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![]() Acadêmico: José Renato Nalini Essa crônica precisa ser lida e ser objeto de meditação de parte daqueles que criticam as cotas, pois a chaga aberta pela escravidão que perdurou durante quase quatro séculos ainda não cicatrizou
A ferida aberta Ainda não cicatrizou a fenda sanguinolenta da escravidão. A imoralidade do comércio de humanos não era objeto de dúvida até o século XIX. Tanto que, para colonizar o Brasil no século XVI, Dom João III concedeu aos donatários, como regalia, o poder de “cativar os gentios que quisessem para o seu serviço e dos seus navios, e mandarem vender anualmente em Lisboa um certo número, livres da sisa que pagavam todos os outros”. Foi nessa época que Álvaro Gonçalves começou a incursionar pela Guiné, aprisionando os naturais, enquanto os colonizadores da Terra de Santa Cruz escravizavam os gentios, os primeiros habitantes deste território. A Inglaterra também foi escravagista. Mas abandonou em 1807 suas conveniências para aprovar a abolição do tráfico na Câmara dos Lordes. Deixa a sua condição anterior, que muito lucrou com o vil comércio, para se tornar paladina dos princípios humanitários. Tornou-se a advogada do negro. Esse turbilhão de ideias já fizera o Marquês de Pombal, por lei de 6 de junho de 1755, decretar a liberdade dos silvícolas e reprimir o tráfico africano para a metrópole. Porém, tolerou-o para as colônias, sob o argumento de que ele ainda era necessário para consolidar a ocupação. Com a independência, em 1822, a população negra era enorme e crescente. A Inglaterra impôs, como condição ao reconhecimento de nossa autonomia, a abolição do tráfico africano. O convênio foi assinado em 1826, impugnado pelo Parlamento em 1827, mas em 7.11.1831, o Regente Padre Antonio Diogo Feijó, então ministro da Justiça, referendou o decreto. Já se mostrava então que o Brasil era a nação em que há “leis que pegam” e “leis que não pegam”. Essa norma não pegou. Os traficantes prosseguiram e intensificaram a indústria da escravatura. Entre 1830 e 1832, mais de seiscentos mil africanos cruzaram os oceanos, naquelas condições miseráveis então ofertadas à carga semovente. O Parlamento já se mostrava protetor das causas discutíveis. Em 1837, um artigo de projeto no Senado, que os abolicionistas chamaram “artigo monstro”, propunha indulto completo para os traficantes, “amigos da economia brasileira”. A Inglaterra apertou o cerco, mas de forma ambígua. Muitos cidadãos britânicos atuavam na África, servindo-se de bandeiras estrangeiras para capturar e vender escravos. Em 1850, a Lei Eusébio de Queiroz estipulou que a importação de escravos seria considerada pirataria e severamente punida. Continuou o tráfico, o que levou Gladstone, na Câmara dos Comuns, a clamar que o acordo era incessantemente transgredido. A Inglaterra tinha o direito absoluto a exigir sua execução e, se não atendida, a obtê-la à ponta de espada. O cativeiro tupiniquim foi uma fábrica de horrores. Pense-se no tormento dos escravizados, desde o dia em que eram caçados, separados de seus entes queridos, aprisionados pelos traficantes e jogados em navios imundos e fétidos. Depois de longa viagem, durante a qual muitos sucumbiam, eram submetidos à fome, à sede, ao calor, ao ar viciado. Muitos desses infelizes obtinham a alforria com a morte e o mar era a sua sepultura. Chegavam esqueléticos e com malária. Os que resistiam ficavam nas calçadas à espera dos interessados em adquiri-los. Ali defecavam, vomitavam, num espetáculo de insuportável horror. E o negócio era rendoso, pois o governo da metrópole cobrava por cabeça e ficavam ricos os contratadores dos escravos. Estes vinham de toda a costa da Mina, ilhas do Príncipe, São Tomé, Gâmbia, Benim, todos os portos de Jaquém a Judá, Angola, Congo, Luanda e Benguela. Ainda hoje, costumamos nos referir genericamente à África, sem distinguir suas etnias, suas nações, suas culturas e as profundas distinções entre seus inúmeros povos. Ainda não se escreveu o suficientemente sobre os cruéis castigos infligidos nas roças e fazendas, por ordem do feitor. O suplício de bofetadas e sovas com cintos ou arreios para alimárias era comum. O impressionante é que as próprias mulheres não se abstinham de aplicar tais escarmentos em seus escravos domésticos, de ambos os sexos... E ensinavam a prole a proceder de igual forma. Essa crônica precisa ser lida e ser objeto de meditação de parte daqueles que criticam as cotas, pois a chaga aberta pela escravidão que perdurou durante quase quatro séculos ainda não cicatrizou. É nossa responsabilidade pensá-la, atenuá-la e, se for possível, restaurar o tecido humanitário tão lesado durante tanto tempo. Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 18 05 2026 voltar
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