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![]() Acadêmico: Rubens Barbosa As principais ameaças ao agronegócio, cada vez mais evidentes num mundo incerto e inseguro, dependem de um pensamento estratégico do governo para mitigá-las ou eliminá-las
Agro tropical e geopolítica O agronegócio é o motor da economia brasileira pelo seu dinamismo e seu peso no comércio exterior. A preservação e a expansão do setor nos próximos anos vão ser fundamentais para o desenvolvimento e crescimento do País e a definição do lugar do Brasil no mundo. Estudos da FAO mostram que o mundo vai depender do Brasil para a segurança alimentar de milhões de pessoas. Apesar disso, não há discussão sobre as estratégias do agronegócio no contexto geopolítico global contemporâneo. O agronegócio brasileiro, junto com os EUA e a União Europeia, em condições diferentes de manejo da terra e uso da água, tornou-se um fator indispensável para a segurança alimentar global. O Brasil tornou-se uma potência tropical no agro, com vantagens estratégicas e vulnerabilidades que precisam ser ressaltadas pelos seus impactos nos próximos anos. As principais ameaças ao agronegócio, cada vez mais evidentes num mundo incerto e inseguro, são a extrema dependência de fertilizantes, o preço do petróleo e do gás, a logística (portos e estradas) deficiente, o crime organizado e a mudança de clima, e dependem todas de um pensamento estratégico do governo para mitigá-las ou eliminá-las. A regulamentação restritiva, com barreiras não tarifárias, pode ser equacionada pela negociação comercial conduzida pelo governo, mas reduzir a concentração da exportação em poucos mercados, como o da China, que absorve 35 da exportação da soja, depende de uma efetiva ação empresarial de diversificação. Mais recentemente, os custos de produção – inclusive pela alta taxa de juro – estão agravando a inadimplência no campo. O agro passou a ser sensível à geopolítica, a rotas marítimas, energia fóssil, enxofre, gás natural e segurança econômica (com restrições unilaterais à importação: EUA, União Europeia e China). No curto prazo, os fertilizantes são a maior ameaça ao agro. O estudo Brasil como líder mundial em produção de soja (46 do total da produção de grãos): até quando e a que custo?, do Instituto Escolhas, mostrou que entre 1993 e 2023 a área plantada com soja aumentou 317, enquanto o uso potencial de agrotóxico (inseticidas, fungicidas e herbicidas) na produção do grão teve um crescimento de 2.019. Uma das principais razões para esse aumento expressivo no uso de agrotóxicos na produção da soja é a ampla implementação do plantio direto desassociado de outras práticas sustentáveis e combinado com o uso de herbicidas sintéticos. Por todo o período, herbicidas sempre corresponderam a mais de 50 dos agrotóxicos comercializados no Brasil. Sem alternativas biológicas, o uso de herbicidas sintéticos estimado na soja cresceu de modo equivalente à área com plantio direto no País entre 1993 e 2023: 11 ao ano. A dependência é insustentável: 97 do potássio consumido, 90 do nitrogênio e 80 dos fosfatados são importados. O Brasil importou 44 milhões de toneladas em 2024 (23 da demanda global), 40 da Rússia, e 45 dos fornecedores são países geopoliticamente instáveis. Some-se a isso o choque de preços, com aumento de 129 em 2022 e entre 20 e 50 para os nitrogenados neste ano. Em 2022, o governo criou o Plano Nacional de Fertilizantes, com a meta de produzir metade do consumo até 2050 – claramente insuficiente. O governo e o setor privado têm de buscar rapidamente alternativas de fornecimento no seu entorno geográfico, como a Argentina, para energia e fertilizantes, e a Bolívia para fertilizantes. O grande El Niño mostra o impacto climático sobre a safra atual. As mudanças de clima reduziram o crescimento da produtividade agrícola global em 21 desde 1961, com as maiores perdas nas regiões tropicais. O Brasil está vivendo uma emergência climática sem precedentes, como demonstrado no mais recente relatório ambiental do Ministério do Meio Ambiente. O documento revela alertas regionais diferenciados, aumento da frequência de chuvas pesadas, prolongadas secas no Nordeste, início antecipado da estação seca no Amazonas e na região do Matopiba, além da intensificação das ondas de calor. A inclusão do risco climático no planejamento do setor não pode ser adiada. A falta de estradas, ferrovias, os gargalos na chegada dos portos, as limitações portuárias tendo em vista o crescimento da produção e exportação e as dificuldades para melhor aproveitamento das hidrovias na calha norte reforçam a falta de estratégia dos governos para acompanhar o desenvolvimento do agronegócio nacional. Embora seja inegável a importância do agro para o crescimento da economia brasileira, o cenário atual repete a história do açúcar, do café, do minério de ferro e outros, em que se acreditou que um setor poderia resolver os desafios do desenvolvimento. Nenhum país do porte do Brasil fundou seu desenvolvimento apenas em recursos naturais. O verdadeiro motor da economia deve estar baseado na transformação da estrutura produtiva, no fortalecimento da indústria e dos serviços, na absorção do conhecimento tecnológico e no fortalecimento da ciência e das cadeias produtivas. A atração de investimento externo para impulsionar os avanços tecnológicos e o desenvolvimento de áreas estratégicas de alta sofisticação dependem da estabilidade política e econômica e de segurança jurídica, reduzidas hoje em dia e que se espera melhorem no futuro governo. Publicado no jornal O Estado de S. Paulo/Opinião, em 11 08 2026 voltar
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