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DIFICULDADES
A PRINCIPIO, OS TRÊS promotores da reforma meteram mãos à obra sem problemas à vista, tendo ficado estabelecido desde a segunda sessão — de 25 de abril — que se preenchessem imediatamente as vagas por morte, e ficassem para mais tarde as eleições para as poltronas dos ausentes. "Os acadêmicos residentes fora de São Paulo figuram agora na nova classe dos acadêmicos ausentes", de acordo com a redação dos Estatutos reformados por Spencer Vampré, o que dá a entender que ficavam desocupadas as respectivas poltronas, para serem oportunamente preenchidas. O certo é que não ficou esclarecido se tais Cadeiras passariam dai em diante a ter concomitantemente dois ocupantes, uma vez realizadas as eleições para o seu preenchimento, ou se o número de Cadeiras do quadro social subiria para 47 ou 50, conforme dias depois foi sugerido. Só muito mais tarde, nos debates em torno de propostas conflitantes entre si, seriam consideradas mais de espaço as implicações daquele enunciado ambíguo.

Assentado esse ponto, depois de preenchidas as doze vagas por morte - primeiro, sete; depois mais cinco, na sessão de 19 de maio — foi transcrito em ata o quadro definitivo dos acadêmicos e patronos, que nos dispensamos de copiar. Para nosso intento, bastará assinalar que os sete "ausentes" não formavam uma nova classe, mas permaneciam nas suas tradicionais poltronas, sem qualquer conotação discriminatória: Cláudio de Sousa na Cadeira n° 20, com o Barão de Piratininga como patrono; José Feliciano de Oliveira, n° 40, com José Bonifácio, o Velho. E assim com os demais. Ninguém falou "na nova classe de acadêmicos", conforme rezavam os novos Estatutos.

Nessas condições, se aparecesse algum escritor retardado, com pretensões a uma vaga, a la una os acadêmicos presentes lhe diriam que todas as vagas estavam preenchidas; aguardasse outra oportunidade, igual à do decênio expirante, em que as Parcas andaram por demais atarefadas em São Paulo, com indisfarçável preferência — e unia pontinha de malícia — para a classe dos imortais.

Nesse ponto começam as dificuldades para o leitor do livro de atas de Ulisses Paranhos, quando passasse da quinta para a sexta sessão, a de 3 de maio, pela impossibilidade de compreender os dizeres do adendo exarado no fim da ata anterior, a do dia 1°, também assinado por três acadêmicos, porém não exatamente os mesmos, da ata daquele dia. Subscreveram a ata: Ulisses Paranhos, secretário; Amadeu Amaral e Afonso de Freitas. A seguir, com o espaço de uma linha lemos a seguinte nota, com caligrafia igual à do documento principal: "Em tempo: foram eleitos na sessão supra membros da Academia os senhores Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo e Plínio Salgado, declaração que foi omitida acima por esquecimento, ficando Gomes Cardim encarregado de participar aos novos acadêmicos esse fato. São Paulo, 1° de maio de 1929. Amadeu Amaral, Ulisses Paranhos, Gomes Cardim".

Por isso mesmo, quando esse leitor passasse para a ata subseqüente, do dia 3, poderia imaginar que o assunto obrigatório da sessão iria ser a comunicação desse fato novo, ou seja, a eleição, ao cair do pano, de mais três acadêmicos. O único motivo de estranheza seria o excessivo laconismo da notícia, por faltar a indicação do número das Cadeiras dos novos titulares. Se o quadro já estava completo, tal como se via no corpo da ata, onde e como ficariam aqueles acadêmicos com a nova acomodação?

Seria esse o mais pesado encargo da Diretoria, comunicar aos acadêmicos presentes o que todos estavam fartos de saber: a eleição de três novos escritores, indicados nominalmente no citado pós-escrito. Mas, semelhante notícia equivalia a considerar nula a composição apresentada oficialmente na sessão anterior. Tratava-se, agora, de levar adiante a reforma iniciada, e de substituir os sete "ausentes" por outros tantos escritores domiciliados em São Paulo. E, da mesma forma que a primeira eleição se processara em dois turnos, dado o número elevado de Cadeiras vazias, a eleição desses três escritores implicava mais um pleito, para a escolha dos outros quatro candidatos à imortalidade.

Porém, nada disso aconteceu, apesar de que o número de acadêmicos presentes à sessão como que prenunciava que algo fora do comum estava para acontecer. Foi a sessão mais concorrida daquela série, com vinte nomes no cabeçalho da ata, todos conhecidos das sessões anteriores, e mais uma visita inesperada, que desde o início dos trabalhos se tornou o centro das atenções e influiu decisivamente na marcha dos trabalhos, tão meticulosamente programados: o Dr. Cláudio de Sousa, da Academia Brasileira, que se deslocara do Rio para participar das sessões da velha Academia por ele fundada vinte anos antes, juntamente com Outros escritores de São Paulo. E tão nervoso devia estar Ulisses Paranhos ao fim dos trabalhos do dia, que, ao redigir a ata, enfeitou ainda mais o nome do presidente da sessão, quase sempre por ele grafado à sua moda: "sob a presidência do Amadeo do Amaral".

Ser-nos-ia grato poder afirmar, com base em outros documentos, que Cláudio de Sousa se deslocara do Rio com o fim exclusivo de participar daqueles debates. Mas, nesse particular as fontes emudecem. De qualquer forma, essa visita só depõe a favor do seu paulistanismo e do amor à Academia que ele ajudara a levantar. O fato é que na mesma noite retornou para o Rio. Mas, pelo discurso de Amadeu Amaral, verificamos que ele se demorara alguns dias entre nós, o tempo suficiente para inteirar-se do que se passava na Academia, parecendo mesmo que só comparecera à reunião do Conservatório depois de devidamente informado do que havia.

Tudo indica que ele já sabia da escolha de alguns nomes para as Cadeiras dos "ausentes". Nem podia ser de outra maneira. Com quem conversaria naqueles dias, senão mesmo com seus antigos companheiros e, de modo geral, com os escritores mais influentes no nosso meio? O ressurgimento da Academia era assunto obrigatório de todas as rodas. O seu protesto na reunião do dia 3 devia, pois, estar bem fundamentado, muito embora falasse livremente, sem apontamentos nem rascunhos para orientar-se no que dissesse. Em falta de outras informações, contentemo-nos com os termos por demais concisos da ata:
"Em seguida, ainda no expediente, o Dr. Cláudio de Sousa fez algumas considerações sobre a disposição dos atuais Estatutos, que criou a classe dos acadêmicos ausentes, elegendo para as Cadeiras deles novos titulares. Isso não lhe parece justo, e cria uma dualidade em certas Cadeiras, que se lhe afigura irrazoável".

Depois do retorno de Cláudio de Sousa para o Rio, ficou bastante incômoda a posição dos acadêmicos deliberantes. O que a sua interferência viera provar é que a velha Academia não morrera: ali se encontrava um dos sobreviventes, e disposto a reivindicar o seu direito de voto no capítulo. Não tinha cabimento, pois, fazer tábula rasa no passado da Academia e manejar os remanescentes da velha instituição como trastes herdados de algum casarão arruinado, que a gente acomoda em qualquer canto, por não ter coragem nem meios de desfazer-se deles.

Da sessão do dia 4 de maio, a 7 ª da reforma em curso — note-se: pela primeira vez, sem um dia permeio — só nos interessa a exposição inédita de Amadeu Amaral; por esse discurso lido, ficamos conhecendo as soluções propostas, as contradições dos acadêmicos ali reunidos, e a própria desorientação do presidente.

Nem nos deteremos na longa justificativa de Spencer Vampré, sobre o verdadeiro propósito dos novos acadêmicos: Nunca houvera intenção de melindrar ninguém. Os "ausentes" permanecerão nos seus lugares, por direito de conquista. Tudo isso vem analisado por miúdo no discurso de Amadeu. Mas, antes de transcrevê-lo na íntegra, precisaremos falar da eleição dos três acadêmicos anunciados naquele apêndice, e das condições especialíssimas da escolha de seus nomes. No ponto em que se achavam, os promotores da campanha não tinham outra saída e, à frente de todos, o próprio Presidente` Uma vez conhecidos esses pormenores, encontraremos facilmente a explicação daquele adendo deslocado de lugar e que, de caso pensado, deixamos de lado, à espera do momento oportuno para o seu estudo.

Como vimos há pouco, desde os primeiros entendimentos para a composição da nova Academia, três dos antigos acadêmicos se puseram em campo, no que diz respeito à remessa dos convites e à escolha dos nomes para o preenchimento das vagas acumuladas: doze por morte e sete por ausência definitiva dos titulares:

Gomes Cardim, Ulisses Paranhos e Amadeu Amaral. Muitas eram as Cadeiras vazias, porém muitas mais as cartas de convite ou as respostas que nos chegavam. Consideremos, ainda, que toda a reforma se processou em pouco mais de uma semana, duas no máximo, e que desde a segunda reunião, por proposta de Alberto Seabra foi considerada a Academia em estado de sessão permanente. O trabalho era exaustivo. Tudo isso explica, e até justifica certo atropelo nas deliberações tomadas, senão mesmo as contradições patentes, que em outras circunstâncias seriam censuráveis.

A primeira particularidade a chamar-nos a atenção na lista dos doze nomes escolhidos para as Cadeiras vagas por morte, é o reduzido número de poetas, em confronto com os juristas ou médicos, filólogos e historiadores de reputação firmada. Naquele compasso, ao término da reforma encabeçada por Amadeu Amaral, a Academia se expunha, como no começo, a tornar-se alvo dos sarcasmos dos descontentes, como no caso de Vicente de Carvalho, nos idos da sua fundação: Academia de poucas letras, no sentido de escassearem os representantes das letras floridas, romancistas e poetas, como fora de esperar do seu nome de batismo.

É que o critério da escolha daqueles nomes ainda se ressentia das provocações da campanha de 22, principiada na Europa alguns anos antes, por Marinetti e outros pregadores do nimilismo literário, e em São Paulo e no Brasil pelos inquietos promotores da Semana de Arte Moderna.

Se procurássemos apenas, ou principalmente, literatos, no sentido restrito da expressão, romancistas ou poetas, críticos de teatro, seria fácil escolher nomes em evidência no nosso meio, de projeção nacional, mas, de alguma forma, comprometidos com o decálogo de vinte pontos da célebre Semana.

Tudo isso explica, numa reforma dirigida por Amadeu Amaral, a ausência do nome de Mário de Andrade na composição do novo quadro da Academia, o de maior relevo, até hoje, como agitador de ideias, nos anais da literatura nacional. Iniciado em São Paulo o movimento para reerguer a Academia Paulista combalida, Academia de Letras, no verdadeiro sentido da expressão, de uma agremiação de estudiosos identificados com o programa anunciado na Carta magna original, de cultivar as tradições da língua pátria, a língua portuguesa, e de trabalhar para a sua conservação e aprimoramento, ficava naturalmente fora de cogitações o nome de Mário de Andrade, que, por atos e por palavras, preconizava o contrário de tudo quanto inculcava, desde o primeiro dia, o lema da novel associação: Pro litteris scientiisque laboramos.

Teleguiados da Europa desfalecida de após-guerra, pelos interessados na "decadência do Ocidente", hoje podemos achar graça nas frases explosivas daqueles revolucionários das letras, desejosos de pôr em prática o que lhes ensinavam os dirigentes afastados. Mas, naquela hora a situação era de medo, mesmo porque os resultados negativos da campanha já estavam patentes para quem tivesse olhos de ver e de enxergar.

Não há regras. Queimemos os museus e as bibliotecas, era o que todos conclamavam sorridentes, nas suas conferências e nos livros, com a mesma inconsciência dos árabes no incêndio, por eles mesmos ateado, da Biblioteca de Alexandria, quando anunciaram oficialmente a queda do cambaleante monumento da cultura grega. O Alcorão, sozinho, como livro, bastava para todas as necessidades. E até sobrava.

E de cambulhada, também, os clássicos da língua portuguesa, definitivamente mortos e empalhados nas vistosas edições das "Obras Completas", de função puramente decorativa nas bibliotecas (!) dos reformistas mais endinheirados, que se davam ao luxo de comprar tais objetos para enfeitar seus escritórios.

Os mais visados dos expoentes da nossa literatura, nessa campanha, foram: Olavo Bilac, como representante credenciado da Poesia abastardada na pena daqueles moços despreparados; e o prosador Coelho Neto, dono de uma centena de garrafas vazias nas prateleiras de suas estantes, segundo a frase cáustica do seu confrade Graça Aranha, na Academia Brasileira, que se esbofava, de braços dados com os rapazes de gênio alegre, naquela campanha de vida e de morte contra a nossa cultura.

Mas, a bem da verdade, convém ressaltar que Amadeu Amaral foi poupado nas arremetidas de Mário de Andrade contra a Poesia e o seu Parnaso, com mostras de deferência que Amadeu interpretava no seu devido valor, sem ilusões nem agradecimentos exagerados. É o que nos revela Nogueira Moutinho em estudo recente, "Amadeu Amaral, grande poeta" ("Folha de São Paulo" de 1-4-78):

"Note-se que Mário de Andrade, na clamorosa série de artigos sobre "Os Mestres do Passado", em que escalpelou impiedosamente, no "Jornal do Comércio", de Bilac a Alberto de Oliveira, a augusta plêiade dos corifeus do Parnaso, poupa na diatribe o poeta que, ainda em 1924, iria publicar um livro fortemente passadista como "Lâmpada Antiga".

Correspondiam-se; mas, da parte de Amadeu, com o tratamento cerimonioso que exclui, de início, intimidade.
"O senhor está ligado em minha terra, que é também a sua, a uns tantos escritores e poetas que me têm feito uma guerra surda, surda quase sempre, às vezes aberta, pagando com maledicências e com epítetos de todo tamanho a atitude altamente imparcial, serena, compreensiva e até simpática que sempre mantive, por temperamento, por sistema, por curiosidade de espírito, por esforço de equanimidade, diante de todos quantos, bem ou mal, aparecem a labutar em letras neste país analfabeto". (loco cit.)

Daí, não haverem cogitado do nome de Mário de Andrade nas primeiras conversações, nem no de outros poetas também comprometidos com o movimento de 22. O caso de Guilherme de Almeida é sui generis: desde a primeira hora a Cadeira n° 22 lhe pertencia por direito de herança. Não foi consultado; foi chamado para preencher condignamente o vazio aberto naquele cenáculo com o falecimento de seu pai, o professor Estêvão de Almeida. Cleómenes Campos, de gênio retraído, sempre refugou o Modernismo e suas facilidades. Era tradicionalista por cultura e temperamento; era poeta, simplesmente poeta, sem qualificativos.

Dada a absoluta falta de depoimentos dos escritores implicados na reforma da Academia, nada nos é possível adiantar sobre a escolha desses nomes para preencher três vagas dos "ausentes" : Menotti, Cassiano e Plínio Salgado. O certo é que nenhum deles estava incompatibilizado com Amadeu Amaral, conquanto divergissem em pontos de doutrina. E, muito embora já houvesse sido anunciado o novo quadro dos sócios, não ficara definitivamente afastada a ideia de elegerem novos titulares para aquelas Cadeiras.

Ali estava a melhor oportunidade para Amadeu Amaral dar mais uma prova de sua equanimidade, com acolher de boa mente na Academia ressurgida aqueles moços até há pouco empenhados na campanha de descrédito contra as Academias e os poetas parnasianos, ou, de modo geral, as tradições de nossa cultura.

Tal disposição de ânimo por parte de Amadeu foi posta a dura prova com a visita inesperada de Cláudio de Sousa. Quer Amadeu Amaral já se tivesse comprometido pessoalmente com os escritores indicados, quer o fizesse apenas pelos meios oficiais, o que é mais provável, depois da resposta aquiescente dos interessados não lhe seria possível desdizer-se.

Daí o nervosismo de sua fala nessa parte do discurso, e a insistência com que se dirige aos seus confrades, quando trata do problema das três vagas preenchidas na tarde antecedente, do que ninguém tivera conhecimento.

"Restam, porém, três igualmente eleitos, igualmente convidados, que só na sessão de ontem, por intermédio do nosso prezadíssimo confrade Sr. Gomes Cardim, deram a conhecer à casa a sua aquiescência. São os senhores Menotti Del Picchia, Plínio Salgado e Cassiano Ricardo. De maneira que, — fazei o favor de notar bem, — no caso de que se deseje abolir as disposições sobre as quais levantou dúvidas o nosso ilustre confrade Sr. Cláudio de Sousa, esses três eleitos deixarão de entrar para a Academia, esses três convidados terão de ver fechada a porta a que não vieram bater, e para a qual foram chamados! Logo se vê, a situação é a mais séria possível."

Conforme observamos, a ata da sessão do dia 4 é a mais extensa de todas. Evidentemente, não foi lavrada de afogadilho, mas na calada da noite, por Ulisses Paranhos, possivelmente com a ajuda de Artur Mota. O discurso de Amadeu vem transcrito na íntegra, medida providencial a que devemos a sua preservação. Todavia, não ficou resolvida satisfatoriamente a questão da entrada dos mencionados escritores, tendo sido encerrados os trabalhos com propostas desencontradas e que nada resolviam. O voto de Artur Mota é típico da desorientação dos acadêmicos, por envolver numa proposta pareceres diferentes e em parte por ele mesmo rejeitados:

"O Sr. Artur Mota, justificando o seu voto, disse que, embora infenso, por Princípio, ao aumento do número de membros efetivos da Academia, pelo que pudesse atrair de animosidade e comentários críticos a S. Paulo, reconhecia a imensa vantagem indicada pelo seu ilustre e prezadíssimo confrade Sr. Afonso de Taunay, subscrevera a proposta e votara a favor da mesma. Era apenas irredutível contra a disposição dos estatutos em relação aos acadêmicos ausentes mesmo com a modificação sugerida pelo projeto rejeitado. Aceitava qualquer outra que conciliasse a situação dos três novos acadêmicos eleitos com o respeito absoluto aos direitos dos membros ausentes, na qualidade de efetivos. Havia refletido sobre o assunto e estava disposto a apresentar unia ideia a respeito; mas, por ter visto uma proposta redigida pelo Sr. Afonso de Freitas, deixara de o fazer. Aceitava tanto o aumento do número de sócios, como a adoção de membros supranumerários, ou a fórmula constante do projeto Freitas, desde que fossem considerados intangíveis os direitos dos seis acadêmicos ausentes."

Seguindo na mesma esteira e como complementação do voto anterior, ouçamos a palavra de Afonso de Freitas:

"O Sr. Afonso de Freitas também justificou o seu voto, apesar de autor de uma proposta diferente, que não apresentara. Julgava que a substituição da palavra ausentes por honorários não era satisfatória, porque a distinção de membro efetivo e honorário é diferente, em face de todas as associações. Desde que o seu distinto amigo e prezado confrade — Sr. Artur Mota — aludira à sua proposta escrita, pedia licença para apresentá-la. (Leu:)

1° Aos membros ausentes da Academia fica assegurada a posse perpétua de suas Cadeiras.

2° O número de membros da Academia, atualmente elevado a 43, ficará definitivamente fixado em 40, logo que se verifiquem três vagas, por falecimento, as quais não serão preenchidas.

3° Ficam revogadas as disposições em contrário."

Foi só depois de lavrada e assinada a ata desse dia que ocorreu ao secretário deixar anotado no próprio livro a eleição dos três últimos acadêmicos, para torná-la irreversível, conforme acreditava. Com essa disposição, começou Ulisses Paranhos a sua nota, depois da ata da sessão do dia 3, ou seja, na véspera da visita de Cláudio de Sousa. Mas, antes de completar a linha, anulou o que havia escrito:

"Em tempo. Foram eleitos por unanimidade membros da (nullo)..." Alguém poderia ter dito que esse adendo ficaria melhor no fim da ata do dia 1°, para distanciá-la um pouco mais daquela visita inesperada. Para a Diretoria, a melhor política devia ser a dos fatos consumados, já que a proposta com os três nomes, para todos os efeitos, deveria ser considerada irreversível. Qualquer acomodação para o problema dos "ausentes" deveria contar com esse fato: a tomada de três das sete Cadeiras dos "ausentes", por já estarem empossados aqueles escritores. E, da parte destes, muito embora nenhum dos três soubesse com segurança o número da sua Cadeira, e muito menos o nome do seu antecessor, o fato é que todos já se consideravam eleitos por unanimidade para a Academia.

Ninguém pensou na ilegalidade daquele documento e nas possíveis conseqüências para o futuro da instituição. O tempo era escasso para reflexões dessa natureza, apesar do grande contingente de juristas nas sessões preparatórias. Assim, não ficará redundante transcrevermos mais uma vez aquele apêndice tão fora de lugar. Como nos poemas de Homero, os mensageiros dos homens ou dos deuses transmitem seus recados palavra por palavra, linha por linha, numa repetição de grande poder sugestivo, sem acréscimos nem comentários descabidos:

"Em tempo. Foram eleitos na sessão supra membros da Academia os senhores Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo e Plínio Salgado, declaração que foi omitida acima por esquecimento, ficando o Sr. Gomes Cardim encarregado de participar aos novos acadêmicos esse fato. São Paulo, 1° de maio de 1929."

Agora, nada mais falta para tomarmos conhecimento do discurso inédito de Amadeu Amaral, lido em plenário no dia seguinte ao do retorno de Cláudio de Sousa para o Rio.

X

Texto da "Exposição" inédita de Amadeu Amaral, lida na 7ª sessão da Academia, a 4 de maio de 1929 DISPÕEM OS ESTATUTOS da nova Academia, modificados há tempos, conforme consta de documentos autênticos, que os acadêmicos residentes fora do Estado passem para a categoria de ausentes, sendo preenchidas as respectivas cadeiras por eleição de novos acadêmicos, aqui domiciliados, e que portanto, possam participar dos nossos trabalhos. O pensamento dos que fizeram a reforma — e sobre isto eloqüentemente depôs, ontem, o nosso prezadíssimo confrade Sr. Spencer Vampré, — não teve, nem podia ter, sequer o mais leve resquício de menosprezo ou hostilidade para com os nossos confrades residentes fora do Estado. Basta enumerar-lhes os nomes para se verificar que se trata de personalidades ilustres, dignas de respeito e admiração por todos os motivos, e de cuja ligação a este instituto os demais acadêmicos só têm razões para se ufanar: Monsenhor Benedito Alves de Souza, hoje bispo do Espírito Santo, o ministro Pedro de Toledo, o Dr. Cláudio de Souza, o Prof. Erasmo Braga, João Vampré, Basílio de Magalhães e José Feliciano de Oliveira, que fixou residência em Paris. O fim que se levou em vista foi o mais louvável. Uma agremiação como a nossa dificilmente consegue quorum para as suas deliberações e para a prossecução regular dos seus trabalhos nas comissões e em plenário. Convinha, nomeando novos acadêmicos, residentes na Capital, diminuir as causas de afastamento e paralisação, que tão constantemente atuam, — sem que com isso se pensasse em retirar ou restringir o caráter de acadêmicos efetivos aos que se acham domiciliados fora.

Ontem, porém, o nosso prezadíssimo confrade, Sr. Cláudio, de Souza, que se acha há dias nesta Capital, dando-nos o prazer da sua presença, também nos quis dar o prazer da sua palavra, mostrando o apreço e o interesse que a Academia Paulista merece ao seu espírito de homem de letras, como ao seu coração de paulista. O Sr. Cláudio de Souza levantou diversas dúvidas a respeito das disposições estatutárias a que nos vimos referindo, — dúvidas que, por serem fundadas, e por serem aventadas com o brilho que ele sabe dar à sua palavra, calaram fundo no espírito dos srs. acadêmicos. Em resumo, S. Excia. pensa que as ditas disposições não devem subsistir, porque ferem direitos adquiridos. Além disso, criam uma situação que lhe parece estranha: ficarem os acadêmicos ausentes com a sua qualidade de acadêmicos realmente diminuída, visto que ficariam sem suas cadeiras, mas estas seriam ocupadas por outros.

Sobre essas dúvidas, levantadas pelo Sr. Cláudio de Souza, travou-se animada discussão, divergindo da seguinte forma os pareceres, no ponto essencial em disputa: uns, entendendo que era necessário abolir as disposições aludidas, voltar ao regimento antigo, manter sem alteração o número de quarenta acadêmicos, todos em perfeita igualdade de categoria; outros, julgando que a reforma estatutária deve ser mantida, que ela em nada prejudica os ausentes — aos quais até se poderia dar o título de honorários, para melhor marcar o apreço que votamos, — sendo, em compensação, útil ao fim da nossa companhia, que deve e precisa trabalhar para justificar a sua existência.

Ficaram neste pé as discussões de ontem. Como o tempo escasseasse, resolveu a Mesa convocar nova sessão para esta tarde, a fim de se deliberar sobre o caso. Embora não houvesse proposta nenhuma formulada, e portanto autorizava a Mesa a exigir a observação dos preceitos regulares, predominou a boa vontade de todos, o espírito de confraternidade, e a Mesa julgou que não andava mal abrindo o campo à livre troca das ideias, sugestões e pareceres.

Como ficou exposto, dir-se-ia que a questão era bem simples e poderia ser posta nos seguintes termos: devemos ou não manter a reforma dos estatutos? — e resolvida por pouco mais que uma simples votação. Dá-se, porém, a seguinte circunstância importantíssima, para a qual peço licença de solicitar toda a vossa atenção. Durante o período de reorganização, que ora se vai concluindo, a Academia, de acordo com a reforma aludida, resolveu ir preenchendo, por eleição, as vagas existentes, doze por morte, seis por ausência. Preencheu 15 dessas vagas e a isso devemos, os velhos acadêmicos, o prazer e a honra de ver em nossa companhia tão belo punhado de novos companheiros, aqui representado neste momento por bom número deles. Estes foram os que, tendo sido inteirados da deliberação da Academia, lhe deram logo a sua aquiescência e se dispuseram prontamente a comparecer. São, ao todo, doze. Com estes, ficam preenchidas todas as vagas por morte. Restam, porém, três, igualmente eleitos, igualmente convidados, que só na sessão de ontem, por intermédio do nosso prezadíssimo confrade Sr. Gomes Cardim, deram a conhecer à casa a sua aquiescência. São os srs. Menotti Del Picchia, Plínio Salgado e Cassiano Ricardo. De maneira que, — fazei o favor de notar bem, — no caso de que se deseje abolir as disposições sobre as quais levantou dúvidas o nosso ilustre confrade Sr. Cláudio de Souza, esses três eleitos deixarão de entrar para a Academia, esses três convidados terão de ver fechada a porta a que não vieram bater, para a qual foram chamados! Logo se vê, a situação é a mais séria possível.

Entre os alvitres lembrados, um apareceu ontem, que é pelo aumento do número de cadeiras, conservando-se os ausentes como estavam, de posse das suas. Essa solução parece conciliar tudo. Apenas se ergue contra ela a objeção de atentar contra as tradições, no tocante ao número de cadeiras. Não parece grandemente forte a objeção, em primeiro lugar, porque à nossa Academia Paulista assiste bem o direito de fugir a uma tradição criada por puro arbítrio; em segundo lugar, porque essa pretensa tradição é a da Academia Francesa, que aliás começou com 10 membros, depois elevou esse número a 18 e, finalmente, a 40, existindo em outros países, na Itália, na Espanha, na Inglaterra, na Alemanha, nos Estados Unidos, etc., muitas velhas Academias nas quais a limitação de número é inferior ou superior a 40. Demais, todas essas considerações são quase ociosas, desde que se fixe a atenção no seguinte: a tradição, se tradição existe, já foi quebrada pela reforma dos estatutos, que de fato aumentou o número de acadêmicos, embora não tivesse aumentado o das cadeiras. Agora, trata-se se saber se esses estatutos devem ser mantidos ou não. Em caso de nova reforma, é necessária a presença da maioria absoluta de acadêmicos.

Senhores, com esta rápida exposição, a Mesa quis apenas justificar o seu procedimento no caso e também contribuir um pouco para a solução que ele deve ter, e que não pode protelar. Estamos em período de reorganização da Academia. Esta, praticamente, podia considerar-se morta. Há muitos anos que não se reunia. Muitas vagas se deram em seu seio. Diversos acadêmicos mudaram-se definitivamente de S. Paulo. A Academia estava extinta. Do que se tem tratado ultimamente, na verdade, é criar uma Academia nova, aproveitando-se, como era natural, os restos venerandos da antiga... Nessas condições, parece que não é caso de nos atermos muito a preceitos e compromissos que, na realidade, estavam legalmente dissolvidos pela dissolução da companhia, mas que nos devemos orientar, com certa liberdade, pelos verdadeiros fins em vista: compor um grupo de homens de letras que possam trabalhar, com valor, num campo onde há muito que semear e muito que colher."



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