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O DR. JOAQUIM JOSÉ DE CARVALHO
POR ISSO MESMO, será de elementar justiça determo-nos na apreciação dessa figura a quem São Paulo tanto deve com a criação da sua Academia de Letras, obra exclusiva da sua tenacidade, e levada avante ao arrepio da estagnação do meio, da timidez dos escritores de maior prestígio na São Paulo de então, e da oposição da maioria despreparada que se opunha à ideia estapafúrdia daquele médico que nem era paulista de quatrocentos anos nem mesmo de antiga militança na capital do Estado.

Nascido em 1850, a 23 de março, encerrou com brilhantismo o curso completo de humanidades, em Friburgo e no Rio, como discípulo predileto do sábio Barão H. Von Tautphoeus, e em 1866 matriculou-se na Escola Médica da Corte. Doutorou-se em Medicina em 72, após defesa da tese: "Questão Médica da Consanguinidade no matrimônio". Desde o tempo de estudante, colaborava ativamente na "Revista Acadêmica", secção de Medicina, e na Imprensa diária. São muitos e diversificados os títulos de seus trabalhos apresentados em congressos; urna dessas memórias foi redigida em francês: "Mes dernières études au point de lasthme"; já em São Paulo, na última fase da sua fecunda atividade, deu provas da sua formação humanística, com a publicação de um estudo em latim, a guisa de comentários em torno de trabalhos filosóficos do seminarista Lindolfo Esteves: "Dissertatio circa animae naturam". Mais para diante voltaremos a tratar da tão simpática aproximação desses dois estudiosos.

Durante alguns anos exerceu o cargo de médico-legista da Polícia do Rio, antes de entrar em cena, no ensino e na prática, o grande Nina Rodrigues com sua escola. E por serem então poucos os conhecedores dessa especialidade, era solicitado o Dr. J. J. de Carvalho de vários pontos do País, para esclarecimento das questões médico-legais debatidas no Fórum: "A questão médica do assassinato do Coronel Anacleto", "Defesa médica da ré Ana Quintina ante o júri de Itaporanga"; tudo servia de pretexto para novas publicações. Lecionou no Instituto Menezes Vieira, de elevado conceito naquela época, nos Colégios Abílio, Pujol, Amorim Carvalho, sendo que deste último foi o fundador e diretor nos primeiros anos. "Manual de Filosofia", "Método de Gramática Analítica", "Noções elementares de Geografia do Brasil", são outros tantos títulos de compêndios da sua lavra.

Certamente, nenhum desses trabalhos seria obra-prima no seu gênero; mas preencheram no devido tempo uma lacuna apreciável, numa época em que não tínhamos editores e que se ressentia da falta de livros didáticos em vernáculo para o estudo de todas as matérias, a começar pelo português. Nas outras matérias, ou os estudantes recorriam ao francês ou se arranjavam com apostilas improvisadas.

Ainda no Rio de Janeiro e nos intervalos de suas atividades no ensino ou na clínica particular, editou e prefaciou: "Obras completas" de Casimiro de Abreu; traduções e obras originais de Francisco Otaviano, e o livro em versos "Rosas do Ermo" do poeta Pinto Neves, meio esquecido dos historiadores do nosso tempo, senão mesmo definitivamente liquidado para os pósteros.

Alguns títulos dessas obras nos ajudam na tarefa de determinar a época de suas mudanças de domicilio: do Rio para Curitiba e de lá para São Paulo: "Primeiras Linhas da História da República no Brasil", e "Oração Fúnebre nas exéquias solenes de Floriano Peixoto", permitem-nos afirmar que por volta de 1894 ainda se encontrava no Rio. Mas, esta última oração foi repetida um ano depois, talvez com ligeiras modificações impostas pelo novo auditório, numa cidade do interior do Paraná: "Oração Fúnebre sobre Floriano Peixoto, como orador oficial na comemoração promovida pela Câmara Municipal de Imbituva, no Estado do Paraná".

Se se mudou primeiro para Imbituva, ou se recebeu convite em Curitiba para participar daquela homenagem póstuma, são mudas as fontes de que dispomos. Nem chegou o Dr. Carvalho a escrever as suas memórias, com o relato das várias vicissitudes da sua longa vida de trabalho, nem dispôs nunca de um secretário Ab epistolis para pôr em ordem aquele mundo de papéis e traçar em linhas gerais a sua biografia. E também quanto aos móveis de sua mudança para Curitiba. Bem relacionado como era, teria sabido da possibilidade de inscrever-se para concurso nalgum estabelecimento oficial de ensino daquela Capital; — e só nas capitais havia ginásio ou escola-normal, onde pudesse trabalhar com liberdade. O fato é que por volta de 1895 ele se encontrava em Curitiba, onde prestou concurso para lente catedrático de Francês e da História pátria no Ginásio Paranaense e na Escola Normal. Com a tese "Morfologia do adjetivo" habilitou-se também para reger a cadeira de Português neste estabelecimento de ensino. Nessa mesma época foi nomeado professor do Liceu de Artes e Ofícios da capital do Paraná. Como vemos, não obtinha empregos por influência de amigos ou da política; conquistava-os com o seu inegável talento e provas irrecusáveis da sua competência. Estava no vigor da idade, com quarenta e cinco anos, ou um pouco mais. De compleição forte e com a palavra fluente dos polemistas de vocação, não seria tarefa muito fácil para a banca de examinadores, em provas de concurso, contestar algumas conclusões menos canônicas ou sofreá-lo nas suas arremetidas.

Quanto às publicações feitas em São Paulo, não é possível datá-las com segurança. Apenas a dissertação em latim comporta uma aproximação razoável. Sabendo-se que o seminarista Lindolfo Esteves se ordenou em 1909, aos vinte e dois anos de sua idade, pois nascera em 1887, só poderia ter publicado aqueles escritos quase no fim, digamos, nos dois últimos anos do seu brilhante curso do Seminário. Desde o tempo de estudante, Lindolfo Esteves já era conhecido pela expressiva alcunha de "Mestrinho". Esse escrito do Dr. Carvalho é sintomático, porque nos revela, sem distorções possíveis, a feitura clássica de sua formação, e mais, o nível cultural das pessoas de suas relações mais chegadas, em qualquer meio que se instalasse. Como médico clínico, tinha acesso a todas as camadas da sociedade paulistana, dos mais humildes aos mais altos postos na escala dos valores políticos, econômicos ou culturais.

Mas, nas horas vagas de sua absorvente profissão, o studiosus philosophiae sabia como formar a sua roda de amigos, com iguais tendências e interesses elevados. Entram também nesta série mais nova algumas fantasias de curta metragem: "A Tragédia do Gólgota", poemeto histórico-sacro, "premiado em concurso", conforme lemos na enumeração lacunosa de seus trabalhos, "A Justiça", poemeto satírico, e "A Jagunceida", poema ou paródia extraída de "Os Sertões" de Euclides da Cunha.

Vale a pena determo-nos na apreciação desse título provocador, para lastimar a perda dos originais ou dos poucos exemplares impressos, se é que chegou a ser pulicado, como parece. Contrafações desse feitio não escasseiam na história da Literatura. Nas incursões pela política, então, a veia cômica dos autores obscuros exagera até à caricatura a fala e ademanes dos heróis da epopeia, para cobrir de ridículo os figurões do dia visados pela sátira. Mui raramente trata-se de exercícios de principiantes, sem maldade oculta nas entrelinhas. Mas serão raros. As intenções mascaradas — e às vezes, até expostas sem rebuços — das peças que podem ser assim classificadas, se esbatem na neblina do tempo, que não nos permite apreciá-las em plena luz, por ignorância da nossa parte no que diz respeito às condições ambientais da época. Muitas alusões aos contemporâneos nos passam despercebidas ou se ressentem das interpretações forçadas.

Às vezes, apenas o título é aproveitado, daí partindo o parodista para atirar as suas farpas no alvo a que visasse. Para não sairmos de casa, principiemos por uma brincadeira, para lembrar as "Bromilíadas", fruto do bom humor de Bastos Tigre, na propaganda de conhecido xarope para acalmar a tosse, o qual, talvez por isso, ainda goza da preferência da criançada.

E se passarmos do comércio para a vida social, não será fora de propósito lembrar um poema herói-cômico impresso em Vila Rica no começo do século (1910), com bastos empréstimos dos Lusíadas e alguns achados interessantes: "A Lucianeida", de Luís de Camarões. É a história dos apuros e contratempos de um orador da época, para exibir-se com todo o seu talento numa solenidade pública em condições desfavoráveis, de noitinha, ao ar livre e à luz oscilante de unia vela que os ventos se compraziam em apagar nas suas idas e venidas pelos vales das regiões serranas. Não falta ao autor engenho e graça, na maneira de apresentar-nos o desastrado mestre da oratória, com inequívocas reminiscências da vida boêmia do Rio de Janeiro do seu tempo de estudante :

- Tão apressado voava e desejoso
De lopestrovonar ao populaço.

Se deste ponto levantarmos o vôo para Portugal com as asas da imaginação, encontraremos "As Barbeiríadas", poema herói-cômico dedicado pelo autor à "ilustríssima, gentilíssima, considerabilíssima e poderosíssima classe dos Rapas do Porto, Gaia e Matosinhos ..." e que se propõe, sem dúvida, a zurzir muito mais do que o modesto ofício dos barbeiros da sua terra. E mais esta sátira que se define e localiza no tempo e no espaço com a simples enunciação do titulo : "Epopéia Camoniana de Portugal de Salazar na guerra. Dum Zé Ninguém".

Mas, sob o ponto de vista literário, a mais valiosa dessas paródias, como tudo que nos vem da Grécia, é também a mais antiga: a Batracomiomáquia, ou "A Guerra dos Sapos e dos Ratos", a deliciosa paródia dos poemas homéricos que a Antiguidade nos legou e que, por falta de maiores informações, atribuímos ao próprio Homero. Que muito, então, se a literatura brasileira se enriquecesse com uma contrafação inocente da imortal obra de Euclides? Os heróis da guerra de Canudos adquiririam maior relevo em nossa imaginação; o Conselheiro e seus jagunços, os Generais do Glorioso Exército Nacional, e o apavorado juiz da Bahia, principal responsável por aquela hecatombe facilmente evitável, se as respectivas caricaturas nos falassem em hexâmetros pausados, ou mesmo com a música das oitavas-rimas com que nos habituamos desde o berço. Mais lucrou em termos de imortalidade, o "Dom Quixote" de Cervantes com a publicação de uma suposta "Continuação" das aventuras de seu herói, de autor desconhecido, o Bacharel Avelaneda - criptônimo, evidentemente — do que com os elogios indiscriminados dos contemporâneos. Num pronto, dispusemos de elementos para discernir entre o escritor inteligente, e até habilidoso, o autor da suposta Continuação, e o Poeta de verdade — poietés-criador — de inspiração divina. Mas, para nossa desdita, no caso dos originais da "Jagunceida" podemos considerá-los irremediavelmente perdidos. Quem nos dará notícia desses preciosos manuscritos?

E não choramos apenas a "Jagunceida". Praticamente, toda a obra literária do Dr. J. J. de Carvalho desapareceu da face da terra, apesar do valor desses trabalhos e dos testemunhos irrecusáveis de sua publicação: teses de concurso, memórias para congressos, polêmicas pelos jornais e republicadas sob a forma de livros, compêndios escolares das mais variadas disciplinas: nada disso continuou vivo na memória dos pósteros nem se conservou nas prateleiras de nossos bibliófilos é como se não tivessem sido escritos. Na estante acadêmica da Academia Paulista só se encontra um trabalho assinado pelo Dr. Carvalho, e isso mesmo na secção de outra Cadeira, não a de nº4, por ele fundada sob a égide de Miranda de Azevedo: uma introdução de XXXVII páginas, ao livro de versos de Freitas Guimarães: "Fuga das Horas". Esse livro foi também impresso na Tipografia Espíndola. É dedicado à Academia Paulista de Letras, além de declarar expressamente o autor na página de rosto o título de acadêmico. Freitas Guimarães foi talvez o primeiro escritor paulista a apresentar-se em público com esse adorno que para muitos poderia servir de amparo, mas no seu caso só valia como confirmação do merecimento próprio. A Academia fora inaugurada naqueles dias. A introdução do Dr. Carvalho é datada de dezembro de 1910 (São Paulo), e traz como título: "As portas do Templo".

Como vemos, tanto o apresentante como o apresentado se sentiam engrandecidos por fazerem parte da nova entidade literária. Sim, conservamos com carinho mais uma pequena brochura, conferência bem humorada, "Dormir", pronunciada em Ribeirão Preto (20-7-1911). E nada mais.



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