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DETALHE (POUCO) DIPLOMÁTICO
Acadêmico: Rubens Barbosa
Xi Jinping deixou demarcada publicamente a linha vermelha de Taiwan como o fator decisivo que irá permitir competição, sem confrontação

Detalhe (pouco) diplomático

A moratória de um ano na disputa comercial, acertada em outubro passado, permitiu a visita a Pequim de Trump, que será reciprocada em setembro por Xi Jinping.

A reunião de cúpula entre os presidentes das duas superpotências globais terminou sem acordos assinados e sem declaração final ressaltando os principais tópicos de conversação, como normalmente ocorre quando as viagens são anteriormente preparadas pela burocracia dos dois lados. Foram registrados apenas entendimentos verbais.

A questão de Taiwan surge, neste momento, como o tópico mais sensível para os dois países. Tratando a questão na linguagem diplomática tradicional, a chancelaria chinesa comentou que “se for tratada adequadamente, a relação desfrutará de estabilidade geral”. Em seu discurso principal, Xi Jinping, contudo, fugiu das formas conhecidas de manifestações diplomáticas sutis, interpretadas e lidas nas entrelinhas, para fazer referência a um fato histórico ocorrido há mais de mil anos para deixar bem clara a determinação da China, potência emergente, em relação à potência dominante. Para surpresa geral, Xi Jinping, ao dizer publicamente a Trump que a questão de Taiwan como parte da China continental é “o assunto mais importante nas relações China-EUA”, assinalou que, “se essa questão for tratada adequadamente, a relação entre os dois países desfrutará de estabilidade geral, caso contrário, os dois países terão desentendimentos e até conflitos, colocando a relação em grande risco”.

Na diplomacia, nada acontece de graça. Enquanto Trump era saudado com pompa e circunstância, com uma delegação de presidentes de importantes empresas americanas (além de familiares) para fazer negócios, Xi mostrou que estava cuidadosamente preparado para reafirmar os principais interesses chineses. Para não deixar dúvidas sobre o que estava falando, o presidente chinês disse que a China e os EUA deveriam tomar cuidado com a armadilha de Tucídides e perguntou “se os dois países conseguirão superar essa armadilha e estabelecer um novo paradigma para as relações entre as duas grandes potências”.

Tucídides foi o grande historiador grego que descreveu a guerra do Peloponeso, resultado da disputa entre Atenas, potência dominante e Esparta, em ascensão, por hegemonia e área de influência nas ilhas da região. Em termos pouco diplomáticos, Xi Jinping ofereceu uma ameaça velada aos EUA sobre a ilha de Taiwan. Avisou que os EUA não deveriam arriscar uma guerra ao interferir na intenção da China de incorporar Taiwan, se necessário pela força. Na leitura de Xi, a China é a potência em ascensão e os EUA são a potência temerosa de ser ultrapassada. Surpreendentemente, Trump não reagiu publicamente a essa pouco diplomática ameaça, talvez por pressão dos CEOs das big techs interessados no mercado chinês.

Assim como os EUA na sua Estratégia de Segurança Nacional definiram a América Latina como sua prioridade e buscam afastar os países da região da China, Xi Jinping dá o troco colocando Taiwan e o mar do sul da China como sua prioridade e área de influência, avisando que não aceitará a interferência de Washington.

A ninguém, nesse momento, interessa uma escalada na confrontação entre os dois países. Não há indicação de que a China vá atacar de alguma forma Taiwan e a reação de Trump será conhecida quando decidir sobre a venda de armas a Taiwan. A estabilidade dessa relação bilateral é o que mais importa hoje.

Nos próximos dias e semanas, certamente haverá indicações de como evoluíram as conversas. Em relação a Taiwan, se os EUA continuarão ou não a manter a política de “ambiguidade estratégica”, como afirmou Marco Rubio. A questão é saber se os EUA reafirmarão a posição a favor da autonomia da ilha em relação à China ou vão se opor à independência taiwanesa. O mesmo ocorre com a venda de armas para a ilha. Aparentemente, a política de não conversar com a China sobre a venda de armamento, que vem desde 1986 com Ronald Reagan, foi revisada por Trump ao discutir o assunto nos encontros com o líder chinês. A concordância sobre a necessidade de abertura do Estreito de Ormuz e o encaminhamento de uma solução para a guerra contra o Irã vai ser testada pela decisão de Washington sobre os próximos passos, dado o interesse em manter a estabilidade estratégica. No tocante à questão nuclear iraniana, apesar das declarações de Washington de que teria havido acordo quanto à proibição do Irã de ter armas nucleares, dificilmente a China iria abandonar seu parceiro e principal fornecedor de petróleo. Quanto a negócios, a venda de 200 aviões da Boeing, soja e carne não foi confirmada pela China, nem foram anunciados negócios de big techs norte-americanas que estivessem na comitiva de Trump. No tocante a tarifas, segundo Trump, nada foi discutido, e na questão das terras raras houve referência superficial, segundo o secretário de comércio. Enquanto Trump saiu do encontro com promessas, mas sem nenhum ganho concreto, Xi deixou demarcada publicamente a linha vermelha de Taiwan como o fator decisivo que irá permitir competição, sem confrontação.

A cúpula mostrou o interesse dos dois governos em uma “estabilidade estratégica construtiva”, caracterizada por dependência mútua e ambivalências em várias frentes.

Publicado no jornal O Estado de S. Paulo/Opinião, em 26 05 2026



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