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DISCURSO DE POSSE - JOSÉ GOLDEMBERG (13/02/2014)
Acadêmico: José Goldemberg
"Agradeço inicialmente aos membros da Academia Paulista de Letras pela confiança em me eleger. Considero uma honra e um privilegio ocupar a cadeira nº 25..."

Caros Colegas e amigos

Agradeço inicialmente aos membros da Academia Paulista de Letras pela confiança em me eleger. Considero uma honra e um privilegio ocupar a cadeira nº 25 - da qual Varnhagen, o grande historiador brasileiro do século 19, é o patrono - sucedendo Tatiana Belinky, escritora de maravilhosos livros infanto-juvenis. Antes dela, Carlos Augusto Ferreira, Sergio Milliet, Péric1es Eugenio da Silva Ramos e Crodowaldo Pavan, o pioneiro da genética no Brasil, ocuparam esta cadeira.

Apesar de ter passado boa parte da minha vida em laboratórios sinto-me à vontade na companhia dos eminentes escritores, poetas, juristas, artistas e outros intelectuais que integram esta Academia.

A disciplinaridade, isto é a divisão do conhecimento em áreas estanques surgiu nas áreas técnicas como a engenharia necessária para construir pirâmides no Egito, navios na Grécia ou aquedutos no Império Romano. Estas atividades eram em geral exercidas por escravos e não por homens livres. Sem os pesados encargos de cultivar a
terra e o comércio - que lhes assegurava a subsistência - os cidadãos de Atenas se preocupavam com as grandes questões que diziam respeito à governança e às especulações sobre os grandes problemas da humanidade. Platão e Aristóteles foram os seus grandes expoentes. Apesar do brilho de suas análises a grande maioria da população da época vivia aprisionada a mitos e crendices muitos das quais os ajudavam a conviver ou se conformar com eventos naturais incontroláveis.
A ciência, ao longo dos séculos, evoluiu eliminando muitas dessas crendices, mas não algumas das questões fundamentais que já preocupavam os gregos. Quem somos? Para onde vamos? O que determina o comportamento das pessoas?

O grande desenvolvimento tecnológico no século 19 aprofundou a
especialização em áreas estanques, o que não ajudou a esclarecer estas questões. Por essa razão são escritores como Tolstoi, Dostoievski, Balzac, Vitor Hugo e Freud que lançaram mais luz sobre elas do que os cientistas.

Ao meu ver, contudo estamos convergindo. Quando Charles Darwin formula a teoria da evolução que explica a espantosa diversidade dos seres vivos e quando a elucidação do código genético é feita mostrando que ela surge a partir de combinações de moléculas, são derrubados séculos de obscurantismo e ideias simplistas sobre nossa origem.

Quando a Mecânica Quântica se desenvolveu em meados do século 20 ela derrubou as ideias mecanicistas e determinísticas do universo estático de Newton e Kant e introduziu o "principio da incerteza" que nem mesmo Einstein aceitou com o aforismo que "Deus não joga dados", Einstein estava errado e o avanço científico reabilitou parcialmente concepções de alguns filósofos do século 18, como Berkeley e outros, sobre nossas limitações em entender o que se passa em tomo de nós.

É por isso que me parece tão importante que as grandes Academias abriguem cientistas ao lado de escritores e artistas. Pasteur no século 19 foi membro da Academia de Letras da França. Galileo, no século 17, foi membro da Academia de Lincei "academia dos linces", isto é, daqueles que tem excelente visão. Várias outras academias foram organizadas ao longo destas linhas, inclusive a Pontifícia Academia do Vaticano.

Numa escala muito mais modesta tenho tentado promover esta aproximação explicando aos colegas, e à sociedade em geral, quais as consequências de desenvolvimentos científicos que podem ser benéficos ou maléficos para a humanidade. Em outras palavras, que o conhecimento científico não deve ser o único objetivo do cientista cuja motivação muitas vezes é apenas o da ciência pela ciência.

Tendo me tornado um especialista em temas referentes à energia em geral, inclusive energia atômica e as consequências ambientais do seu uso, tenho me esforçado em mostrar que o uso de energia - essencial para o desenvolvimento - não precisa ser necessariamente predatório. Os diversos livros, trabalhos e inúmeros artigos que escrevi sobre o tema são o testemunho disso.

A leitura dos clássicos da literatura, que fiz na minha juventude - vindo do Rio Grande do Sul, para estudar na Universidade de São Paulo em 1945 - na Biblioteca Mario de Andrade, então dirigida por Sergio Milliet me abriram os olhos para um mundo mais vasto que a da ciência.

Que entendo, meus amigos da Academia Paulista de Letras reconheceram este papel que exerci ao longo de minha vida e que tentarei continuar a desempenhar como membro da Academia.

Obrigado a todos!




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