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CAUSOS JUDICIAIS
Acadêmico: José Renato Nalini
Nem só de ‘juridiquês’ se vive em nossas trincheiras. Os ‘causos’ também servem para mostrar que a Justiça chora, se emociona e até sabe rir

Causos judiciais

Os juízes sempre foram bons escrevinhadores. O trato contínuo com a palavra os torna peritos na linguagem. Os que não se satisfazem com redigir as decisões, chegam a enveredar pela poesia, pela ficção, pelo ensaio e até – o que é mais frequente – pelos manuais.

O folclore judicial é exuberante. Toda espécie de ocorrência já teve lugar nos Fóruns. Narrativas pitorescas representam imenso repertório, nem todo ele já publicado. Se todas as conversas informais mantidas pelos magistrados fossem reproduzidas em livros, haveria enorme biblioteca a servir de entretenimento para aqueles que consideram insossa a fala jurídica. Há muito humor, enorme sensibilidade e um acervo psicológico de grande interesse, nos episódios reais que os Tribunais assistiram.

É lamentável que pessoas notáveis, cada qual delas a representar uma verdadeira biblioteca de acontecimentos forenses, tenham partido sem deixar eternizado em livro esse tesouro hoje irrecuperável.

Lembro-me do desembargador Onei Raphael Pinheiro Oricchio, um colecionador de boutades e de fatos verdadeiros que ele coloria com sua descrição tão colorida quanto instigante. Outra pessoa com quem convivi e a quem reiterei, durante anos, reproduzisse no papel – era o que se fazia há algumas décadas – as deliciosas fábulas que tinham como personagens luminares do Direito, era Paulo Bomfim, cujo centenário celebramos neste 2026.

Seu acervo era fabuloso. Poeta, cronista, ensaísta, historiador, o último dos “Príncipes” da poesia brasileira, Paulo Bomfim atravessou gerações, pois detinha memória inigualável. Conviveu com figuras enaltecidas pela História, esteve na intimidade do Tribunal de Justiça de São Paulo durante décadas. Foi testemunha presencial de boa parte do século XX e do século XXI.

Vladimir Passos de Freitas é outro magistrado hábil na reprodução de acontecimentos que interessam à História do Poder Judiciário. Devo cometer imperdoáveis omissões, ao deixar de trazer outros nomes que se preocuparam com as estórias ocultas da Justiça nacional. Porém, o que me levou a esta digressão foi a leitura do livro “Nós, os advogados e juízes, não vistos por ele, o povo”, de Edmeu Calmesini. Desembargador hoje aposentado, integrou o glorioso e sempre saudoso Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, cuja unificação ao Tribunal de Justiça eliminou sua excelência e sua invejada performance.

O sonho dos que lutaram pela unificação dos quatro tribunais – dois de Alçada Civil e um de Alçada Criminal – ao Tribunal de Justiça, era levar a expertise pioneira e moderna destas Casas exitosas ao vetusto TJ. Prevaleceu o gigantismo, que algumas gestões tentam domar, embora o resultado nunca alcance a desenvoltura dos Alçadas.

Mas Edmeu, que sempre conhecíamos pelo nome de família “Carmesini”, retificou-o para Calmesini. E este livro é uma coleção de textos muito gostosos de ler, pois identificáveis por qualquer profissional da área jurídica da era anterior à digital. A multiplicação de processos, o auxílio imprescindível da eletrônica, a mecanização e a automação, o cipoal normativo prodigalizado por inúmeras fontes, das quais a mais intensa é o CNJ, são fenômenos que inibem a produção literária de magistrados.

Assim, quem quiser saber como era a Justiça brasileira no século XX, tem de ler “Mau acordo ou boa demanda”, “Entregando o ouro ao bandido”, “Assim é, se lhe parece”, “Para malandro, malandro e meio”, “Tribunal, o Império da Moda”, “Para ir se acostumando”, “Quem pode manda, obedece quem tem juízo” e outros textos de Edmeu, que já publicou também “Peças & Retalhos” e “Nos Caminhos da Justiça”, uma autobiografia que ainda não li.

Excelente a ideia de Edmeu, de que o TJ-SP, a OAB-SP e o MP-SP constituam Comissão Mista para que sejam recolhidos relatos, casos pitorescos, o folclore do sistema Justiça, para que isso não se perca na era algorítmica, em que a IA generativa inventa, alucina e chega a mentir.

Quanto ao Ministério Público, instituição à qual tive a honra de permanecer entre 1973 e 1976, existe alguém predestinado a comandar esse grupo: Antonio Visconti, um guardião da memória ministerial de confiabilidade e lisura a toda prova.

Nem só de “juridiquês” se vive em nossas trincheiras. Os “causos” também servem para mostrar que a Justiça chora, se emociona e até sabe rir.

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 02 06 2026



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