Compartilhe
Tamanho da fonte


A ALGARAVIA EM MANAUS
Acadêmico: Gabriel Chalita
A construção que somos precisa de bases sólidas.

A algaravia em Manaus

Estive mais uma vez em Manaus, a cidade que olha o grande Rio e que respira a Floresta. E que recebe gentes de cantos diferentes para ouvir o canto dos pássaros, inclusive o do Uirapuru, o pássaro que faz a vida silenciar para ser ouvido.

Do canto em que eu estava, em um café de hotel, ouvi uma senhora, cujo sotaque pareceu de outro canto. E ela, em um português esforçado, explicava o passeio de barco e a algaravia animada do alto.

Nunca havia escutado “algaravia”. Fui pesquisar. Encontrei significados bonitos. A origem vem do árabe. Há muitas palavras que se iniciam com “al” que vêm do árabe. Almofada, alface, algodão, alcaide, alecrim, álgebra, alicerce.

Fiquei pensando na palavra alicerce. No que nos dá chão. A construção que somos precisa de bases sólidas. Lembrei dos meus avós que vieram do Líbano e que sofreram para serem compreendidos. “Algaravia” também tem esse significado. Quando os mouros ocuparam a região que onde hoje ficam Portugal e Espanha, era difícil de compreender.

É difícil compreender a beleza dos sons da floresta. Entretanto, é fácil sentir quando os sentimentos se deixam conduzir pelas águas, pelas águas que agasalham grandes e pequenos peixes. Pelas águas que alimentam de vida os ribeirinhos.

Na Feira de Livros do Sesc Amazonas, um ir e vir constante de crianças, adolescentes, jovens, adultos de todas as idades. E um ir e vir de palavras. Escritores indígenas dizendo os seus afetos. E suas tradições. E ancestralidades.

Escritores de cantos diferentes olhando e dizendo e alimentando os silêncios com preciosidades. Alguns conhecidos internacionalmente, outros no intento amoroso de lançar o primeiro livro, de dizer a primeira história e de sonhar que faça história.

É preciosa a palavra, o nascer da palavra. É precioso o que ela diz e o que há de submerso ou de não dito, quando o seu som no mundo silencia e ela entra no pensamento.

A mulher, do café do hotel, dizia de um quarto envelhecido de uma casa de tantas histórias. E dizia do marido que desaparecia no sono sem que a conversa encontrasse o fim. O fim da conversa, seu encerramento? Ou o fim de finalidade?

Ela prestou atenção que eu prestava atenção e veio estar comigo. E quis saber de mim. Falamos de passados que servem de sementes. Falamos do seu país e do meu. Dos seus medos e dos meus. E rimos juntos uma felicidade instalada nos instantes.

Ela é das artes. Chegamos ao quadro de Goya, o grande pintor espanhol, intitulado “O sono da razão produz monstros”. O sono da razão demite as sensibilidades. Olhamos para nada e nada vemos quando olhamos, insistentemente, para um único brilho que não brilha. Que nos faz opacos.

Falamos das pessoas que copiam pessoas e voltamos a falar da floresta. Tão única e tão diversa. Falamos dos afetos desperdiçados, das amizades estraçalhadas por ódios e radicalismos. E sonhamos ali com algum amanhecer que dissipasse as sombras em tantos cantos do mundo. Sim, o sono da razão produz guerras e produz indiferenças.

E eu pergunto onde ela aprendeu a palavra “algaravia”. Ela, então, ri. E pergunta se está errado. Eu digo que não. Ela diz que é uma algazarra (palavra também de origem árabe) mais poética.

Penso na poética. A poesia é, também, o canto potente do Uirapuru. Ou o vaivém das águas. Ou o respirar das coisas. Ou o sentir das alegrias miúdas que fazem grande um dia.

Queremos ver além dos olhos, precisamos da poesia. O som dos ventos é também poesia. O som das mãos que aplaudem ou que ajudam ou que apenas se encontram para passear em frente a um grande teatro. Que lindo o Teatro Amazonas! Que cúpula! Que história!

Talvez o quarto envelhecido seja cabível a outras construções. Inclusive a humana. Somos um encontrar de passados e futuros no presente. Os passados nunca passaram. Os jardins florescidos, hoje, foram cultivados algum dia. O homem foi menino. O homem é menino. O menino está no homem. A senhora que me ensinou uma nova palavra é, também, a menina curiosa querendo futurar no mundo grande.

Falei, também, na Feira. E também ouvi. E também vi. E também cultivei silêncios. E também abracei. Como gosto dos manauaras. E do Norte do Brasil. E do Brasil inteiro. Como gosto de gostar de uma prosa alimentada da poética dos desinteresses.

A mulher, visitante do nosso país, nada queria de mim, a não ser conversar. E eu ofereci a ela um X- caboquinho. Quem é de Manaus sabe do que estou falando e até se delicia em pensar. Quem não é, faça como eu, pesquise, porque há uma algaravia de sabores e cheiros e sons e paisagens esperando para serem conhecidos.

Publicado em O Dia, em 08 11 2026



voltar




 
Largo do Arouche, 312 / 324 • CEP: 01219-000 • São Paulo • SP • Brasil • Telefone: 11 3331-7222 / 3331-7401 / 3331-1562.
Imagem de um cadeado  Política de privacidade.