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ANGELITA GAMA (1933-2026)
Acadêmico: José Renato Nalini
Primeira residente em cirurgia da Faculdade de Medicina da USP, Angelita quis estudar e o fez com garra e brilho

Angelita Gama (1933-2026)

O mundo ficou incrivelmente mais pobre em 30 de maio de 2026. Deixou esta existência terrena a médica, cientista e pesquisadora Angelita Habr-Gama, cujo currículo é o mais provido de conquistas dentre as mulheres que se entregaram à ciência.

Quando pensei em seu nome para integrar a Academia Paulista de Letras, já a admirava como profissional e ser humano. Fui paciente seu e me tornei admirador fervoroso. Pois, além da competência médica, era humana e ética. E ética é a matéria-prima de que o Brasil de nossos dias mais se ressente.

Ouvi do governador Geraldo Alckmin que, dentro de cem anos, ninguém se lembrará de cada um de nós. Mas Angelita Gama continuará a ser reverenciada pelo mundo da ciência. Foi a primeira residente em cirurgia da Faculdade de Medicina da USP. Revolucionou o tratamento do câncer retal no Brasil e no exterior.

Era chamada a ensinar em centros de excelência no mundo inteiro. Mas conservava o seu “savoir faire”, o seu espírito jovial, o incomparável bom-humor. Por isso, recepcioná-la quando se tornou “Imortal bandeirante”, foi motivo de enorme satisfação pessoal. Falar bem de quem se gosta é exercício prazeroso.

Foi com devotado reconhecimento que então a saudei: Visionária, precursora, pioneira e predestinada, Angelita Gama é também a primeira mulher cientista a adentrar o pórtico da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS.

Sua vida é um romance bem urdido. Apaixonante, instigante, disseminador da certeza de que nada é impossível para quem submete os condicionamentos a uma vontade hercúlea.

Angelita nasceu com aquela certeza: sou capaz de transformar o mundo. Já foi superiormente retratada por nosso confrade Ignácio de Loyola Brandão, também imortal da Academia Brasileira de Letras, numa obra prefaciada por José Pastore, outro confrade. Ambos escreveram com emoção. A trajetória de ANGELITA suscita encantamento.

Determinação, ousadia e audácia. ANGELITA quis estudar medicina e o fez com garra e brilho. Quis fazer residência em Cirurgia. Conseguiu. Mas não havia limites para quem nasceu predestinada a aplainar caminhos para as mulheres que, desde há muito, viviam vidas traçadas pelos homens.

Acreditar em si mesma, na sua capacidade e nas potencialidades hábeis a derrubar muralhas, foi a proposta que observou em todas as etapas de uma jornada de glórias.

E assim foi para Londres, conquistou os mais respeitados e cobiçados dentre os graus acadêmicos, converteu-se na papisa de sua expertise. Obteve infinidade de títulos, recebeu incontáveis honrarias, tornou-se verdadeira celebridade. Mas – e isso é fundamental se explicite e se enfatize - preservou a essência de uma vocação voltada à benevolência. A generosidade habita sua alma. O ser humano é a matéria-prima de sua ciência e o destinatário de sua aplicação.

Quantas milhares de vida mereceram a exação dos ofícios de ANGELITA e se prolongaram anos a fio? Quantas famílias não reverenciam a Doutora ANGELITA, que lhes devolveu entes queridos para os quais já não havia esperança?

A opção dessa mulher que sempre estudou e que ainda estuda foi investir no conhecimento e perseverar, rumo à perfectibilidade para a qual nasceram os humanos, até atingir a plenitude possível. Mas ao aí chegar, prossegue em contínuas superações. Pois não há limites no processo de aquisição da sabedoria.

Por uma singular concessão da Providência, teve a seu lado o parceiro ideal. Veio então a partilha do conhecimento, do amor à ciência, que os uniu para a conquista dos pináculos da medicina, mas daquele amor que move o sol e as demais estrelas e os manteve unidos como mulher e marido, num casamento paradigmático. Que homem, além de Joaquim Gama, poderia acompanhar esse dínamo incansável, essa guerreira que não oferece tréguas quando se trata de crescer em habilidade, em perícia, em eficiência e dedicação?

Eis a comprovada demonstração de que pode haver cumplicidade na profissão, despida do espírito de competição que amarga as melhores intenções, da concorrência que desespera, do ciúme que sufoca o bem querer.

Angelita Gama já era imortal, por sua portentosa obra e esplendorosa vida, muito antes de ser “Imortal Paulista”. Seu legado a manterá viva como paradigma para as gerações de hoje e para as que virão. Dela se pode falar como o poeta Paulo Bomfim: “Não choremos os que partiram com sobranceria nas feições e a missão cumprida sob olhos cerrados. Choremos os que fizeram de si objetos de transação com os senhores da terra e os senhores do céu”.

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 08 06 2026





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