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![]() Acadêmico: José Renato Nalini Antes de nos preocuparmos com a vida em outras galáxias, cuidemos de nossa casa. A nossa única casa. Não há ponto de fuga, nem alternativa. Se conspurcarmos ainda mais a Terra, acabaremos sem água e sem oxigênio. Você imagina sobreviver sem esses dois elementos essenciais e imprescindíveis à continuidade da vida?
Antes cuidar daqui A humanidade sempre foi curiosa quanto a saber se ela só existe aqui, neste planeta Terra, ou haveria outros mundos espalhados pelo cosmos. Muita imaginação, muita divagação, muito já se escreveu a respeito. A ficção seduz quem parece não encontrar suficiente encantamento para se maravilhar com o que se tem. Adam Frank, professor da Universidade de Rochester, nos EUA, é um dos astrofísicos que acreditam no sucesso das investigações extraterrestres. Para ele, os indícios de vida inteligente em outros planetas, pode estar a apenas algumas décadas de encontrar respostas. Ele coordena pesquisas para mapear as “tecnoassinaturas” no Uni verso. Para ele, a pergunta “há vida fora do planeta Terra?” é uma indagação que perdura por mais de dois milênios e meio. Os gregos antigos já discutiam isso. O que ele considera extraordinário é que a atual geração ainda estará viva quando as respostas vierem. Conta que a “revolução dos exoplanetas” começou em 1995, ano da descoberta de que há muitos planetas em órbita de outras estrelas, muitas delas bem mais potentes do que o nosso Sol. Já que é impossível fotografar tais planetas, pois muito distanciados, os estudos se fazem mediante análise da luz, que traz uma espécie de “impressão digital” dos elementos químicos presentes nesses astros. Descobre-se do que a atmosfera é feita e detectam-se substâncias que só poderiam estar lá se houvesse vida. Não é difícil descobrir bioassinaturas, rastros de uma biosfera como florestas ou plânctons. Assim como podem surgir “tecnoassinaturas”, prova de existência de uma vida tecnológica inteligente, muito longe de nós. Ele se preocupa com o retrocesso da atual geopolítica norte-americana. Suspender o financiamento de pesquisas é o que ele chama de “tiro no pé”. A vanguarda está justamente com as nações que apoiam a ciência. Os governos – e a sociedade civil, principalmente – precisam convencer a juventude de que investir em astronomia gera consequências práticas e econômicas insuspeitas. Foi assim que surgiu a internet, que mudou a nossa vida. Juntamente com Marcelo Gleiser e com o filósofo Evan Thompson, Adam Frank escreveu o livro “O Ponto Cego”. Os três criticam o abandono da experiência humana que persiste na pesquisa pura. Um exemplo é a IA – Inteligência Artificial, imposta por interesses econômicos das Big Techs, mais poderosas do que a soma de muitos Estados. Para Adam, é pura fantasia acreditar que superinteligências substituiriam os humanos. “Essas máquinas são réplicas medíocres, não chegam nem perto de nós. Mas como bilionários estão empurrando essas tecnologias goela abaixo, sem estarem devidamente testadas, acabaremos nos rebaixando ao nível delas”. É instigante o raciocínio de Adam: “O risco não é a IA subir acima de nós, mas sermos forçados a descer ao nível raso e “menos que humano” delas, tornando nossa experiência de mundo muito mais plana e pobre”. É a sociedade humana que deve decidir que tipo de tecnologia quer, em vez de aceitá-la porque alguém quer lucrar. É importante lembrar que a espécie humana é apenas um elo nessa cadeia existencial em que todos dependem de todos. Os humanos são inseparáveis do Universo. Não somos “átomos vazios colidindo no vácuo”. Vida e biosfera são centrais. E aqui entra a preocupação que todos os racionais devem ter em relação ao futuro da Terra. “Sabemos há décadas que estamos empurrando a Terra para um novo estado climático. Provavelmente ultrapassaremos o limite de 1,5º. Algo está errado. Como civilização, sabemos do problema, mas não agimos. Isso revela algo disfuncional na história que contamos a nós mesmos. Quando falamos de clima, falamos da física de um planeta. Planetas têm regras: se você extrai muita energia para construir uma civilização, haverá uma reação. O planeta responderá a esse uso de energia mudando o clima”. Assim também acontece quando desmatamos, tirando a ferramenta que sequestra gás carbônico e devolve oxigênio. Ou quando transformamos nossas cidades em depósitos de lixo imundo, que não sabemos destinar corretamente, seja para a compostagem, fertilizantes ou fabricação de gás biometano, caso dos resíduos orgânicos e os resíduos secos, que devem ser reaproveitados na reciclagem. Somos pródigos em produzir leis, mas miseráveis ao cumpri-las. Onde está o cumprimento da lei da logística reversa? A economia circular existe apenas no discurso? Por isso, antes de nos preocuparmos com a vida em outras galáxias, cuidemos de nossa casa. A nossa única casa. Não há ponto de fuga, nem alternativa. Se conspurcarmos ainda mais a Terra, acabaremos sem água e sem oxigênio. Você imagina sobreviver sem esses dois elementos essenciais e imprescindíveis à continuidade da vida? Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 26 03 2026 voltar
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