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NINGUÉM SE LEMBRARÁ
Acadêmico: José de Souza Martins
"Ali, naquele recanto antigo de Piratininga e da Borda do Campo, antigos tropeiros e caipiras da roça testemunhavam, sem o saber, os minutos que antecediam o nascimento da Pátria."

"Para meu neto, Felipe Martins Gramani;
Para minhas filhas, Veridiana e Juliana;
para meus genros, Marcelo e Thiago;
para Heloisa."



No ABC, no subúrbio industrial de São Paulo, ninguém se lembrará daquela tarde de 7 de setembro de 1822, de que, pouco mais de meia hora antes do sagrado momento da inesperada proclamação da Independência do Brasil, o Príncipe Dom Pedro de Alcântara, filho do Rei de Portugal, por ali passou, voltando de Santos. Fora visitar a família de José Bonifácio de Andrada e Silva, o verdadeiro articulador e patriarca da Independência que se avizinhava e começaria a ser proclamada dali a alguns minutos.
Seria definida dentro de algumas horas quando um grupo de jovens andradistas, de menos de 28 anos de idade, revelaria a Dom Pedro que seu gesto na Colina do Ipiranga, naquela tarde, era de fato o da decisão pela Independência do Brasil e pela fundação de uma pátria e nação. Coisa que, para ele, herdeiro da Coroa de Portugal, não estava clara.
Em São Bernardo do Campo e em São Caetano do Sul, ninguém se lembrará de que, pela Estrada das Lágrimas, um antigo Caminho do Mar, o Príncipe atravessou São Bernardo e cruzou a parte sul de São Caetano em direção à colina do Ipiranga naquela derradeira hora de espera e de esperança. Ali, naquele recanto antigo de Piratininga e da Borda do Campo, antigos tropeiros e caipiras da roça testemunhavam, sem o saber, os minutos que antecediam o nascimento da Pátria.
Pouco adiante, na Favela de Heliópolis, já na entrada de São Paulo, ninguém se lembrará de que, ali ao lado, em frente a um ponto de ônibus e vizinha, hoje, à casa número 515, o Príncipe passou sob a galhada da bicentenária e cansada Árvore das Lágrimas, a poucos minutos do momento decisivo. Árvore que já foi musa dos poetas da Academia de Direito e perece agora no esquecimento injusto dos paulistanos. Campos de futebol de várzea, ao redor, distraem neste dia a consciência de seus vizinhos.
Ao longo dos remanescentes desse trajeto, ninguém se lembrará da mulinha que o Príncipe montava. No solene quadro que celebra a Independência do Brasil, hoje no salão nobre do Museu do Ipiranga, Pedro Américo a substituiu por garboso cavalo de epopéia. A mulinha marchadeira foi apagada da memória do mais importante evento da história brasileira. Não era digna de ser lembrada numa época em que a memória das coisas históricas, era uma memória napoleônica. Mulas não carregam príncipes nem fazem história. Cavalos, sim.
O povo, também anônimo como aquela mula, está ausente daquele quadro pintado em Paris. Povo que, na lenta marcha dos passantes era, naquela hora derradeira, gente de São Bernardo e de São Caetano. De várias dessas pessoas se tem o nome, o das que moravam à beira do caminho, algumas das quais certamente viram a passagem da engalanada comitiva pelo bairro dos Meninos Novos, em São Bernardo, e pelo bairro dos Meninos Velhos, em São Caetano.
Ninguém se lembrará do Padre Ildefonso Xavier Ferreira que, naquela noite, na modesta Casa da Ópera, no Pátio do Colégio, em São Paulo, aproximou-se da tribuna em que estava o Príncipe e proclamou: “Viva o Rei do Brasil: Independência ou Morte!” Na crônica oficial a proclamação do padre foi parar na boca do futuro Imperador. Ninguém acenderá uma vela ao pé do túmulo do Padre Ildefonso, na via de entrada do Cemitério da Consolação.
O que será contado às crianças e adolescentes, especialmente de São Bernardo e de São Caetano, e às crianças e adolescentes da favela de Heliópolis e do Ipiranga, os que vivem à beira do que ainda é e do que, já não sendo, foi a Estrada das Lágrimas, neste dia 7 de setembro do sem graça ano da graça de 2017? Os que vivem à beira da vida, à beira da História, à beira da verdade? Provavelmente, nada. Para que?
De que memória estamos falando? Quem, honestamente, dirá às novas gerações que a verdadeira memória é a memória do silêncio e da perplexidade dos simples, o que não se esquece nos detalhes daquilo que foi porque de vários modos continua sendo, o nós que somos e gostamos de sentir? Quem se lembrará de que o esquecimento é fabricado e que a memória sem autenticidade é também fabricação, montagem, conveniência e poder? Quem? Quem nos ensinará que, se esquecêssemos menos, seríamos mais?







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