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A ACADEMIA DE 1907
APESAR DOS PESARES, nesse ponto a Revista do acadêmico René Thiollier nos presta ótimo serviço, por guardar, até com excesso de zelo, documentos de primeira ordem, principalmente cartas, que nos permitem surpreender em pleno funcionamento a malfadada Academia de 1907, de duração efêmera. E não apenas transcrição na Revista; os próprios originais, conservados pelo prestimoso Secretário-Geral.

Conhecido o entusiasmo com que se puseram em campo os promotores da ideia, naquela altura ninguém poderia prever o seu próximo desaparecimento. O presidente já estava escolhido, e, por assim dizer, eleito: o próprio Brasílio Machado, que mais para diante dirigiria os destinos da segunda Academia. De Cabreúva escrevia Francisca Júlia ao Dr. Alfredo de Toledo uma carta para indicar os nomes da sua preferência para o preenchimento de duas cadeiras, cuja posse era disputada por meia dúzia de escritores: Adolfo Araújo e Jacomino Freire. Infelizmente seus afilhados não alcançaram o número de votos exigidos para a vitória. No verso dessa epístola alguém assinalou o resultado da votação: Reinaldo Porchat, 9; Arlindo Leal, 6; Adolfo Araújo, 5; Adolfo Pinto, 2; Paulo Pestana, 1; Artur Goulart, 1. Nomes, todos eles, de projeção no meio social de São Paulo, no começo do século.

Mais extensa e particularizada é uma carta de Vicente de Carvalho, dirigida a "meu caro Alberto" (Alberto Faria, conforme foi completado com lápis, por outra mão, entre parênteses). Exprime-se com segurança e como que animado do famigerado "espírito acadêmico" de que tanto se viria a falar e que quase ninguém sabe definir. Sugere nomes para completar o quadro social e propõe a publicação imediata de duas antologias — uma em prosa e outra de versos — de autoria dos membros da sociedade recém-formada. "A Academia Paulista de Letras precisa dar urna razão plausível da sua existência e não ser apenas uma vitrina em que nos ponhamos em exposição."

Quanto aos nomes sugeridos, não podia ser mais feliz na escolha e natural na argumentação: "Manda-me dizer o que há a respeito do Cândido; porque se o deixarmos entregue a si mesmo, ele fica no papel de mocinha tímida, a esconder as graças de sua Musa. E o Barreto? A minha opinião é que urna Academia Paulista de Letras para a qual não tenha sido convidado o Barreto, é ridícula". E mais algumas linhas a respeito de Paulo Pestana. O "Cândido" da referência, terá de ser Cândido Mota; quanto ao Barreto, fazemos votos para que não seja senão mesmo Plínio Barreto, já com nome feito nessa época, pois desde 1900 militava nas colunas de "O Estado de São Paulo".

Ai param os documentos relativos à escolha dos nomes dos componentes da primeira Academia. Quanto ao colapso da Sociedade, ocorrido pouco depois, sobrevive preciosos destroços salvados do naufrágio do tempo. Em verdade, essa Academia foi dissolvida pelo seu próprio fundador, o Dr. J. J. de Carvalho, antes mesmo de sua inauguração e de haver ele preenchido as quarenta cadeiras. Para eliminar da lista dos associados já inscritos dois nomes com que se incompatibilizara naqueles dias — precisamente os dois primeiros convidados por ele mesmo, para ajudá-lo na composição do quadro social — num rompante muito característico do seu gênio, enviou o Dr. J. J. de Carvalho um ofício ao presidente da mal-nascida instituição, o Dr. Brasílio Machado, e praticou em si próprio o haraquiri literário, resolução mais nipônica do que latina e em tudo avessa às tradições de boa paz condizentes com a índole do nosso povo.

Desse modo, desligou-se da Academia recém-formada a que indevidamente pertencia — só então o percebera — e no mesmo dia, como era também do seu feitio, concitou pela imprensa os senhores Alfredo de Toledo e Couto de Magalhães a fazerem o mesmo, pois todos três não passavam de intrusos naquela Sociedade em que só haviam penetrado por haverem encontrado a porta escancarada. Toda a peça é uma preciosa amostra do estilo contundente do Autor. Fora omissão grave não transcrevê-la, pelo menos em parte, para melhor juízo dos leitores:

"Melindra ao meu caráter esta falsa posição, e presumindo que aos dois outros cavalheiros repugnaria ou repugnará também esse falso título, pela imprensa a eles convidei repudiarmos a cadeira que tomamos, diga-se em verdade — de assalto —, restituindo à Academia o que lhe pertence, para que ela de tais cadeiras livremente disponha como melhor entender e julgar em seu independente e elevado critério. Por mim é o que ora faço; e a V. Exa. sincera e lealmente declaro que não sou candidato, pois bem reconheço minha indiscutível incapacidade."

Todavia, Couto de Magalhães Sobrinho saiu-se airosamente da refrega. Se bem considerarmos, argumentou, só havia um intruso na Academia: o próprio Dr. J. J. de Carvalho, que convidara em primeira mão a ele, Couto de Magalhães e ao Dr. Alfredo de Toledo para criarem uma agremiação naqueles moldes. Daí partiram os três para a formação do quadro social da nascente Academia, no feliz propósito de congregar os escritores de mais prestígio e fama do nosso meio. E ao Dr. J. J. de Carvalho, quem havia convidado? Ele mesmo a si próprio.

Compreende-se que, depois de descerem à liça os ideadores dessa iniciativa, para lutarem em mangas de camisa, empalidecesse até apagar-se de todo a ideia da criação daquela excrescência literária.

Sem sede própria nem atas nem rudimento de arquivo nem nada que a mantivesse de pé, e até mesmo sem haver sido inaugurada, arrefeceu o entusiasmo dos escritores já arrolados, justamente com o do seu preclaro presidente, retornando cada um para as suas ocupações de rotina, sem maiores preocupações com a imortalidade prometida pelo Dr. Carvalho, o pai da ideia da criação de uma Academia de Letras em São Paulo e o único responsável por sua dissolução.

A bem da verdade, o mais certo seria dizer que a ideia não morrera. Nem dois anos se passaram, ressurgiu com mais verdor e vontade de viver, e ainda desta vez por iniciativa do teimoso Dr. Joaquim José de Carvalho. Curioso o feitio desse médico carioca, que depois de várias andanças por outros Estados ou Províncias do Império fixou-se em São Paulo, onde abriu consultório, talvez no comecinho do presente século. Em toda a sua longa vida, onde quer que se estabelecesse, além do exercício da Medicina, nos hospitais e na clínica particular, dedicava-se ao magistério. E sempre com a pena na mão, a escrever compêndios para seus alunos nas matérias de sua preferência: Português, Geografia, História do Brasil e outras; teses de concurso, memórias para congressos, e, sobretudo polêmicas pelas colunas dos jornais da terra. E longa a sua bibliografia.



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