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A POLÊMICA
Mas, já é tempo de tratar da polêmica surgida nos primórdios da Academia, antes mesmo de inaugurada e quando a ideia da sua criação não passava de projeto sem probabilidade de vir a concretizar-se. Combatida por muitos e recebida sem grandes simpatias pelos próprios escritores que acabariam por constituir dentro de pouco o seu quadro social, foi graças à tenacidade do Dr. J. J. de Carvalho e ao seu entusiasmo contagiante que alguns intelectuais do nosso meio se congregaram em torno dessa ideia, muito embora não estivessem convencidos das vantagens da imortalidade prometida, para escolher os nomes dos demais ocupantes das quarenta poltronas da nova Academia.

Antes, mesmo, de existir, a Academia foi atacada de rijo, tendo durado dois anos a refrega. O primeiro artigo de "Rob" apareceu no dia 9 de setembro no "Comércio de São Paulo"; passados dois anos, quando a Academia nascente já se afirmara como entidade independente, exatamente na data de sua inauguração, num extenso editorial sem assinatura, pontilhado de alfinetadas no Dr. J. J. de Carvalho, lia-se a noticia da posse solene do poeta Vicente de Carvalho, recentemente eleito: — Duas vezes imortal — No Conservatório Dramático — Recepção do Dr. Vicente de Carvalho — As solenidades de ontem. — Data: 27 de novembro de 1911.

Na secção de obras raras da biblioteca da Academia há uma coleção de recortes de jornais da época, a que já nos referimos, cuidadosamente colados à razão de duas colunas por página de um livro de cinquenta folhas, de tipo escolar e capa dura. Na sobrecapa da frente alguém anotou com lápis, letra fina, porém legível: "Organizado por Basílio de Magalhães, a quem pertenceu". Tais artigos não são apenas de ataque; vozes de aprovação também se manifestaram; com certo acanhamento é verdade, mas de franco apoio à ideia então lançada no nosso meio. É o caso de Valdomiro Silveira, que no dia 13 levantava o repto dos dois moços esperançosos, que havia iniciado a contenda com mais desenvoltura do que preparo: Roberto Moreira e Simões Pinto, como veremos dentro de pouco: Depois de citar exemplos daqui e de fora, de ataques gratuitos a reputações ilibadas — Machado de Assis, no Rio; Anatole France lá na Europa — prossegue Valdomiro Silveira :

"Agredidos pelos dois vivazes moços, a Academia julga-se em boa companhia com os agredidos ora mencionados. E enquanto nada fez, porque não chegou ainda o tempo disso, porque ainda não foi empossada, porque ainda não nasceu, melhor seria esperar-lhe os feitos e as ações para depois os criticar e condenar. Percebem todos que os adversários, querendo apresentar-se como ultracivilizados, fazem o contrário dos antigos e clássicos abissínios: apedrejam o sol que nasce".

Não há necessidade de descermos a minúcias nas referências a esse pleito memorável. Bastará acentuar os traços do perfil literário do Dr. J. J. de Carvalho, para melhor avaliarmos a sua benemerência em nosso meio, com tal iniciativa. Seus dois antagonistas de primeira hora — Roberto Moreira e Simões Pinto — justificam-se perante a história com a atenuante da idade e a reconhecida falta de preparo dos principiantes.

Com o passar dos anos, Roberto Moreira entrou para a Academia que ele repudiara no começo, e muito contribuiu com o seu talento e a sua pena para elevá-la à altura em que hoje ela se encontra depois de vencidas as primeiras crises de crescimento. Aqueles artigos da imprensa diária nada significam na sua longa lista de trabalhos, se é que o próprio autor não os renegou publicamente. Quando nada, os teria julgado com espírito desportivo, para classificá-los englobadamente como produtos de irreflexão.

Talvez o caso mais interessante na literatura brasileira de repudiar o autor seus próprios escritos seja o de Afrânio Peixoto com o seu livro de estreia. Muito jovem ainda, publicou com o nome de Júlio Afrânio — seu prenome de batismo - a fantasia "Rosa mística", o "livro das sete cores", como foi saudado pela crítica maldosa, pela variedade dos tipos usados na composição, por ele dedicado nada menos do que aos refulgentes luminares das letras europeias na passagem do século: "A Gabriele dAnnunzio, A Maurice Maeterlinck, A Eugênio de Castro, a Trindade santíssima que eu adoro C.". (Impresso por A. Brockhaus, Leipzig, 1900.)

Desconhecemos qualquer referência de Afrânio Peixoto à sua primeira composição. O certo é que, depois de doutorar-se em Medicina, na Faculdade da Bahia, com a tese "Epilepsia e crime" (1897), durante mais de um decênio dedicou-se à Medicina legal, na Bahia e no Rio. É grande a sua bibliografia nesse setor.

Em 1910 foi eleito para a Academia Brasileira, Cadeira nº7, vaga com o falecimento de Euclides da Cunha. Foi recebido por Araripe Júnior. Mas, só no ano seguinte reiniciou sua carreira literária, propriamente dita, com a publicação de "A Esfinge" (1911), logo traduzida para o espanhol e editada na Argentina (1912). Daí, dizerem que ele entrara fiado para a Academia Brasileira, conforme seus próprios alunos comentavam, com uma pontinha de maldade. Mas, resgatou regiamente a dívida contraída com a posteridade. Se tal promessa se referisse a letras de outra espécie, não haveria Banco suficientemente forte para operar a conversão.

Decorridas algumas décadas, quando ele já dera os últimos retoques na imagem do que viria a representar na literatura brasileira o nome AFRÂNIO PEIXOTO, algum articulista bem humorado lhe atribuiu de passagem a paternidade de "Rosa mística". Foi quanto bastou para que Mestre Afrânio revidasse de pronto a falsa imputação: não se referia à sua pessoa a mencionada obra do escritor Júlio Afrânio, cavalheiro que ele não tinha a honra de conhecer. (Anedota colhida na tradição oral das rodas acadêmicas da Bahia e do Rio. Ego nihil scio, sed audivi, para emprestar de Petrônio uma ressalva cautelosa.)

Mas voltemos ao nosso tema. Para mostrar a imaturidade literária de Roberto Moreira naquela data, bastarão algumas linhas do artigo inicial das suas objurgatórias.

"A ideia de se organizar aqui um cenáculo de homens de letras, à maneira da agremiação que, com o nome de Academia Brasileira apodrece no Rio de Janeiro, é velha e abominável... Agora, porém segundo rosnam, as coisas estão em bom caminho, e, dentro de pouco tempo, estalará a Academia Paulista de Letras, para a tortura do bom-gosto, do senso-comum, da gramática e de todas as coisas sérias e respeitáveis deste mundo, e para gáudio dos literatos de meia tigela, dos escrevinhadores inéditos e sequiosos de notoriedade, que anseiam por fugir à justa obscuridade em que vivem em que viverão eternamente, escouceando, escabujando, berrando impropérios à indiferença sensata do público que lhes não lê a versalhada hedionda, que lhes não tolera o sarapatel de contos, de romances, de artigos". E o Dr. J. J. de Carvalho, como se comportou depois dessa provocação? Com a fama de que sempre gozou, de polemista desabusado, seria de esperar que saísse a público com algum destampatório no mesmo estilo. Nada disso. Revelando perfeito equilíbrio e até serenidade, aproveitou a deixa para contar aos amáveis leitores do jornal "0 Comércio de São Paulo", logo no dia seguinte, o que vinha a ser a novel instituição de que tanto se falava. E enumerou, um por um, até 39, os componentes da instituição prestes a ser inaugurada, para apresentar-se por último num contraste por ele mesmo procurado, entre a sua apregoada desvalia e o fulgor de tantos vultos aureolados. Maior prova de modéstia não era possível. Mas, não o fez como numa seriação de nomes de alunos chamados para exame ou de eleitores para votarem no prefeito; distribuiu-os em grupos, de acordo com as qualidades-mestras de cada um: poetas de reconhecido valor; professores e juristas do mais elevado conceito em nosso meio; médicos e cientistas de reputação consolidada para além das fronteiras. E por último, ele próprio, sem nenhum título com que pudesse engalanar-se. Ouçamo-lo; mesmo porque não ficará mal colocada no começo da presente história a relação completa dos primeiros ocupantes das 40 Cadeiras vazias.

Depois de transcrever o longo trecho acima citado, "Agora, porém, segundo rosnam..." continua: "Aí está à síntese do que, para a suma competência do Sr. Roberto Moreira, vai ser a Academia Paulista de Letras”. Agora, já o público pode saber tudo; e, pois, convém dizer bem alto que dessa Academia fazem parte: Dr. Brasílio Machado, Dr. Dino Buem, Dr. Reinaldo Porchat, Dr. Estêvão de Almeida, Dr. Almeida Nogueira, Dr. Rafael Correia da Silva, Dr. L. B. Gama Cerqueira, todos sete lentes da Faculdade de Direito, todos sete mestres de Roberto Moreira, única criatura que, neste mundo, desconhece a vasta capacidade, o imenso valor dessas altaneiras mentalidades.

Faltam ainda 33.

É bom dizer bem alto que dessa Academia fazem parte: o sábio Dr. Luís Pereira Barreto, o eminente filólogo Dr. Sílvio de Almeida, monsenhor Francisco de Paula Rodrigues — o Bossuet paulista; Dr. Alberto Seabra; Dr. Cláudio de Sousa, o eruditíssimo Erasmo Braga, o profundo José Feliciano, o genial Martim Francisco Filho, o doutíssimo Dr. Eduardo Guimarães (colaborador d "O Comércio de São Paulo"), o historiador Dr. Eugênio Egas etc.; e quem, a não ser o inexcedível moço Roberto Moreira, ousará contestar o extraordinário merecimento desses dez homens?...

Já são 17 os apontados; mas faltam ainda 23.

Então é bom dizer bem alto que dessa Academia fazem parte os literatos e poetas — D. Prisciliana de Almeida, Dr. Freitas Guimarães, o velho Carlos Ferreira, Benedito Otávio, Alberto Faria, Basílio de Magalhães, Dr. Raul Soares de Moura, Dr.Valdomiro Silveira, Dr.Venceslau de Queirós", Amadeu Amaral, que é redator chefe do "O Comércio de São Paulo", e outros. E qual destes 12 literatos e poetas precisa do beneplácito do Dr. Roberto Moreira?...

São agora 29 os nomeados; e vejamos quais os outros 11.

É bom dizer bem alto que dessa Academia fazem parte: o Dr. Ulisses Paranhos, médico de saber, delicado cultor das letras, poliglota; o Dr. Rubião Meira, jovem professor de Medicina, sagrado em vários concursos; o cônego Manfredo Leite, orador de grande reputação e lente de literatura; o Dr. Gomes Cardim, fecundo e notável escritor dramático; o Dr. Ezequiel Ramos Júnior, orador e poeta; o Dr. Carlos de Campos, jornalista, redator-chefe do "Correio Paulistano"; o Dr. Adolfo Pinto, respeitadíssimo engenheiro, autor de notáveis livros referentes à história da viação em São Paulo; Hipólito da Silva, o jornalista e poeta reputado; o Dr. Pedro de Toledo, orador parlamentar de ilibada reputação política, batalhador na imprensa, caráter altivo e independente; José Vicente Sobrinho, escritor novel, sim, mas festejadamente recebido entre os componentes; e temos por certo que só o imensamente sábio, o imensamente literato, o imensamente poeta, o imensamente jornalista, o imensamente crítico, o imensamente competente em tudo e seus restos e quebrados, o jovem Sr. Roberto Moreira, será o único em todo este mundo e seus arredores, o único a negar o merecimento desses 10 homens de Letras.

Aí estão 39."

Por generosidade, e até mesmo com vistas ao decoro, paremos com as transcrições dos artigos de "Rob", e do seu ajudante desde o primeiro dia da polêmica. Todavia, convirá esclarecer que Simões Pinto não combateu a ideia da criação de uma Academia de Letras; apenas reclamava contra a arbitrariedade do organizador, de fixar em 40 o número de Cadeiras. De duas, uma, arrazoava: ou não havia tão elevado número de escritores na capital paulista, e nesse caso precisaria o Dr. Carvalho convidar algumas nulidades para completar o quadro; ou o contrário disso: possuindo a Paulicéia, como possui, um sem-número de intelectuais de alto merecimento, restringir para 40 o número de Cadeiras, equivalia a perpetrar clamorosa injustiça, por deixar do lado de fora tantos rapazes esperançosos. O mais aconselhável, ou melhor, o certo seria não fixar limites para a admissão dos candidatos à imortalidade, mas conclamar na praça pública, com todos os pulmões, para constranger os tímidos a vencerem a modéstia inata e ingressarem na nova sociedade, duzentos, trezentos escritores, todos do maior brilho e peso — quantos fossem precisos — contanto que não ficasse excluído da nova Academia nenhum dos rapazes de reconhecido mérito. Por excesso de modéstia, o articulista apenas deixou subentendida a possibilidade de seu nome encabeçar a lista dessa falange de luminares das letras, ou o do seu não menos dotado companheiro de lutas, pelas colunas do "Comércio de São Paulo".

Com antagonistas desse feitio, eram excessivos na referta o porte hercúleo do Dr. J. J. de Carvalho e seus dotes de polemista experimentado. Com um simples piparote desvencilhou-se dos dois intrometidos. Todavia, forçoso é confessar que a imprensa — de modo geral — prestigiou com manifesta parcialidade os dois inimigos gratuitos da Academia em agrado. Depois de publicado o primeiro artigo do Dr. Carvalho, transcrito acima quase na integra, em resposta às agressões de "Rob.", foi notificado aquele facultativo de que o "Comércio de São Paulo" não mais aceitaria a sua colaboração, por serem seus escritos ofensivos ao brio de um dos mais brilhantes redatores do jornal. Passou-se então o Dr. Carvalho para o "Correio Paulistano", ficando "Rob." com a liberdade de lançar no antagonista todas as farpas do seu carcás de tolices, a começar pelo nome do Dr. Joaquim José de Carvalho, trocado ou melhor, troçado por uma alcunha ridícula. Daí em diante, nos seus artigos só se referia "Rob." ao "Dr. J.J. etc.".

Abramos parênteses para uma observação impertinente. Naquela data, o grande Rui ainda não havia concedido foros de nobreza a esse golpe baixo dos polemistas sem classe, quando procurava diminuir seus adversários políticos. Pelo menos, não ostensivamente como no célebre "Discurso dos pássaros", de 1914 — com o modelo à vista do "Sermão dos peixes" do padre Vieira, ou o dos MM, no Maranhão quando trocou o nome certo de um ex-governador da Bahia, naquela data Senador federal, pela alcunha "O Dr. Dois Jotas Seabra" reiteradamente mencionada, que era como lhe chamava, com o intuito maldoso de acaçapá-lo.

Para arrematar com chave de ouro este capítulo, e de antemão rebater a possível objeção de serem destituídas de interesse as presentes considerações em torno do jornalismo do começo do século, copiemos apenas o primeiro parágrafo do artigo de fundo do "Diário de Santos" de 28 de novembro (1909), para nos certificarmos de como repercutiu na culta cidade do interior paulista a notícia da inauguração, na véspera, de uma Academia de Letras em São Paulo. Como nessa época não havia nem Lei de Imprensa nem censura de nenhuma espécie à liberdade de expressão, qualquer articulista podia dizer o que bem entendesse de todos e de tudo, para maior agrado da patuléia, não importando a posição social do agredido nem a superioridade da sua causa. Estávamos na fase áurea da liberdade democrática, com o Marechal Hermes da Fonseca na presidência da República — a maior vítima dos foliculários — a enriquecer a literatura nacional com um almanaque de anedotas em todos os estilos: do espirituoso ao fescenino.

Nesse mesmo artigo de que vamos transcrever apenas o começo, as referências ao Governador do Estado e a descrição de sua chegada ao festival em curso, não são menos espirituosas do que tudo o que o articulista pudesse dizer da Academia e do seu meritório fundador.

"A calva luzidia do grande alagoano, que na terra dos paulistas empunha as rédeas da politicagem, aclarava ainda mais o recinto, despendendo fosforescências estranhas...

"O Dr. Albuquerque Lins, herói proclamado da desvalorização do café, medalhão honorário do Automóvel Clube, onde se cultiva uma ciência mais prática, de resultados matemáticos e certos, mastigou breves palavras de agradecimento à honraria com que o distinguiram os quarenta imortais, e muito prudentemente emudeceu, deixando o auditório a meditar sobre a sua indiferença glacial, desdenhosa e triste."

E a Academia de Letras? Essa, nem sequer nominalmente foi citada. Desde o título em letras garrafais, para chamar a atenção, o que o articulista glosou em todos os tons foi a inauguração, na capital do Estado, de urna ACADEMIA PAULISTA DE MEDICINA.

Melhor do que isso, só o artigo de "A Gazeta" de São Paulo, da mesma data (27-11), ao participar aos seus leitores a inauguração, naquela noite, da Academia de Letras, que nos dispensamos de transcrever.



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