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RAUL MARINO JÚNIOR - CADEIRA Nº 1 - DISCURSO DE RECEPÇÃO PELO ACADÊMICO JOSÉ RENATO NALINI
Acadêmico: Raul Marino Júnior
José Renato Nalini recebe o acadêmico Raul Marino Júnior, exaltando sua trajetória e paixão pelo humanismo e bioética, tema de sua mais recente produção literária.

Inquirido sobre a ideal composição de uma Academia de Letras, MACHADO DE ASSIS respondeu que ela deveria contar com literatos, pois Casa de Letras, personalidades, para ter relevância social e jovens, pois - acima de tudo, uma Academia deve ser espaço de bom convívio.
Privilegiadamente, a ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS ao receber RAUL MARINO JÚNIOR atende, simultaneamente, à tríplice vocação proposta pelo bruxo do Cosme Velho. Hospeda, em caráter vitalício e de imortalidade, um literato, que já publicou nove consistentes trabalhos, consubstanciados em livros: Fisiologia das Emoções, Epilepsias, Functional Neurosurgery, O Cérebro Japonês, O Sermão da Montanha, O Moderno Hipócrates, A Religião do Cérebro, Em Busca de uma Bioética Global - Princípios para uma Moral Mundial e Universal e uma Medicina mais humana e Ensaio sobre o Amor - Do Eros Carnal ao Sublime Ágape. Centenas de outros contidos em ensaios, conferências, aulas, preleções, ponências e pronunciamentos na seara científica.
É personalidade respeitada em seu meio e fora dele. Formado pela Faculdade de Medicina da USP, devotou-se à neurocirurgia e nunca mais abandonou o estudo sério e determinado. Aprimorou-se continuamente, seja nos estágios simultâneos à formação em Medicina, na Residência em Neurocirurgia, ou na busca de amplíssimos horizontes no exterior.
Bolsista escolhido pela Organização Fullbright, foi para Boston onde adquiriu experiência e desenvolveu técnicas cirúrgicas para tratamento dos tumores cerebrais, malformações vasculares, patologias da fossa posterior, trauma craniano, hidrocefalia, neuralgias da face, cirurgia da coluna e medula espinal, cirurgia dos nervos periféricos e muitas outras patologias. A neurorradiologia foi objeto de grande parte de suas atividades, assim como não perdia qualquer outro curso que viesse a complementar a sua já sólida formação.
Depois de ano e meio, iniciou a jornada que o tornaria Fellow in Surgery na Harvard Medical School, ainda em Boston, sob a orientação de famosos neurologistas. Devotou-se a um projeto de pesquisa sobre o emprego do ultrassom focalizado em estereotaxia experimental em animais irracionais e também nos humanos. Analisou, pormenorizadamente, os métodos mais modernos da pesquisa laboratorial, mas também matemática, estatística, eletrônica aplicada à neurofisiologia, neuranatomia comparada, técnicas histológicas de microscopia eletrônica e microfotografia.
Conseguiu, simultaneamente, estagiar como part-time Research Fellow da Harvard University no Departamento de Neuranatomia do MIT, o célebre Massachusetts Institute of Technology, no serviço do Prof. Walle J.H. Nauta. Seu êxito nessa jornada o despertou para a psicocirurgia e para dominar as técnicas da cirurgia da dor.
O tempo de permanência nos Estados Unidos foi de intenso investimento em permanente aprendizado, estudos levados a uma seriedade até excessiva, realização de trabalhos escritos e experimentação, que o credenciaram a iniciar outro importante estágio, agora em Montreal, no Canadá, no famoso MNI - Montreal Neurological Institute da McGill University, serviço do Prof. Theodore Rasmussen. Naquele berço da cirurgia da epilepsia, de onde emanam os mais instigantes rumos sobre as funções do córtex cerebral humano, abeberou-se das melhores fontes para tornar-se perito em microcirurgia. Disso resultou introduzir, de forma pioneira, atualizada técnica de utilização do microscópico cirúrgico e da radiofluoroscopia com televisão em circuito fechado trans-operatória.
Ainda esteve a adquirir proficiência no Laboratório de Neurofisiologia de Maryland, junto ao Dr. Paul D. MacLean, pai das modernas teorias sobre as funções do sistema límbico e, como bolsita da FAPESP, fez estágio de Aperfeiçoamento no Serviço de Neurocirugia do Hospital SaintAnne, em Paris. Nunca deixou de profícua e intensa parceria com os mais destacados centros médicos neurocirúrgicos do mundo, realizando estágios no Mayfield Neurological Institute da Universidade de Cincinatti, Ohio, sobre o uso do laser em neurocirurgia e em Bedford, Massachusetts, sobre Neuranatomia funcional. Fez viagem de estudos a Israel, juntamente com outros médicos canadenses, a convite do governo daquele país, com o intuito de auxiliar o desenvolvimento da área de saúde e do currículo médico das Escolas de Medicina israelense.
Seu intercâmbio ininterrupto com os mais respeitados institutos e centros de pesquisa mundiais, envolve, no presente momento, contato direto com cerca de trinta entidades situadas em todos os continentes.
Permaneceu no exterior de 1964 a 1968, em função dos primeiros estágios. Ao retornar, em 1969, prestou concurso para médico-assistente e foi aprovado em primeiro lugar. Lotado no Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas da USP, voltou a frequentar o Departamento de Anatomia e publicou um Atlas e Guia de laboratório, para estudo de anatomia do sistema nervoso central, destinado ao ensino de residentes em Neurocirurgia.
Nunca mais parou em sua meteórica e exitosa carreira. Tornou-se responsável pelo Centro de Neuropsicocirurgia, mas acumulou exercício médico no Hospital A.C.Camargo, no Sírio-Libanês, na Beneficência Portuguesa, sem deixar de militar na criação de reconhecidos Centros de Excelência em sua área, como a Divisão de Neurocirurgia Funcional do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, o Laboratório Experimental de Investigação Médica em Neurocirurgia Funcional do mesmo Hospital, a Unidade de Documentação e artes médicas, assim como o setor de informática e bioengenharia e a criação de estágios e residência médica nessa mesma divisão.
Exerceu desde cedo a docência e obteve o primeiro lugar no concurso para Professor Titular na então recém-criada Disciplina de Neurocirurgia. Toda a titulação em Medicina foi obtida na USP, o Doutorado, a Livre-Docência, habilitado em concursos para Professor Adjunto e duas vezes aprovado. Sua notável contribuição para o progresso das atividades acadêmicas da Faculdade de Medicina da USP o credenciou a obter o título de Professor-Emérito. Cobrando sempre mais de sua inquietude intelectual, tornou-se Mestre em Bioética do Centro Universitário São Camilo e obteve a Livre-Docência em Ética Médica e Bioética, após brilhantes cinco provas em que obteve o grau máximo atribuído, simultaneamente, por todos os examinadores.
A Medicina não exauriu a sua insaciável sede por sapiência, mais do que pela erudição, desde jovem evidenciada. Foi o segundo colocado na aprovação nos vestibulares para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP no curso de Filosofia Pura. É uma personalidade de reconhecido respeito, granjeado junto aos círculos mais eruditos de sua complexa concentração de interesses.
A paixão pelo humanismo o conduziu, inexoravelmente, à sedução pela Ética e pela Bioética, tema atual de sua curiosidade científica e objeto de sua mais recente produção literária.
E é aqui, exatamente neste elemento, que reside o terceiro requisito machadiano para que aportasse, naturalmente, à Academia. RAUL MARINO JÚNIOR é jovem, porque mantém o nutriente de seu sonho. Propõe-se estudos futuros para enfrentar questões como a morte cerebral e a morte encefálica, nos seus aspectos éticos e bioéticos. Abordará a humanização do sistema de doações de órgãos, pretende aproximar as neurociências à bioética, mediante a criação de um setor dedicado à neuroética. Tem disponibilidade para auxiliar nos cursos de bioética clínica da Faculdade de Medicina, na criação da Pós-Graduação em bioética na USP e continuará a colaborar nas atividades do Núcleo Bioética da mesma Universidade de São Paulo.
A frustrada tentativa de síntese das quase quinhentas páginas todas repletas - verso e anverso - da prolífica produção de RAUL MARINO JÚNIOR em artigos, conferências, aulas, contribuição à formação de discípulos e participação em inúmeros cenários é insuficiente para transmitir o significado desta posse.
As Academias acenam com a imortalidade de seus integrantes. A raiz disso "está na continuidade do projeto vital, da necessidade interna de continuar projetando" . RAUL MARINO JÚNIOR tem projetos, evidencia seu enorme empenho amorável por um leque de temas relevantes. "E aqui irrompe a condição amorosa do homem, quase nunca levada a sério, passada por alto na maior parte da história do pensamento. Procurou-se sempre a peculiaridade do homem, falou-se de seu caráter inteligente, racional; tudo isto é certo, diz-se que o homem é animal rationale, mas nunca se diz que é animal amorosum. Nisto reside, eu creio, a raiz da condição humana" .
Há uma vinculação evidente entre a intrínseca condição amorosa do homem e a sua pretensão de imortalidade. O amálgama entre o amor, a vocação ao infinito, a certeza de residir no afeto e na memória dos sobreviventes, é o sonho.
RAUL MARINO JÚNIOR é um sonhador. "Nenhum ser humano jamais viveu sem sonhos diurnos, mas o que importa é saber sempre mais sobre eles e, desse modo, mantê-los direcionados de forma clara e solícita para o que é direito Que os sonhos diurnos tornem-se ainda mais plenos, o que significa que eles se enriquecem justamente com o olhar sóbrio - não no sentido da obstinação, mas sim no de se tornar lúcido. ... Que os sonhos diurnos tornem-se, desse modo, realmente mais plenos, isto é, mais claros, menos caprichosos, mais conhecidos, mais compreendidos e mais em comunicação com o correr das coisas. Para que o trigo que quer amadurecer possa crescer e ser colhido" .
O desejo de fazer as coisas melhorarem não adormece. A alma consciente de sua missão não desanima, não se desespera, não desiste. Persevera no sonho e no labor. Assim como um jovem idealista, condição de RAUL MARINO JÚNIOR, continua a sonhar acordado. Um sonhador sempre quer mais. "O sonhar, sobretudo, sempre sobreviveu ao fugaz cotidiano individual" . Procura-se algo diferente, algo maior, algo melhor. Sonhar realimenta a esperança do mundo idealizado. "O conteúdo ativo da esperança, na qualidade de conscientemente esclarecido, cientemente explicado, é a função utópica positiva, enquanto o conteúdo histórico da esperança, evocado primeiramente em representações, investigado enciclopedicamente em juízos concretos, é a cultura humana na relação com o seu horizonte utópico-concreto" .
Aprofundar-se na neurociência ampliou, até o infinito, as já profundas cogitações do cientista humanizado, do erudito que não abomina a fé, mas que, na experimentação científica, apurou que é inútil "ignorar a força e a energia que nos animam a mente e o pensamento, a consciência e a possibilidade da existência de uma alma e de um espírito, repudiando o sobrenatural como incômodo ao raciocínio humano" .
Somente alguém que já ultrapassou as fronteiras do conhecimento e atingiu a verdadeira sabedoria, pode concluir, como o nosso novo imortal, que nos tornamos "humanos pela interação e pelo convívio com outros humanos, amando os que nos são queridos, desejando seu crescimento espiritual e sofrendo ou compadecendo-nos (padecer junto) com seu sofrimento" .
Ele domina a ciência e pode afirmar, de cátedra, qual a região do cérebro "considerada uma das responsáveis pelos sublimes sentimentos de amor, caridade, fé e esperança, o amor, em sua mais alta manifestação, se tornaria uma transformação criativa de nossas respostas ao outro; amar o outro desse modo seria como permitir que os sentimentos dele exercessem influência sobre o afeto que sentimos. ... Essa capacidade de escolher uma direção para a vida e de sentir empatia e amor ao próximo são processos que definem as qualidades da alma, transformando-nos em co-criadores criados; em colaboradores na transformação do mundo que nos rodeia" .
A ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, casa de literatos, de personalidades e, principalmente, de bom convívio, soube escolher o sucessor do nosso querido JOSÉ CRETELLA JÚNIOR. Agiu com o cérebro, "o único instrumento biológico e universal que constitui o alicerce para o comportamento humano, sede de todos os sentimentos, pensamentos e emoções" .
Meu querido acadêmico RAUL MARINO JÚNIOR, titular da Cadeira nº 1 da centenária ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS: você chega onde já era esperado, está no lugar certo, predestinado a recebê-lo!
Continue a sonhar e terá trinta e nove outros companheiros do sonhar acordado, pois esta é uma Casa que tem o direito de sonhar e almeja um futuro melhor para o Brasil de hoje, de amanhã e de sempre.







[1] MARÍAS, Julián, A Felicidade Humana, São Paulo: Duas Cidades, 1989, p.368.

[2] MARÍAS, Julián, op.cit., idem, p.368/369.

[3] BLOCH, Ernst, O Princípio Esperança, vol.I, Rio de Janeiro: Editora UERJ/Contraponto,2005, p.14.

[4] BLOCH, Ernst, O Princípio Esperança, vol.II, Rio de Janeiro: Editora UERJ/Contraponto, 2006, p.9.

[5] BLOCH, Ernst, O Princípio Esperança, vol.I, idem, p.146.

[6] MARINO JÚNIOR, Raul, A Religião do Cérebro, São Paulo: Editora Gente, 2005, p.11.

[7] MARINO JÚNIOR, op.cit., idem, p.29.

[8] MARINO JÚNIOR, op.cit., idem, ibidem.
[9] MARINO JÚNIOR, op.cit., idem, ibidem.



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