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![]() Acadêmico: José Renato Nalini Talvez devêssemos relevar e raciocinar à luz da lei de Lavoisier: neste mundo que nos foi dado viver, nada se cria, tudo se transforma
Quem é original? Somos o resultado de infinitas experiências, sensações, assimilações e operações do metabolismo cerebral de tudo o que apreendemos. A volúpia do ineditismo e da originalidade coloca sob suspeita uma obra que se inspirou em outra, por sua vez elaborada a partir de impressões sugeridas por várias produções anteriores. Na área acadêmica, perde-se muito tempo na verificação de eventual plágio, o que hoje é rapidamente detectado pela IA - Inteligência Artificial. Talvez devêssemos relevar e raciocinar à luz da lei de Lavoisier: neste mundo que nos foi dado viver, nada se cria, tudo se transforma. Se isso acontece em muitas áreas, o fenômeno é ainda mais comum no universo musical. Celebridades já enfrentaram acusações de plágio, como Bob Dylan, com sua famosa “Blowin’in the Wind”. Ele se ressentiu da suspeita e chegou a responder, com um dos seus “onze outlined epitáfios”: “Sim, sou um ladrão de pensamentos, não um ladrão de almas, espero. Construí e reconstruí sobre o que está à espera, pois a areia nas praias constrói muitos castelos sobre o que foi aberto antes do meu tempo. Uma palavra, uma melodia, uma história, um verso, chaves no vento para abrir a minha mente e garantir o ar do quintal a minhas ideias trancadas”. Um redemoinho de boatos acompanhou a carreira do jovem americano de Hibbing, no Minnesotta, que se tornou uma verdadeira lenda. O início de sua jornada de sucessos não foi muito diferente daquela trajetória enfrentada por outros milhares de jovens que nasceram naquela nação forjada à luz da democracia e que tinham orgulho imenso de suas tradições. A profusa multiplicação de canções de base folk, tantas delas de evidente similitude melódica, não gerou, para aqueles que tiveram pouco reconhecimento e que restaram no anonimato, a fama de cleptomaníacos musicais. Só repercutiu em relação aos extraordinariamente famosos. Mencione-se o exemplo de Paul Simon, cuja “Bridge Over Troubled Water” ecoa a melodia gospel negra “Don’t Trouble the Water”, que Aretha Franklin e Roberta Flack cantaram quando crianças. E isso não é novidade no vasto campo da produção intelectual. Shakespeare, Stravinsky, Picasso, eram mestres em empréstimos. Adaptar um material antigo é tão antigo e normal quanto as próprias música e poesia. Quanto mais entranhada na consciência popular uma canção, mais ela servirá de inspiração para novos compositores. O setor folk é, por essência, aquele que mais se propaga na consciência popular. Sua música impregna a mente, da infância à senectude. O etnomusicólogo Charles Seeger explicou o processo de elaboração da música folclórica: “Apropriação consciente e inconsciente, empréstimos, adaptações, plágios e puro e simples roubo sempre foram inseparáveis do processo de criação artística. A tentação de se fazer sentido das leis de copyright encontra seu limite na canção folk. Pois nela está a ilustração, por excelência, da Lei do Plágio. A canção folk é, por definição, e até onde sabemos, na realidade, inteiramente um produto do plágio”. Parte considerável da obra de Villa Lobos não foi baseada em cantos populares cuja autoria se perdeu na noite dos tempos? Alguém o acusaria de ser plagiador? A execução de uma partitura por distintos intérpretes não acrescenta algo de original à mesma música? O maior intérprete de Bach, o hoje Maestro João Carlos Martins, executa o cardápio bachiano da mesma forma que o seu irmão José Eduardo Martins? Cada qual com seu estilo. Bob Dylan, que mereceu um Nobel de Literatura - glória que o Brasil ainda não mereceu, nada obstante a Rainha Silvia se considere brasileira - viu a sua “Blowin’in the Wind” convertida em hino universal dos direitos civis. Peter, Paul & Mary também a cantaram e mais de outras sessenta versões foram gravadas por Duke Ellington, Lena Horne, Marlene Dietrich, Spike Jones, Percy Faith, Trini Lopez e Stevie Wonder. Durante bem mais do que um ano, as nuvens de boatos e a poeira das suspeitas assentaram uma ferrugem cinzenta sobre os triunfos de Dylan. Isso ainda acontece em várias das manifestações de criatividade não só na música. Algo a ser meditado pelos ferrenhos defensores de direitos autorais, até fanáticos na preservação da identidade do criador, numa era em que tudo é divulgado, disseminado, digerido e descartado com a velocidade da luz. Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 27 04 2026 voltar
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