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![]() Acadêmico: Gabriel Chalita A vida é dor. Essa é a experiência mais humana entre as humanas experiências.
O que me falta Arrumei as cobertas e com o silêncio da luz apagada abracei a fragilidade. Tive vontade de mãe, de colo de mãe. Tive vontade de chorar a dor. A vida é dor. Essa é a experiência mais humana entre as humanas experiências. Tive vontade até de acabar. Tudo misturado. Pensei que a morte é melhor do que a dor. Pensei de novo e voltei a ter vontade de melhorar. A vida é vontade. Sem vontade, ela é nada. Nadei nas lembranças e a solidão do mundo inteiro sussurrava verdades em mim. Acúmulos desnecessários. Ordens insanas de não parar, de vencer, de exibir poder. Se eu pudesse, ao menos, ter saúde. O resto é nada. Ao menos hoje. Ao menos debaixo dessa coberta. Enquanto o frio me visitava, eu pensava na falência de uma vida sem amor. E nas grades construídas sem razão. E no maior de todos os desperdícios, o mau uso do tempo. A possibilidade do fim me convidava ao início. Em meio à dor, imagens bonitas da infância, de dias mansos, de ventos de vozes brincando. De mãe na cozinha chamando para o almoço. De doce de vó. Embaixo da coberta, o sabor da lembrança. O som diminuído da alegria ainda se deixava ouvir. A poeira do tempo. A porteira dos desejos. Quantos ficaram impedidos de prosseguir. Por razões que desconheço. Por atropelamentos de assuntos. Pela despedida das manhãs onde o acordar era apenas um desejo de brincar. Os anos foram derrotando o brincar. E, com a ausência do brincar, a leveza foi ficando ao longe. E também a simplicidade de correr descalço no quintal de terra onde tudo crescia, inclusive o amor. Queria ter podido proibir a morte dos que morreram. Um a um. O barulho das vozes silenciando. O lugar na mesa, vazio. E a proibição do abraço. E a saudade. Na dor do medo da dor, a saudade. A saudade do tempo sem dor. Na doença, a saudade da saúde. Nas pernas desobedientes, a saudade das caminhadas pela margem do rio. Do rio que não para. A avó dizia que um doce deve ser saboreado. Não se pode comer sem se dar conta de comer. O mastigar devagar. O andar devagar, mesmo quando se pode correr. Para se ver o rio. Para se ver a velha estação de trem, onde antes vinha muita gente. E muita gente ia. E os barulhos se misturavam aos sentimentos tão desalinhados. Uns abraçavam a chegada, outros choravam a partida. O remédio é pensar que passa, que tudo passa. Até os pensamentos ruins. Os que nem sempre são pensamentos, porque o pensamento limpa as bobagens e alivia as bagagens. O que me falta é saúde. O médico disse que eu me acalmasse. O tempo, esse escapulir constante, hoje me aprisiona. E me ensina. Tantos desejos desonestos. Tantas palavras estúpidas a mim mesmo. Se eu pudesse, ao menos, um banho em um pedaço de mar. Se eu olhasse a miudeza das coisas e escrevesse poemas sobre elas e as fizesse respirar o dia. Olho a fotografia dos meus pais, na cabeceira, enquanto desajeito um pouco as cobertas. E sorrio o sorriso deles. Onde estarão agora? Vejo alguns livros, com os riscados que sempre fiz nas palavras que, dançando com outras palavras, fizeram frases que me fizeram. Gosto e respeito as palavras. E dou vida a elas quando nelas penso. Gosto de pensar bonito sobre o bonito que elas revelam. Sem elas, nada. Nem o pensamento existe sem palavra. Nem mesmo o êxtase diante da música que sai dos instrumentos resiste sem palavras. O que me falta é acreditar que nada falta. Que o que desperdicei de tempo, desperdicei por não saber. Que se ficar bom novamente, serei melhor. Que a vida é dor porque dor é expansão da alma, da consciência da finitude e da carência do outro. Da cozinha, sinto o cheiro da infância. Ao longe. Daqui a pouco alguém trará amor para mim. E eu retirarei as cobertas e aceitarei o calor do dia para voltar a caminhar e aprenderei a ir mais devagar. Não por fraqueza. Por sabedoria. O cheiro da cozinha se mistura ao sono. No sono, o sonho. E no acordar, também. O que me falta me faz desejar. Uma noite bem dormida. Um dia de experiências bonitas. Alguns abraços. Um ouvido capaz de ouvir. Um sorriso sincero e alguns olhares, alguns olhares de amor. O que me falta é lembrar sempre que o amor é a respiração que inaugura a vida. Desde o início de tudo até o início de cada instante que nasce para ser vivido. E que, depois, vai embora. Como a dor. Como a gente. Tudo passa... Publicado em O Dia, em 13 09 2026 voltar
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