programado.

Na vida social, então — hoje, diríamos: no setor das relações públicas — era multímoda a sua atividade. Bastante viajado, com boas relações na Europa, principalmente em Portugal e na França, tornou conhecida e procurada a nossa Revista, o que ele não deixava de assinalar na secção competente.

Como escritor e participante dos debates ou polêmicas então freqüentes por toda a parte — os "Movimentos", as "Escolas", a célebre "Semana" — um dos seus traços mais simpáticos é a isenção de ânimo e a independência nos juízos sobre as figuras de primeira linha em toda essa agitação, do que é valioso testemunho o seu pequeno escrito "A Semana de Arte Moderna — depoimento inédito" (Editora Cúpolo, São Paulo, s/d, mas com referências, no contexto, a artigos da imprensa diária por ele refutados, de 1944; exemplar com dedicatória a Freitas Vale, de 27-XI 1-1953).

Alguém que usava o pseudônimo de "Alceste" e que ele, René, não chegou a identificar — ou que não importava identificar — escreveu, entre outras coisas: "René Thiollier não tomou parte absolutamente na "Semana". Ele está, portanto, no pleno direito de dizer mal de um movimento a que absolutamente não pertenceu. O diabo é que não sei se alguém poderá se interessar pelas ideias das personagens do sr. René Thiollier".

0 articulista se referia a certo escrito de René Thiollier, publicado na nossa Revista, em que uma das personagens discorre com azedume sobre os acontecimentos do dia e particularmente sobre aquela efeméride. Para encurtar razões, transcrevamos apenas o seguinte trecho, bem característico da posição de René Thiollier em toda aquela agitação, além de ser um flagrante feliz da sua familiaridade com os altos escalões da política do nosso Estado.

"Diz Alceste que eu não tomei parte na famosa assembléia; como figurante no elenco dos artistas, é possível. De mais a mais, eu havia chegado da Europa, onde estivera largos anos, e o que se ia realizar em São Paulo, em 1922, era uma coisa que já havia passado de moda; a ninguém mais interessava. Agora, que fui um destacado elemento da "Semana" posso lhe assegurar que fui, e lhe vou provar, embora não me vanglorie disso..." E mais adiante: "Fui seu empresário. Basta dizer que o Teatro Municipal me foi cedido, a mim, por alvará de 6 de fevereiro de 1922, pelo então prefeito da nossa Capital, o saudoso Dr. Firmiano Pinto, que muito me distinguiu com a sua amizade. Consegui, ainda, de outro amigo meu, o Dr. Washington Luís Pereira de Sousa, presidente do Estado, que o seu governo custeasse uma parte das despesas com a hospedagem dos artistas e escritores que vinham do Rio. Além disso, organizei um comitê patrocinador da "Semana", composto dos senhores Paulo Prado, Antônio Prado Júnior, Armando Penteado, Edgard Conceição, José Carlos de Macedo Soares, Oscar Rodrigues Alves, Alberto Penteado, Alfredo Pujol e eu".

O escrito de René Thiollier que provocou aquela invectiva de "Alceste" é identificado mais adiante pelo próprio Thiollier. Trata-se de um dos capítulos do livro "Folheando a Vida" e publicado aos poucos na Revista, até o ano de 1948. Aquele número, o 24, é de dezembro de 1943, ainda em vida, por conseguinte, de Mário de Andrade. É de admirar a maneira desinibida por que se refere René Thiollier à Semana em geral, e particularmente à figura do seu principal animador, identificável com facilidade na sua narrativa, apesar do pseudônimo com que o autor do livro no-lo apresenta. Trecho de um diálogo entre duas personagens daquele escrito, com referência a um livro recentemente publicado:

"— Como! Não teve a curiosidade de ler? — Li umas trinta páginas. Não pude ir além. Você verá. É a coisa mais idiota que se tem publicado até hoje. Coisa sem pé nem cabeça, de uma pornografia sórdida, naquela linguagem "estilo angu", que nos legou a "Semana de Arte Moderna", a que essa gente, hoje, tanto se refere, tanto fala, como tendo sido a coisa mais extraordinária, mais fenomenal que se realizou no Brasil; até brigam por causa dela. Agora todo o mundo diz que fez parte da "Semana". Cada vez que o elenco dos figurantes é publicado, surge sempre no meio um nome novo. Quem fica fulo com isso é o Janjão Godói, que, naquele tempo, já era o meninão velho de hoje, sempre com o cachaço tourino, meio vergado, sacudindo a cabeça e os quadris quando caminha."

Maior irreverência não é possível, mas muito do agrado do homenageado, que media a sua popularidade pelas críticas ou comentários referentes à sua doutrinação e à sua pessoa. E tanto mais, que, partindo de René Thiollier, tudo era recebido com espírito desportivo. Mas, a rigor, a este é que cabia como uma luva o conceito de meninão grande, que todos apreciavam e sabiam desculpar.

Por duas vezes na sua vida de acadêmico René Thiollier teve oportunidade de revelar esse traço verdadeiramente infantil do seu caráter, num misto de vaidade e exibicionismo: por ocasião da morte de Alcântara Machado, seguida da escolha do seu sucessor na presidência da Academia, e mais adiante, já no prolongado mandato presidencial de Altino Arantes, numa das crises a que nos referimos, sobre a rebeldia dos acadêmicos recém-eleitos e que não davam ouvidos às instantes intimações da Diretoria para se desobrigarem da parte final do ritual acadêmico, com o seu discurso de posse em sessão pública e solene.

Eleito para preencher a vaga aberta com o falecimento de Alberto Seabra (Cadeira n° 12), a 14 de setembro de 1934, pouco depois, com a morte de Artur Móta - setembro de 1938 — foi eleito René Thiollier "com entusiasmo e por aclamação" de seus pares para o cargo de Secretário-Geral da Academia. Insistamos nesta pequena particularidade: Secretário-Geral da Academia, que irá assumir dentro de pouco especial importância nesta relação. Em seus próprios termos, para bem localizarmos no espaço e no tempo os acontecimentos a seguir: "Fui seis anos Secretário-Geral, e faz onze anos que sou Secretário perpétuo, independentemente de eleição".

Como Secretário-Geral, desempenhava-se René Thiollier de suas funções com excepcional brilho, mormente a partir da criação da Revista, sua menina dos olhos, que ele soube conservar em alto nível por sessenta números consecutivos.



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