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UM SOLITÁRIO NARRADOR
Acadêmico: Gabriel Chalita
Ouço vozes. Vozes de medo.O desconhecido amanhã, quando estou desprevenido, vem. Vem sem vir. Vem sofrido.

Um solitário narrador

Ouço vozes. Vozes de medo. O desconhecido amanhã, quando estou desprevenido, vem.
Vem sem vir. Vem sofrido. 

Sofro pelo que não sei. Pelo que não sei se será. Solitário que sou. Fico desfazendo em mim o que não é perfeito, ignorando que o perfeito é céu que não se atinge. E eu estou na Terra. E no ar. Porque os pensamentos voam pelo cantos onde eu não deveria cantar. Não sou cantor. 

Conheci um amor. Queria apresentar a esse amor um texto. Um texto que não compus. Um poema que não escrevi. Não poderia escrever. Não sou poeta. Sofro por não ter conhecido antes a palavra, a poesia e as fragilidades que me fazem querer um outro que não me quer. 

Ele tinha tudo e nada. Tinha um dinheiro incontável e um incontável vazio. E garrafas também vazias. Bebia a vontade de desaparecer. Apareci para evitar. Ninguém é capaz de evitar o desaparecimento do outro. Sou um solitário narrador. Ouço vozes, sim. Todos ouvem. Um pensamento de amor é um canto doído e ventoso, quando o amor é só nosso. 

Tentei dizer a ele a leveza da paz dos que se sabem sinceros. Suspendi as suspeitas mais de uma vez. Ofereci um ofício que nem sei, o de curar destinos. Desacredito dos destinos. 

Sempre fui um fazedor de belezas. Um colecionador de instantes. Ria o rio sem testemunhas. Olhava a dança das nuvens e dançava imaginando. Limpo de outros pensamentos. Cultivava os afetos como quem cultiva jardins que brotam e que perfumam a vida. O desamor tem desacelerado a disposição para o simples. Prefiro o trancado. Não sei se 'prefiro' é a palavra. 

Antes de encontrar, não buscava o encontro. Encontrei. Foram poucos encontros. Intensos. E, então, o fim. E uma saudade que me faz saudade os sorrisos de infância. Os que já nem vivem mais.  Os cômodos já desmanchados para outras construções. É como se eu não estivesse construído ainda para aguentar rachaduras. 

Saudade do tempo em que a despreocupação não fazia vergonha. Uma flor. Muitas flores. Um banho frio de cachoeira e um banho quente dentro de casa. 

Dentro da casa de dentro de mim, hoje, tem dor. Medo de nunca mais amar. Medo do amanhã sem uma história. Durou tão pouco a história. Eu já tinha história antes. Antes do encontro. Por que não lembrar?

Desacredito de destino, já disse. Sou da liberdade. Sou dos que acreditam que a palavra e o sentimento nos fazem caminhos. Sou caminhante. Então, por que a saudade? Porque a saudade é, também, ciranda na dança da liberdade. 

A saudade é reservatório de amor para reconstruir habitações bagunçadas pelo vento. O tal amor foi apenas um vento. Será que foi amor?

Saudade do pequeno pedaço de bolo que minha mãe guardava quando eu não estava. Se ela ainda estivesse...Colo de mãe é descanso de pensamento. Pensamento é, também, liberdade. Quando limpo. 

Um vento de infância soprou agora o pensamento. Trouxe algum alívio. Algumas vozes de amor. Para enfrentar o desamor de hoje. A ausência e até a teimosia. Para fazer lembrar que amanhece. E, então, eu ouvirei outras vozes. E voltarei a colecionar os carinhos que o dia oferece. E até a agradecer a dor por acordar momentos de aconchegos que moram em mim. Como fazia o meu pai que lembrava uma oração bonita dizendo que "tudo passa".

Publicado em O Dia, em 08 03 2026



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