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DÁ PARA SER OTIMISTA HOJE?
Acadêmico: José Renato Nalini
Triste Brasil, a depender de um Parlamento antiecológico, antiambiental, anti-natureza. E este ano é de eleições! Prestemos atenção em quem votar. Você é a favor ou contra a natureza?

Dá para ser otimista hoje?

Tento ser otimista. Velho ingênuo, animo-me com pouca coisa. Por exemplo, a preocupação da juventude com a situação climática. O Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância, realizou uma pesquisa e concluiu que 75 dos jovens brasileiros estão preocupados com as mudanças climáticas. 66 deles acreditam que o desenvolvimento de habilidades sustentáveis, as green skills, abrirá novas oportunidades de emprego.

A economia verde não entrou no radar do governo federal, sequestrado por um Parlamento que empolgou o orçamento e só legisla em causa própria. Os jovens, que se desinteressam por essa política representativa, pensam que ainda há tempo para remediar os problemas causados pela mutação do clima. Será?

As emissões de metano associadas às energias fósseis continuam a crescer, de acordo com a Agência Internacional de Energia. A produção recorde de petróleo, carvão e gás em 2025 fez com que o setor respondesse por 35 das emissões de metano de origem humana. Ou 124 milhões de toneladas. Em 2024 foram 121.

Mas essa juventude otimista não percebe que o movimento antiecológico avança com aceleração ultrassônica, enquanto a defesa da natureza recua. A CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil iniciou ação no STF para pedir a suspensão de uma norma que bloqueia o acesso a crédito rural por propriedades com desmatamento.

Se o discurso do governo é “desmatamento zero”, como conceder crédito a quem desmata? Não é o contrassenso? Muito legítima a exigência do Conselho Monetário Nacional, integrado pelo Banco Central e Ministérios da Fazenda e Orçamento e Planejamento, de exigir se houve corte de vegetação antes de liberar empréstimos. Não se pode invocar “presunção de inocência” para quem extermina o futuro e ameaça a sobrevivência quando a desertificação vier a substituir a cobertura vegetal.

A falta de consciência parece a norma para a imensa maioria dos “salvadores da lavoura”. O TCU, em 2025, apurou que 29,7 bilhões de crédito rural foram repassados em transações com fortes indícios de irregularidade ambiental.

Simultaneamente, a Câmara Federal aprovou dois projetos de lei de interesse dos ruralistas inimigos do ambiente. Um deles barra ações de fiscalização do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, com base em tecnologias remotas. Com quadros deficientes, só a tecnologia permite apurar desmandos e crimes ambientais. Mas os “donos da terra” não querem isso. Querem continuar a dizimar o maior patrimônio brasileiro, que sequer é inteiramente conhecido por nós mesmos.

O outro reduz a área da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará. A ganância não consegue enxergar que floresta em pé vale mais do que área devastada. É a vontade de plantar soja para ser exportada para o mundo e milho para sustentar animais do lado mais adiantado do planeta.

O PL aprovado na Câmara reduz 486 mil hectares da área protegida, para permitir que os fazendeiros a utilizem para produção. Inclusive facilita a legalização de áreas griladas. Algo que o Ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, chamou de “rolo compressor”.

Os ruralistas do mal não querem que a fiscalização opere. Foi a tecnologia que permitiu a operação Maravalha. Nos últimos meses, apreendeu 15 mil metros quadrados de madeira ilegal e aplicou multas de R$ 110 milhões.

A Floresta Nacional do Jamanxim foi criada em 2006, em Novo Progresso, no Pará, com 1,3 milhão de hectares e próxima ao Parque Nacional do Jamanxim, alvo de cobiça dos produtores rurais.

Embora seja de conhecimento de todos que manter floresta e produzir não são atividades incompatíveis, o “ogronegócio” insiste na eficiente e nefasta indústria da desertificação. O IBAMA já vinha sendo defenestrado no governo passado e está sempre na mira dos inimigos do verde. Estão empenhados em votar por atacado uma série de projetos de lei de extrema nocividade, como conferir poder ao Ministério da Agricultura e Pecuária para vetar espécies classificadas por órgãos ambientais como invasoras ou sob risco de extinção. Também querem a renegociação de dívidas dos infratores ambientais, mudanças no Seguro Rural e outras pautas que têm o DNA de quem só se serve da natureza como supermercado gratuito, do qual tudo se extrai, nada se repõe.

Triste Brasil, a depender de um Parlamento antiecológico, antiambiental, anti-natureza. E este ano é de eleições! Prestemos atenção em quem votar. Você é a favor ou contra a natureza?

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 01 06 2026



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