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DATA DA FUNDAÇÃO
MAIS INTERESSANTE e de mais fácil solução, é a questão da data da fundação da Academia. Fato público e rumoroso, conforme vimos, e sobejamente documentado pelos jornais do dia e a publicação de um livro totalmente dedicado a esse acontecimento, com o passar dos anos, datas diferentes foram atribuídas à efeméride.

Nunca esta expressão calhou tão bem no seu significado primitivo, da transitoriedade da nossa condição humana, como com referência à duração da Academia na memória até mesmo dos participantes daquela cerimônia. A não ser isso, como se explica que desde o seu primeiro número — novembro de 1937 — a "Revista da Academia Paulista de Letras", sob a direção inteligente de René Thiollier, indique em lugar de relevo a data de 5 de setembro como sendo a da fundação da Academia?

Parece-nos fácil a resposta, se considerarmos que até aquela data, de regra os escritores eleitos para preencher as sucessivas vagas do sodalício, ignoravam quase tudo da sua história pregressa, do que nos dá um belo exemplo, como veremos no lugar devido, o próprio Thiollier. Como toda publicação daquele tipo, o livro do Dr. J. J. de Carvalho já nasceu como raridade bibliográfica; poucos acadêmicos o compulsaram, apagando-se, cada vez mais, com o correr do tempo, no horizonte da memória, a data verdadeira. Não admira, assim, que noutra oportunidade aparecesse uma terceira data para disputar com as duas primeiras o privilégio da prioridade, e defendida por um historiador de alto merecimento e, mais do que tudo, testemunha presencial do fato. Em artigo publicado em "O Estado de São Paulo" em 1954, depois de reviver em períodos brilhantes o festival da inauguração da Academia, arremata do seguinte modo o historiador Aureliano Leite — historiador e acadêmico — o seu relato: "Foi isso precisamente na deliciosa noite de 5 de outubro de 1909". Tão gratas e tão intensamente vividas foram aquelas impressões.

Quanto à brilhantez da festa tudo o que ele nos conta não destoa uma linha do que já conhecíamos pelo livro de J. J. de Carvalho. Porém, nem mesmo sob esse aspecto são concordes os depoimentos de outras testemunhas oculares. Ulisses Paranhos, membro fundador da Academia e um dos nomes mais visados pela crítica soez dos demolidores, quase duas décadas depois da ocorrência ditou-nos o seu depoimento com muito menor entusiasmo : "Felizmente a festa realizou-se sem maiores aborrecimentos, embora fosse fatigante e — por que não dizer? — bem fastidiosa e desinteressante". (Artigo publicado no nº 1 da Revista: "O Dr. J. J. de Carvalho, Reminiscências e Impressões".)

Essa falta de informações seguras por parte até mesmo de acadêmicos é que explica a confusão existente nos primórdios de nossa história.

No entanto, a solução está à vista. É que houve confusão entre ocorrências diferentes: a data de alguma sessão preparatória, com a presença de maior número de acadêmicos, dentre as muitas realizadas naqueles meses, mas sem lavratura de ata nem registro nos Cartórios da cidade, e a sua inauguração solene e pública, valorizada com a presença das autoridades civis, militares e religiosas do nosso Estado, e que os jornais da época se incumbiriam de espalhar aos quatro ventos com a mais barulhenta publicidade. E até excessiva.

Distinção inconsistente. Para dirimir a dúvida a favor da inauguração oficial e rebatizá-la como fundação da Academia, se não bastasse o verso inicial da Ode do Dr. Freitas Guimarães, recitada com todo o entusiasmo na sessão inaugural do dia 27: "Ei-la fundada a nossa Academia!" teríamos a breve alocução do presidente efetivo da Instituição naquele festival, o Dr. Barão de Brasílio Machado, que não deixa dúvidas quanto à natureza da solenidade em curso, muito embora o orador no seu discurso não empregue a palavra Fundação.

"Somos uma porção de vocações, e porção pequena para que seja a sua coesão mais intensa e laboriosa; mas vocações que se apagam no objetivo comum, não disputando honrarias e monopólios, umas nutridas de vaidades, outros cheios de ridículo. Somos obscuros; antes de nós outros muitos o foram. Na parcela de trabalho que tomamos por quinhão, bem sabemos que o sulco aberto agora será talvez mal alinhado, mas enche-nos a esperança de que pelo lavor de outras mãos se corrija o defeito do traçado, e dele cresça a abundância da colheita, nesta terra de São Paulo, sempre tão nutriente e pródiga de extraordinárias riquezas. À obscuridade, que somos, sucederá, talvez, a benemerência que nos escusa e perdoa o atrevimento da iniciativa.

"Está instalada a Academia Paulista de Letras".

Por conseguinte; não cabe distinguir, agora, entre inauguração e fundação, para atribuirmos a determinada sessão preparatória — talvez um tantinho mais concorrida do que as anteriores — as prerrogativas de marco inicial da história da Academia Paulista.

Para efeito de Comemorações, não pode ser outra a data do nascimento da Academia do Dr. Joaquim José de Carvalho.



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