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![]() Acadêmico: José de Souza Martins O caso da família Peixoto Gomide é excessivamente peculiar para que as peculiaridades não sejam consideradas. Mais do que feminicídio, é uma tragédia.
Feminicídio e tragédia Nos últimos dias, disseminou-se a notícia de que está em andamento, na Câmara Municipal de São Paulo, projeto de lei que muda o nome da Rua Peixoto Gomide para Rua Sofia Gomide. É uma rua na região da Avenida Paulista. A motivação da proposta é a de que Sofia teria sido vítima de feminicídio, morta pelo pai com um tiro, em 1906. Em 1914, o nome da rua foi confirmado em lei, mas já era esse em 1897, quando a região fora loteada. O crime ocorreu bem depois de a rua já ter esse nome nem o nome lhe foi dado como se fosse homenagem ao autor do crime ou entendimento da irrelevância do crime cometido. A movimentação em torno desse caso, na formação de opinião a respeito mas também na sua difusão na mídia e nas redes, indica um fenômeno de interesse sociológico que é o dos casos em que o conceito do crime gera a versão fantasiosa do crime acontecido e se multiplica. Isso tem acontecido com os “conceitos” de linchamento e de racismo. Nos pouco mais de dois mil casos de linchamentos e tentativas no Brasil, que estudei em detalhe, cobrindo um período de cerca de 50 anos, a notícia do ocorrido era reproduzida enquanto tivesse aparência de atualidade, com um padrão compacto. De modo a transformá-la em narrativa diversa da ocorrência, reduzida a poucas linhas dirigidas diretamente ao imaginário do provável leitor. O trágico restrito ao dramático e, nos casos mais violentos, ao espantoso, a uma curiosidade sobre anomalias de comportamento “deles”, tão perto de nós, mas não o “nosso”. A sociedade brasileira está passando por um notório processo de desconstrução e de fragmentação. Nos casos de acusações de racismo, embora frequentemente o seja, é sociologicamente significativo que sua visibilidade se dê como parte de um movimento social identitário em que o número dos vitimáveis amplia significativamente o número de reais vítimas. Somam-se a elas quem não o foi como se já fosse quem “ainda não é” por sê-lo potencialmente. O que é uma virtualidade acentuadamente provável. Mas não é real. Indício de que a sociedade vem desenvolvendo uma consciência social de antecipação das injustiças como forma de combatê-las quando ainda não são porque neutralizada a repressão policial e política quando são. O caso de Peixoto Gomide se situa claramente nesse movimento social oculto que amplia a vitimação das mulheres para combatê-la. É uma estratégia social mais do que compreensível na medida que a sociedade brasileira tem demonstrado pouca ou nenhuma prontidão para enfrentar, combater e punir o que é propriamente a violência feminicida. Diferente da criminalidade comum que “vem de fora”, ela vem, como já se sabe à saciedade, de dentro dos grupos e instituições de referência das mulheres vitimadas. Mas o conceito de feminicídio frequentemente recorta o acontecimento livrando-o da trama de relações sociais em que se situa e de cuja crise característica é expressão. Se o crime ocorre dentro de casa, talvez ficasse mais claro se o autor fosse considerado não apenas criminoso, mas protagonista de um crime em que a família é vítima. Isso ocorre porque nossas leis não são sociológica e antropologicamente atuais. Fica difícil e quase inócuo combater esses tipos de crimes se seus fatores e causas não são identificados corretamente. O caso da família Peixoto Gomide é excessivamente peculiar para que as peculiaridades não sejam consideradas. Mais do que feminicídio, é uma tragédia. Nos recortes redutivos e refabricados pelo noticiário, omite-se o principal: a causa. Tudo aconteceu na tarde de um domingo, num casarão da rua Benjamin Constant. Uma das filhas de Peixoto Gomide, Sofia, pediu para conversar com o pai. Gomide era protetor de um jovem mulato, filho de uma antiga escrava, chamado Batista Cepelos, que frequentava sua casa como se fosse um parente. Amigo de suas filhas. Gomide o animara e apoiara a estudar, a fazer a Faculdade de Direito e se tornar promotor público. Sofia disse-lhe que ela e Cepelos estavam apaixonados e gostariam de noivar e casar. O pai se retirou para o quarto e chamou a filha. Tirou um revólver de uma gaveta e a matou. Matando-se em seguida com a mesma arma. Peixoto Gomide era pai de Batista Cepelos com uma antiga escravizada. Diante da desgraça de um casamento incestuoso e socialmente impossível, ele escolheu, em vez de falar a verdade, assassinar a filha e cometer suicídio. Batista Cepelos mudou para o Rio. Morreu nove anos depois da tragédia da rua Benjamin Constant. Caiu de um penhasco ou dele se atirou no bairro do Catete. “Ele tinha na fronte a palidez da morte...”, dizia o último verso de um de seus sonetos Publicado em Eu& Cultura (Valor), An0 25, Nº 1.306, Sexta-feira, 20 de março de 2026, p. 4 voltar
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