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DISCURSO DE RECEPÇÃO FEITO PELO ACADÊMICO ANTONIO PENTEADO MENDONÇA
Acadêmico: Maria Adelaide do Amaral
Na eternidade, a vila de boca de sertão e a metrópole alucinada são uma coisa só. A mata da fazenda Himalaia se mistura com o apartamento do prédio nos Jardins, e o urro da onça faz contraponto ao concerto de Liszt, enquanto um gavião é posto para fora da sala no décimo segundo andar pelas vassouradas da Lucia. Salve Emy! Salve Fafá!

Na eternidade, a vila de boca de sertão e a metrópole alucinada são uma coisa só. A mata da fazenda Himalaia se mistura com o apartamento do prédio nos Jardins, e o urro da onça faz contraponto ao concerto de Liszt, enquanto um gavião é posto para fora da sala no décimo segundo andar pelas vassouradas da Lucia. Salve Emy! Salve Fafá!
As antigas lembranças recuperam suas formas e se reencontram nos bancos dos jardins do paraíso. O pôr do sol tinge o céu com seu vermelho alaranjado e repica a sinfonia dos sinos chamando as turmas de volta dos cafezais.
Sentado na grossa raiz de uma imensa figueira debruçada sobre o antigo muro do terreiro, o poeta nos assiste, aqui embaixo, receber Maria Adelaide Amaral como a nova titular da Cadeira 35 da Academia Paulista de Letras.
Paulo Bomfim sorri. Sorri com a boca e com os olhos. E seu sorriso único, profundamente terno e amigo, espalha o calor de sua alma contente entre todos nós aqui reunidos neste começo de noite abençoado pela felicidade do poeta.
Foi no fim de 2003, começo de 2004 que Paulo Bomfim e Maria Adelaide Amaral se reconheceram. Não foi um encontro, foi o reencontro de duas almas apaixonadas por São Paulo, fruto do momento em que nossa nova Acadêmica colocava no ar uma de suas obras mais marcantes. "Um só Coração" trouxe de volta a magia de uma São Paulo que hoje é lembrança ou personagem de obras mais ou menos densas, que resgatam um tempo em que a vida corria, pelo menos para uso externo, mais fácil e mais bonita. A partir da amizade cimentada pela trama de Yolanda Penteado revivendo a São Paulo do "Quarto Centenário", Paulo Bomfim começou a me dizer que Maria Adelaide Amaral precisava entrar na Academia Paulista de Letras. Almoço sim, almoço não, o tema voltava e ele, com seu jeito todo especial de grande conspirador, insistia: a Maria Adelaide tem que entrar na Academia. E eu concordava com ele
Paulo Bomfim tomou posse na Cadeira 35 da Academia Paulista de Letras em 23 de maio de 1963, exatamente 31 anos após a fatídica noite em que o primeiro sangue derramado pelos paulistas manchou as ruas da cidade, em 1932.
Foi dos Acadêmicos mais longevos, participando da vida da Academia por 56 anos, até sua morte, quando era o Decano, em 7 de julho de 2019, dois dias antes do 9 de julho que ele reverenciava.
Ao tomar posse, já era o poeta de Antonio Triste e do Armorial, era reconhecido como jornalista, homem de rádio e televisão e um dos intelectuais em ascensão no universo cultural brasileiro. Ao longo da vida, foi eleito "Príncipe dos Poetas Brasileiros", Intelectual do Ano de 1981, recebeu o Troféu Juca Pato, foi Presidente do Conselho Estadual da Cultura, etc. A lista é quase infindável, mas, acima de tudo, e com enorme orgulho, ele se dizia um homem do Tribunal de Justiça de São Paulo, onde exerceu importantes cargos até a sua morte.
Autor de mais de 30 livros de poesias, crônicas, ensaios e textos de história, além de pensamentos e reflexões sobre a vida, Paulo Bomfim tem lugar maior entre os grandes nomes da cultura do país.
Como se não bastasse, com certeza, pelo menos a partir do ingresso do Presidente José Renato Nalini e do meu na Academia Paulista de Letras, ele influenciou a eleição de todos os Acadêmicos, o que me permite dizer que todos nós fomos eleitos por Paulo Bomfim.
Hoje, Maria Adelaide Amaral toma posse da Cadeira 35 da Academia Paulista de Letras. A Cadeira que por 56 anos foi a Cadeira de Paulo Bomfim. Ela é a última Acadêmica eleita pelo nosso eterno Poeta, que, como um "Cid" moderno, comandou sua eleição depois de morto.
Maria Adelaide Amaral toma posse na Cadeira que tem como patrono Antonio de Godói Moreira e Costa, cujo fundador foi José Vicente de Azevedo Sobrinho.
Os ocupantes da cadeira 35 foram João Pedro da Veiga Miranda, Plinio Marques da Silva Ayrosa e Paulo Bomfim, Poeta de São Paulo.
Maria Adelaide Amaral nasceu no Porto, em Portugal, no ano de 1942 e se mudou para o Brasil em 1954.
Formada em jornalismo, é das maiores autoras de teatro e televisão do país. Além disso, é romancista e tradutora.
Amiga querida de Paulo Bomfim, é mais fácil mostrar quem é Maria Adelaide Amaral nomeando algumas de suas obras. Assim:
Teatro: Bodas de Papel; A Resistência; Ossos D'Ofício; De Braços Abertos; Seja o que Deus quiser; Uma relação tão delicada; Para tão longo amor; Querida Mamãe; Chiquinha Gonzaga, Ó Abre Alas; Tarsila; Mademoiselle Chanel; As Meninas; Frida y Diego.
Livros: Luísa; Aos meus amigos; Dercy de cabo a rabo; Coração solitário; O Bruxo; Estrela nua.
Traduções: Krapp's last tape (A última gravação); The Edwardians (Grades de Ouro); Six Degrees of Separation (Seis Graus de Separação;) Kean Three Tall Women (Três Mulheres Altas); Cenas de um casamento; Decadence (Decadência); Joana Dark - a re-volta; Lettie And Lotte.
Televisão: Meu Bem, Meu Mal- (1990) - co-autora - novela de Cassiano Gabus Mendes; Anjo Mau (1997/1998) autora - baseada no original de Cassiano Gabus Mendes; A Muralha; Os Maias; A Casa das Sete Mulheres; Um Só Coração em parceria com Alcides Nogueira; JK-em parceria com Alcides Nogueira; Queridos amigos; Ti ti ti; Dercy de verdade; Sangue Bom
A consequência deste currículo impressionante é ela ter recebido praticamente todos os prêmios atribuíveis a uma obra com a diversidade da sua. E assim que Maria Adelaide Amaral recebeu: Moliére 1978, 1983, 1984, 1994; Governador do Estado - 1978, 1984 e 1996; Associação dos Críticos de Arte - 1978 e 1996; Ziembinsky 1978; APETESP 1984; Mambembe duas vezes em 1984 e duas vezes em 1994; Prêmio Shell 1994 e 1995 Prêmio Sharp 1998; Troféu Jabuti (LITERATURA) - 1986; Prêmio APCA (TV) 2001 e 2003.
Suceder a Paulo Bomfim não é tarefa fácil. Ainda mais na Academia Paulista de Letras, onde o Poeta pautou as rotinas por mais de 50 anos.
Para isso é indispensável, além de ser intelectual de escol, retidão de caráter, integridade, bondade, lealdade, compaixão, inteligência, talento, cultura, amor à vida, respeito ao próximo, e, evidentemente, uma obra consistente e perene.
Mas se suceder a Paulo Bomfim não é fácil, para escolher sua sucessora bastou aos Acadêmicos, pela última vez, seguirem a indicação do Poeta. O nome que, desde o início, despontou como o mais talhado para ocupar a Cadeira 35 da Academia Paulista de Letras foi o de Maria Adelaide Amaral.
Sua eleição foi fácil. E a quase unanimidade dos votos dos Acadêmicos tem razão de ser. Minha amiga, Maria Adelaide Amaral, é uma pessoa especial. Brilhante, inteligente, culta, competente, profissional, intelectual de escol, grande autora de teatro e televisão, romancista e tradutora, ela ainda oferece ao mundo o caráter reto, a integridade, a personalidade marcante, as posições fortes e uma enorme dose de compaixão.
É por isso que eu tenho certeza de que, ao eleger Maria Adelaide Amaral para a Cadeira 35 da Academia Paulista de Letras, além de mais uma vez se curvarem à vontade do Poeta, ps Acadêmicos escolheram o melhor nome.
Bem-vinda Maria Adelaide Amaral, a partir de agora, nossa casa é sua casa.




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