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DECLÍNIO E MORTE APARENTE DA ACADEMIA
DAI EM DIANTE escasseiam os documentos relativos a manifestações de vida da instituição fundada em 1909; depois de um decênio de reduzida atividade, positiva-se longo período de retraimento, senão mesmo a dissolução da companhia, conforme se expressou Amadeu Amaral naquela conjuntura. Não; foi apenas hibernação prolongada, morte aparente, a que se seguiu o ressurgimento, com sinais iniludíveis de vida e disposição para o trabalho.

Dessa idade intermédia restam-nos poucos documentos, mas muito interessantes para o estudo do nosso passado e a reconstrução dessa fase inaugural da nossa história: um livro de atas encontrado entre os papéis de Artur Mota, mas que, em verdade, foi aberto por Ulisses Paranhos por ocasião da convocação dos acadêmicos para preenchimento da vaga da Cadeira n° 4, em 1919, e por ele mesmo escriturado até a última folha nas vinte e oito sessões realizadas a partir da reforma Gomes Cardim, de 1929; o registro da Academia, como entidade civil, num cartório deste Município de São Paulo e só muito recentemente localizado, e mais algumas referências esparsas em documentos particulares, conforme mais adiante relataremos. É pouco, mas o suficiente para nela assentarmos a nossa construção.

O livro de atas de Ulisses Paranhos consta de 50 folhas, com termo de abertura pelo próprio punho do ativo Secretário da Academia, por ocasião da sessão convocada para preencher a mais recente vaga — seria a terceira, a contar da fundação, em 1909 — no quadro social da Academia; um ano depois, em 1920, foi utilizado para o mesmo fim, na viga de Brasílio Machado (Cadeira n° 1), a que sucedeu seu próprio filho Alcântara Machado. Eram provas inconcussas de que a Academia continuava tão viva como nos dias da sua fundação. Mas, não possuía sede própria, nem arquivo para colecionar os documentos atestadores de suas atividades.

Dessa data em diante a Academia desaparece do horizonte da história, como sociedade independente, até ao início da reforma Gomes Cardim. Isso mesmo ficou positivado pelo operoso Secretário, na fl. 5 do referido Livro de atas: "Ata da sessão da Academia de Letras, a fim de se tratar da sua reforma e reerguimento. Aos vinte e três dias do mês de abril de 1929 ..."

Todavia, em toda essa longa fase de silêncio — longa, por tratar-se de uma instituição particular — permaneceu Ulisses Paranhos em estado de prontidão, apegado à extinta Academia e recusando-se a acreditar na sua morte. Nesse particular, o depoimento de Gomes Cardim é ilustrativo. Na sua exposição, lida na primeira reunião, a, 23 de abril de 1929, dá-nos conta das providências por ele tomadas, no sentido de tentar o reerguimento da sociedade. Mas, conforme sua própria confissão, não viera do Rio com esperança de encontrar franco apoio para a sua ideia. O pessimismo que então o dominava se revela no episódio por ele relatado, do encontro com certa pessoa de suas relações, na Confeitaria Alvear, ponto obrigatório de reunião dos escritores naquela fase alegre é algum tanto displicente da sociedade carioca. Esse conhecido se mostrava permanentemente irritado contra a preponderância de São Paulo no concerto da Federação, que a cada momento mais e mais se acentuava, e não perdia vaza para desabafar o seu despeito, sempre que vinha à baila, no decurso da conversa, o progresso de São Paulo ou qualquer coisa de vantagem para o nosso crédito.

Lembremos, de passagem, que, por essa época, ou pouco depois, numa conferência memorável Artur Neiva, traçando um confronto entre as duas capitais mais florescentes da Federação — São Paulo e Belém do Pará, no auge, então, da prosperidade, com a borracha a pesar decisivamente na balança — asseverava que por volta de 1910 não se podia dizer qual das duas metrópoles marchava na frente, tão positivas e irrecusáveis já eram naquele tempo as provas do nosso adiantamento econômico e cultural. Com mais duas décadas de trabalho bem orientado, semelhante surto de progresso só podia favorecer-nos ainda mais, rompendo o equilíbrio a nosso favor. Mas, ao carioca de Gomes Cardim essa evidência causava dor de cotovelo. Por isso mesmo, não perdeu a oportunidade de tocar num dos pontos sensíveis do que ele denominava o intolerável orgulho dos paulistas, incansáveis, e até fastidiosos, nas suas alegações sobre a superioridade de São Paulo, com referência aos demais Estados da União. E a Academia de Letras de vocês, perguntou depois de outras declamações igualmente impertinentes, em que ficou? Vários Estados da União já foram longe com essa iniciativa; Pernambuco, Bahia e mais alguns; somente São Paulo fracassou no comecinho, por não dispor de gente de valor para levar avante a ideia lançada por eles mesmos com tamanho barulho.

O certo, comenta melancolicamente Gomes Cardim, é que não pudera revidar com energia aqueles botes gratuitos da maledicência. Saiu amargurado da Confeitaria, e até sua casa repetia sozinho o conhecido verso de Dante :
Ambo le mani per dolor me morsi.

Só se restabeleceu e criou alma nova, depois do encontro com Ulisses Paranhos e Amadeu Amaral, e das providências tomadas daí em diante.

A fim de pôr em prática o seu plano de campanha, rumou Gomes Cardim, nos seus próprios termos, "para o consultório do muito prezado Dr. Ulisses Paranhos, Secretário-Geral da Academia, e aí lhe dei a conhecer os meus desígnios, referentes à Academia Paulista de Letras. Acolheu-os S.S. com fervoroso entusiasmo, fazendo-me ver que também eram seus os mesmos projetos. Redigiram-se logo as notícias para os jornais e os convites aos acadêmicos para a primeira reunião, a realizar-se no dia 23. No dia imediato fiz comunicação idêntica ao meu velho amigo e ilustre acadêmico Amadeu Amaral, pedindo-lhe o seu concurso para o desiderato almejado. A resposta do primoroso poeta foi, como não podia deixar de ser, afirmativa, aquiescente, de coração, em dar o seu prestigioso apoio ao levantamento da Academia. Daí por diante nos ligamos os três, na comunhão de esforços para a desejada tentativa".

Antes de historiar os agitados dias da reforma e de tomarmos conhecimento com os antigos acadêmicos e os novos escritores então convidados para prestigiar a Academia renascida, refiramo-nos a dois pequenos episódios que se prendem à história da Academia nesses anos de muito pouca ou mesmo nenhuma atividade, e que sugerem o nome de Ulisses Paranhos como o seu protagonista, ainda e sempre preocupado com a ideia do ressurgimento da sociedade: o registro da Academia Paulista, em 1921, como sociedade civil, no cartório competente desta cidade, e a indicação de Aristêo Seixas para o cargo de presidente da instituição em 1924. Morto o Dr. J. J. de Carvalho, e pouco depois Brasílio Machado, e dispersados pelos quatro ventos os demais acadêmicos, ninguém mais, naquela data, dos primitivos fundadores da Academia, sairia de suas comodidades para pensar nessas providências, que, além de dispendiosas, roubam o tempo reclamado por outras obrigações.

Seguindo as indicações de uma nota à margem do primeiro livro de atas de René Thiollier (1938), obtivemos certidão do registro da Academia como sociedade civil, com data de 28 de fevereiro de 1921. Contra a nossa expectativa, o documento não revela o nome de quem promoveu tal registro. Em estilo de cartório, certifica o escrivão que "a Academia Paulista de Letras depositou neste Cartório um exemplar autêntico dos seus Estatutos e um do Diário Oficial deste Estado, de número quarenta e cinco, edição de vinte e seis de fevereiro de mil novecentos e vinte e um, que publicou um extrato dos ditos Estatutos". A inscrição recebeu o n° 774, em data de 28 de fevereiro de 1921, à página 179 do terceiro livro de inscrição de sociedades civis.

Seguem-se vários considerandos sobre os fins da sociedade, a constituição da Diretoria e outros itens interessantes, dentre os quais ressaltamos a informação de que o mandato do presidente era de um ano. Nessas condições, será forçoso concluir que até à data da reforma Gomes Cardim, em 1929, a Academia Paulista de Letras só teve uma Diretoria regimentalmente eleita, por um ano, a saber, a primeira, na data de sua inauguração. As poucas reuniões realizadas nesse longo interregno, posses solenes ou eleições para preenchimento das vagas abertas com o falecimento dos primeiros acadêmicos, foram dirigidas pela mesa formada na ocasião. Previam, ainda, os Estatutos, que, na hipótese da dissolução da companhia o patrimônio da extinta sociedade reverteria em benefício da Academia Brasileira de Letras, a menos que os acadêmicos incumbidos dessa liquidação opinassem por outra instituição congênere do nosso Estado, institutos, grêmios literários ou coisa parecida. Tão obcecados estavam nossos primeiros associados com a Academia Brasileira, que até ao considerarem a hipótese da morte civil da nossa Academia, não desfitavam do modelo inatingível, a "forma" ou "ideia", na acepção legítima de Platão, conforme acreditavam.





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