Compartilhe
Tamanho da fonte


MINERAÇÃO SUBMARINA
Acadêmico: Rubens Barbosa
A mineração submarina desponta como uma nova fronteira estratégica para o Brasil

Mineração submarina

A mineração do mar profundo, o turismo marítimo, a aquacultura, a biotecnologia azul e as energias renováveis offshore são áreas prioritárias para o desenvolvimento dos setores marinho e marítimo para o Brasil, mostrando a importância do Atlântico Sul para a economia nacional.

A mineração submarina – para comentar apenas uma das cinco áreas – desponta como uma nova fronteira estratégica para o Brasil, impulsionada pelo crescente interesse global por minerais críticos – como cobalto, níquel e terras raras – essenciais à transição energética e à indústria de alta tecnologia. Com uma vasta área marítima sob sua jurisdição, a chamada “Amazônia Azul”, o País reúne condições geológicas promissoras, especialmente em regiões de elevações submarinas e crostas ferro-manganesíferas no Atlântico Sul.

Ainda assim, a atividade permanece em estágio inicial, marcada por lacunas regulatórias, desafios ambientais e elevados custos tecnológicos. Se o governo brasileiro tivesse uma política de investimentos em áreas de interesse do País, parceria público-privada e concessões poderiam colocar o Brasil na primeira linha nessa área.

O Brasil tem papel singular por ser contratante na Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) para crostas cobaltíferas na Elevação do Rio Grande, com contrato iniciado em 2015 e término em 2030, área de 3.000 km², e indicação de ocorrência em várias faixas de profundidade (com maior potencial entre 800-2.200 m). Em paralelo, no espaço sob jurisdição brasileira, a agenda é mais ampla e inclui recursos minerais marinhos costeiro-plataformas (areias, fosforitas e minerais pesados, entre outros), com necessidade de consolidação regulatória, licenciamento e bases de dados interoperáveis.

No plano institucional, o Brasil já participa de iniciativas internacionais vinculadas à ISA, mas carece de um marco regulatório específico e de uma estratégia nacional consolidada para exploração comercial em larga escala. A experiência acumulada pela Petrobras em operações offshore profundas representa uma vantagem comparativa relevante, mas a mineração em grandes profundidades exige tecnologias ainda mais sofisticadas, incluindo veículos submersíveis autônomos, sistemas de elevação mineral e monitoramento ambiental contínuo.

No plano de governança, dois movimentos novos devem ser levados em conta: 1) a continuidade do impasse e da negociação no âmbito da ISA para regras de explotação, com pressões pró-explotação; e 2) a entrada em vigor, em 17 de janeiro de 2026, do Tratado do Alto-Mar (Acordo BBNJ), fortalecendo regimes de avaliação de impacto, monitoramento, ciência e mecanismos de proteção em áreas além da jurisdição nacional – com potencial de exigir coordenação institucional com a ISA.

É nesse contexto que a energia nuclear pode assumir um papel decisivo. A descarbonização da cadeia de mineração marinha tende a ser um diferencial competitivo (e regulatório) sobretudo porque a logística é intensiva em energia. A energia nuclear pode entrar em três funções: 1) energia embarcada – inclusive por reatores modulares pequenos (SMR), em arranjos marinhos –; 2) cogeração para hidrogênio e/ou dessalinização; e 3) fornecimento estável para processamento offshore/onshore. A Agência Internacional de Energia Atômica reconhece o potencial de SMRs marine-based para aplicações marítimas e explicitamente inclui deep-sea mining como um caso de uso possível, ao lado de ilhas remotas e plataformas offshore. Contudo, a adoção enfrenta barreiras regulatórias, de segurança, seguro, aceitação social e portos – e o próprio arcabouço marítimo internacional está em atualização: a Organização Marítima Internacional iniciou revisão do Código de Segurança para Navios Mercantes Nucleares, discutindo também unidades flutuantes de energia nuclear.

A operação de sistemas de mineração submarina em larga escala demanda fontes energéticas densas, confiáveis e independentes de condições climáticas – características inerentes à geração nuclear. Pequenos reatores modulares (SMRs) ou microrreatores embarcados em plataformas offshore ou embarcações especializadas poderiam fornecer energia contínua para operações remotas, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e ampliando a autonomia logística.

Além disso, a energia nuclear pode viabilizar infraestruturas de suporte em áreas isoladas, como bases de processamento inicial ou hubs logísticos em alto-mar. A sinergia entre mineração submarina e sistemas nucleares avançados também abre espaço para aplicações integradas, como produção de hidrogênio offshore e alimentação de sistemas robotizados de alta potência.

Apesar do potencial, especialistas alertam que o avanço dessa agenda exigirá cautela. Questões ambientais – ainda pouco compreendidas em ecossistemas abissais – e a necessidade de aceitação pública impõem limites ao ritmo de desenvolvimento. Nesse cenário, o Brasil tem a oportunidade de estruturar uma abordagem equilibrada, combinando inovação tecnológica, rigor regulatório e protagonismo internacional, posicionando-se como ator relevante em uma indústria que pode redefinir a geopolítica dos recursos naturais nas próximas décadas.


Publicado no jornal O Estado de S. Paulo/Opinião, em 08 09 2026



voltar




 
Largo do Arouche, 312 / 324 • CEP: 01219-000 • São Paulo • SP • Brasil • Telefone: 11 3331-7222 / 3331-7401 / 3331-1562.
Imagem de um cadeado  Política de privacidade.