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A REFORMA GOMES CARDIM
NÃO HÁ LEMBRANÇA de que Aristêo Seixas houvesse em algum tempo vindicado para si, de palavras ou por escrito, o mérito de ter contribuído de alguma forma para o reerguimento da Academia. No entanto, sem estar convencido desse fato, o impulso inicial partiu dele.

Tão certo se encontrava de que na década de vinte só existia um simulacro de Academia, não uma sociedade regularmente constituída e com plena consciência de suas atribuições, que, já na vigência dos seus cinco mandatos sucessivos de Presidente, a partir de 1957, ao tomar conhecimento de que ia sair na Revista, por ocasião das comemorações cinqüentenárias, um artigo da autoria de Norberto Jorge, em que havia referência à sua eleição para o cargo de presidente, em 1924, redigiu uma nota de pé de página, para melhor elucidação da notícia.

"O acadêmico Aristeu Seixas não chegou a tomar posse do cargo de presidente, por julgar que sua eleição para esse cargo não preenchia as exigências estatutárias." (Revista n° 63, p. 146.)

Em conversa com os amigos completava a corrigenda, com referir que a ideia da sua eleição partira de dois ou três acadêmicos nalgum encontro casual, sem validade alguma. A verdade, porém, é que nem sempre ele se mostrara tão intransigente no seu juízo. Três anos depois da alegada eleição, de mudança para Buenos Aires, não quis ausentar-se de São Paulo sem transmitir a outro acadêmico o ônus daquele cargo fictício. Repugnava-lhe a ideia de sair do País sem dar satisfações a seus companheiros de cenáculo.

É o que ficamos sabendo por Gomes Cardim, no discurso da reunião preparatória, qualificado pelo secretário ad hoc como "uma longa e bem documentada exposição".

Essa peça oratória, publicada muitos anos depois na Revista da Academia sem nenhum comentário elucidativo para a situarmos no tempo — como costumava fazer René Thiollier com todos os documentos de valor histórico por ele publicados na Revista — passou despercebida de todas as gerações de acadêmicos. Por isso, andamos até hoje às apalpadelas no estudo da denominada reforma de Amadeu Amaral, sem termos consciência do papel decisivo de Gomes Cardim, na sua bem sucedida iniciativa de insuflar novos alentos na moribunda instituição. É o que vemos desde os dizeres iniciais da ata da primeira reunião, lavrada por Ulisses Paranhos.

"Aberta a sessão, o Dr. Gomes Cardim pediu a palavra e leu uma longa e bem documentada exposição envolvendo a necessidade de ressurgir a Academia Paulista e a de preencherem imediatamente as vagas existentes."

Esse discurso não ficou transcrito na ata, porém foi logo impresso numa plaqueta à parte, hoje raríssima, da qual há dois exemplares na biblioteca da Academia. Como documento, é a pedra angular da história da Academia Paulista naquele período, a fonte providencial de luz que aclarou, de uma vez para sempre, as largas e numerosas faixas escuras de sua imagem projetada no futuro.
Com essa revelação, contraiu a Academia urna dívida com a memória de Gomes Cardim que urge saldar, como preito de justiça e reconhecimento do muito que ele fez em prol do reerguimento da instituição falida.
Retomando o fio da narrativa, com a fala de Gomes Cardim ficamos sabendo como Aristeu Seixas certo dia lhe comunicou, no Rio de Janeiro, que estava de mudança para Buenos Aires. Mas, não queria sair de São Paulo sem dar satisfações a seus colegas da Academia: Para isso, transferia a Gomes Cardim o cargo de presidente, e pedia com insistência que fizesse alguma coisa em benefício da Academia, para que não se extinguisse ao desamparo uma instituição tão bem iniciada, por falta de interesse de seus membros componentes. A resposta de Gomes Cardim foi muito ponderada: Não aceitava a presidência, mas assumia o compromisso de trabalhar nesse sentido, logo que as circunstâncias o permitissem.
Tudo isso se passou em 1927, declara-o o próprio Cardim. Dois anos depois, de volta para São Paulo, resolveu pôr em prática o que combinara com Aristeu. A primeira pessoa com quem ele falou para estudar a exeqüibilidade da campanha projetada foi Ulisses Paranhos. Juntos, procuraram Amadeu Amaral, passando, daí em diante, os três a convocar os antigos acadêmicos que ainda podiam ser encontrados em São Paulo, com dia e hora marcados para uma reunião preparatória.
Justiça se lhe faça! Durante o longo recesso da Academia, Ulisses Paranhos sempre se mostrou muito cônscio do título de secretário, adquirido na primeira e única eleição de 1909; como secretário ad hoc, nas sessões de 1919-1920, presididas, respectivamente, por Luís Pereira Barreto e Spencer Vampré; agora, na eleição da primeira diretoria, depois da reforma, guindado ao posto de Secretário-Geral, por 15 votos. Foi a segunda maior votação: Amadeu Amaral, para presidente, com 16 votos.
Naquela apertura, com 19 Cadeiras vazias por morte ou ausência dos respectivos titulares, e 21 desertadas por falta de interesse, não seria razoável, nem possível, exigir a maioria absoluta dos associados em condições de votar, como se se tratasse de uma corporação em pleno exercício de suas obrigações. Nessas votações predominou o critério da maioria dos presentes, muito embora pudessem votar, depois de recebidos, os acadêmicos recém-eleitos: Taunay, Cleómenes, Sud Menucci e outros.
Os primeiros a atender à convocação foram: Gomes Cardim, Ulisses Paranhos, Amadeu Amaral, Eduardo Guimarães, Eugênio Egas, Dino Bueno, Valdomiro Silveira e Alberto Seabra; "alguns destes, representados". (Primeira sessão, 23-4-1929.)
A segunda sessão, dia 25, acorreram também: Afonso de Freitas e Monsenhor Manfredo Leite; porém Dino Bueno e Valdomiro Silveira se fizeram representar. Na terceira, dia 27, apareceu Alcântara Machado. Nesse dia foram eleitos os sete primeiros novos acadêmicos, o que o escrevente destacou no meio da página, mencionando em duas colunas seus nomes e os dos antecessores nas respectivas Cadeiras: Otoniel Mota, Sud Menucci, Guilherme de Almeida, Leo Vaz, Lourenço Filho, Artur Mota, Veiga Miranda.

Da leitura das atas das primeiras sessões verifica-se como foi produtivo o trabalho daqueles inovadores, e como ganhou rapidamente terreno nos dias subseqüentes a campanha em curso. Quanto aos que justificaram a ausência nas primeiras sessões, as atas não os identificam. Mas, se nos utilizarmos moderadamente desse plural, para abater duas unidades daquele cômputo na primeira reunião, teremos de admitir que apenas seis acadêmicos estiveram presentes à mais importante sessão de toda a história da Academia, quando se cogitou de sua reorganização.

Daí em diante, o trabalho foi ininterrupto, com a presença dos recém-eleitos, em dias alternados ou seguidos, até à consecução plena dos objetivos da campanha. Na sexta sessão, dia 3 de maio, foi eleita a nova Diretoria. Anote-se, ainda, que todas as sessões, as ordinárias e as solenes, foram realizadas no salão nobre do Conservatório Dramático Musical, obtido — nem seria preciso acrescentar — graças à influência de Gomes Cardim.

Nessa altura, conviria demorarmo-nos um pouquinho, para nos despedirmos de Gomes Cardim, no ponto exato em que Amadeu Amaral assumiu oficialmente a presidência da nova Academia. Desde a primeira sessão preliminar, Amadeu foi escolhido para presidir aos trabalhos, tendo sido em todas elas decisiva a sua atuação, já por obrigação do cargo, já e principalmente pelo prestígio pessoal e seu entusiasmo revelado em todo o período da reforma. A tarefa era enorme; mas, incansáveis os encarregados do trabalho. E note-se: tudo o que aparece nas atas — por mais extensas e circunstanciadas — é um pálido resumo do muito que se passou naqueles dias agitados: convites, visitas, conversações e, ainda — em grande cópia, certamente — as recusas habilmente formuladas, para não magoar o sem-número de pretendentes às dezenove Cadeiras disponíveis. Ulisses Paranhos nos fala da chusma de plumitivos que assediavam noite e dia os organizadores da nova Academia, e das dificuldades de todos para se libertarem dessa importunação.

Uma particularidade interessante ilustrará melhor que tudo a disposição dos acadêmicos reagrupados nessa campanha. Desde a segunda sessão, Alberto Seabra propusera que fosse considerada a Academia em sessão permanente, até à sua completa reorganização. As três primeiras sessões foram realizadas em dias alternados: segunda, quarta e sexta da semana em curso. Nesta última sessão, de sexta-feira, ficou determinado que a subseqüente seria realizada "na segunda-feira próxima, 30 do corrente". Mas, ao virarmos a página, verificamos que a ata da 4 ° sessão assim começa: "Aos vinte e nove de abril de 1929..." a saber: numa radiosa tarde de domingo, no local de costume e com a presença de nove acadêmicos. Despertado o interesse dos antigos companheiros, ninguém se conformava em ficar de braços cruzados no dia consagrado ao descanso. Não consideravam trabalho antecipar de um dia mais uma reunião preparatória, de tão auspiciosas implicações.

Até aí, Amadeu Amaral e Gomes Cardim andaram a par e passo. Mas, na sexta sessão, quando ia proceder-se à eleição da diretoria para o biênio entrante, Gomes Cardim pediu que não incluíssem o seu nome na chapa da Diretoria. Nos próprios termos da ata: "Pela ordem, pediu a palavra o Dr. Gomes Cardim, que pediu aos amigos dispensa de ocupar qualquer cargo eletivo, porque se encontrava em precário estado de saúde e quase sempre ausente da Capital" (fl." 8-verso do livro de atas).

Por último, leiamos na mesma ata o voto de louvor proposto por Ulisses Paranhos, logo após a eleição; traduz o pensamento unânime dos acadêmicos, ao término do primeiro estádio da campanha vitoriosa.

"Pediu, então, a palavra o Dr. Ulisses Paranhos, que propôs se inserisse um voto de louvor ao Dr. Gomes Cardim, que, com uma energia invejável, uma vontade hercúlea, retirou, em poucos dias, a Academia das sombras onde ela dormia e projetou-a remoçada, cheia de força e de robustez, em meio da arena da luta, causando esse ressurgimento admiração (até mesmo) aos mais indiferentes".





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