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A MONGÓLIA SE ESPANTOU
Acadêmico: José Renato Nalini
A condição de insuficiência de água em quase todos os países é uma questão superior a qualquer política pública

A Mongólia se espantou

Estive na Mongólia, a participar da COP-17, a Convenção para o Combate à Desertificação promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esse destino estava ausente de minhas cogitações turísticas. Mas valeu a viagem. Fiquei impressionado com a distância, com a imensidão desse país nos confins asiáticos, a confrontar-se com a Rússia e com a China.

Tem a menor densidade populacional do planeta: cerca de 1,3 habitante por quilômetro quadrado. Sua capital – Ulaanbaatar – abriga metade dos mongóis, que totalizam pouco mais de 3 milhões. Ou seja: toda a Mongólia representa um quarto da população paulistana.

Participei de vários encontros que abordaram inúmeros temas. O mundo está preocupado com a escassez hídrica e com a crescente desertificação do planeta. Dentro da COP, houve discussões como a promovida pelo Fórum Asiático para o Meio Ambiente, a abordar a questão “Terra-Alimento-Clima: A Armadilha da Pobreza do Neo-Nexo no Sul Global”, que muito tem a ver com a situação brasileira. Também estive presente à iniciativa do Instituto Global de Crescimento Verde e Programa de Paisagens Multifuncionais, com o propósito de Restaurar a Terra, Restaurar a esperança: conectando a lacuna entre ciência, política e financiamento para a ação do Nexo do Rio.

Um dos pontos mais prestigiados foi a Iniciativa Global de Terras do G-20, ancorada nas evidências de que a restauração é mais do que urgente, oportunidade em que se lançou o Relatório de Conquistas Globais de Restauração de Terras no ano de 2026.

Houve um dia temático sobre financiamento para restauração de terras e resiliência à seca, durante o qual realizou-se um diálogo ministerial sobre abordagens inovadoras de investimento para essa inadiável tarefa. Muitas ideias foram expostas, inclusive com sugestões para integrar melhor as estruturas financeiras e mobilizar recursos em escala, pois é essencial a atuação da iniciativa privada. A dimensão e a complexidade da crise ambiental superam a capacidade do poder público, principalmente em países como o nosso, em que a desigualdade social, não raro, reclama tratamento de choque imediato e prioritário.

Ocorre que tudo converge para a necessidade de se encarar com seriedade o cataclismo climático. Íntima a conexão entre o maltrato à terra, a resiliência econômica, a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável, que não prescinde de aguda atenção para a saúde física e mental dos humanos.

A participação paulistana concentrou-se no dia temático sobre o nexo terra-água como base da resiliência. Além da abertura de alto nível do Dia da Água, com ênfase na seca e desertificação como risco sistêmico global, insistiu-se na demanda de maior compromisso político e ação integrada entre governo e sociedade. Houve troca de experiências e identificação de prioridades, com abertura de alternativas para explorar oportunidades de mobilização de recursos financeiros e pessoais de enfrentamento da crise hídrica global.

São Paulo apresentou-se no painel “Prevenindo a falência hídrica: Cidades, Operadoras e Bacias Hidrográficas na linha de frente da resiliência à seca”, com exposição do secretário de Mudanças Climáticas e o testemunho do coordenador da Operação Integrada de Defesa das Águas (Oida), o coronel da Polícia Militar Washington Luiz Gonçalves Pestana, que realiza as operações de salvação dos mananciais, sobretudo a Represa do Guarapiranga. A Oida foi objeto de intenso interesse por parte de todas as comitivas que participaram da sessão, inclusive do jovem prefeito da capital mongol, Byaruuzanyn Pürevdagva.

Razoável parcela dos interessados considerava inexistente qualquer problema de escassez hídrica no Brasil, tido sempre como detentor campeão de água doce. Ao tomar conhecimento da situação dos mananciais, sobretudo a represa do Guarapiranga, única abastecida com nascentes locais, ao lado de elogiar a municipalidade, que atua com regularidade a inibir as ocupações clandestinas, estranhou a aparente ausência de comoção por parte da sociedade civil.

É que a condição de insuficiência de água em quase todos os países é uma questão superior a qualquer política pública, já que pertinente à própria sobrevivência das criaturas. A responsabilidade pela preservação dos mananciais, protegidos na maior cidade brasileira por tríplice esfera normativa – federal, estadual e municipal – é de toda a sociedade.

Ressalvadas excepcionalíssimas reações, por parte de privilegiadas mentes sensíveis e conscientes do risco a que a humanidade se expôs, ao não cuidar da natureza, da qual faz parte, com o respeito que ela merece, prepondera um cruel desinteresse. Como se a não remota possibilidade de vir a faltar água para beber, a afetar milhões de humanos, não representasse o maior perigo já enfrentado pelas criaturas que se autodenominam racionais.

É paradoxal que o bicho-homem, o último animal a vir a habitar a Terra, e o único a se considerar provido de razão, seja o responsável pela eliminação da vida sobre o planeta que o acolheu e que dele não está a merecer o respeito devido.

Publicado no jornal O Estado de S. Paulo/Opinião, em 05 09 2026



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