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O SAGRADO, O PROFANO E O ARQUITETO
Acadêmico: Gabriel Chalita
Cada um tem uma história em que verdades vão sendo acumuladas com os anos. As circunstâncias nos levam a crer ou a descrer.

O sagrado, o profano e o arquiteto

O sagrado, o profano e o arquiteto

(Gabriel Chalita)

Sou arquiteto de formação. Sempre gostei das linhas decididas que acalmam as indecisões. Projeto como abraço. Para acolher os sonhos e construir espaços que descansem a vida das suas rudezas. 

Rude é o que não sou. Sou um escutador paciente nas impaciências do mundo. Se poder eu tivesse, devolveria a gentileza aos encontros. Convidaria as palavras de amor a desenharem comigo novas arquiteturas nas relações humanas. Nas relações humanas, sou um aprendiz. Por isso, escuto. 

Escutei o que me contratou para o projeto da sua casa. Ele e sua mãe. Enquanto eu dizia de cada traço traçado para dar vida ao seu pedido, ela escutava. Ora sorria, ora franzia a testa. O filho olhava para mim e olhava para a mãe. Como um pássaro livre e um pássaro preso aos pensamentos que pensam pelos dois. 

Depois de terminada a explicação, ela pediu para dizer;

"O senhor não pode colocar o quarto das rezas ao lado do quarto em que ele faz as suas coisas de homem".

O filho havia me pedido um quarto com um oratório e com conforto suficiente para as rezas. Eu fiz. E o quarto ficava ao lado do quarto de dormir. Uma suíte com tudo o que ele sugeriu ser útil para os seus descansos. 

Eu disse que poderia mudar os lugares. Que havia um terceiro quarto onde eu havia projetado o seu escritório e um espaço, se necessário, para receber hóspedes. 

A mãe foi incisiva: "Não se mistura oração com as coisas que os homens fazem". 

Eu disse concordando em voz alta: "O sagrado e o profano".

"O meu filho é solteiro. Tem quase quarenta, mas é solteiro. Já deveria ter se casado. Já deveria ter me dado netos".

Eu soltei um 'Pois é', olhando para o filho. O filho dizia nada. Eu disse que mudaria o projeto. E perguntei a ele. Ele disse um murcho "É isso". 

Fiquei escarafunchando em mim aqueles dois. Filho único. Ela, viúva. Querendo netos. Ele querendo paz. E querendo agradar a mãe sem desagradar a vida. 

Ela foi ao banheiro e ele me disse: "Faça o que ela quer, depois a gente muda". Ela voltou e perguntou se eu era um homem de oração. Eu disse que sim. Perguntou se eu era casado. Eu disse que não. Perguntou a minha idade. Respondi. Disse ela que oraria por mim para que eu encontrasse a mulher certa. Eu agradeci. 

Ele e eu nos olhamos com olhar de carinho por aquela mulher e por suas crenças. Eu quis dizer que o sexo é também sagrado. Eu quis dizer que a oração se ora em qualquer lugar. Eu quis dizer que tanto o seu filho quanto eu podemos ser felizes solteiros. Ou casados. Com filhos. Ou sem filhos. E que ela não precisa de netos para viver a vida. Eu disse nada. Apenas sorri. 

Cada um tem uma história em que verdades vão sendo acumuladas com os anos. As circunstâncias nos levam a crer ou a descrer. Sou um homem crente na fé. Agradeço a Deus todos os dias pelos dias. E pelo que posso arquitetar nesse mundo. E agradeço, também, ser um pássaro livre. Minha mãe nunca me ofereceu gaiolas, só a fé, só o amor que acorda os dias, e os cômodos, e as pessoas para viver. 

Refiz o projeto. A mãe ficou feliz e disse: "Agora só falta casar". Quem sabe?!

Publicado em O Dia, em 07 06 2026



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