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A MESA DE REFEIÇÕES É UM SÍTIO ARQUEOLÓGICO
Acadêmico: José de Souza Martins
Nas diferenças do que comer e beber e dos modos de fazê-lo há culturas que remontam a tempos antigos

A mesa de refeições é um sítio arqueológico

Vamos à mesa para comer. No entanto a mesa é, de certo modo, um sítio arqueológico. Nas diferenças do que comer e beber e dos modos de fazê-lo há
culturas que remontam a tempos antigos.

Começo pelos líquidos. A água mineral de São Lourenço (MG), é água de chuvas que caíram na Serra da Mantiqueira há mais de dez mil anos. Minha filha,
geóloga, especialista em águas, me explica que as águas de diferentes chuvas podem ser datadas.

Um dia, à mesa, nas letras miúdas da lata do refrigerante Fanta, vi que é ele produzido pela Coca-Cola. Estranhei e fui verificar a história do produto. É de origem alemã, de antes da II Guerra Mundial.
Entrou no inventário de compensações de guerra que os EUA receberam da Alemanha derrotada. Os
acertos da guerra estavam sobre minha mesa de almoço.

Em 1983, professor-visitante da Universidade da Flórida, nos EUA, ouvi uma conferência do Professor Sidney Mintz. O título era “A pausa que refresca”,
célebre slogan da Coca-Cola. Mintz era especializado em antropologia da alimentação e célebre autor de um estudo sobre “A doçura e o poder: o lugar do
açúcar na História Moderna”.

Na conferência de Gainesville fez referência à inovação da Coca-cola, de vender a bebida com sanduíches e frutas nas máquinas que se disseminaram por lugares públicos. Isso mudou a cultura alimentar americana, progressivamente eliminando a importância do almoço doméstico. O que mudou costumes de família e a função social da mulher, libertando-a de uma parte das tarefas
domésticas.

O refrigerante, originalmente remédio vendido em farmácia, acabou ganhando inesperada popularidade, em decorrência da lei-seca, como estimulante não-pecaminoso. Facilmente acolhida em todos os cantos, a ponto de que, nos países em que foi proibida, a Coca ganhou sucedâneos ou falsificações que deram mais ou menos certo.

Sem restrições no Brasil, encontrou resistências no Maranhão. Ali, em 1927, fora criado um tônico medicinal com o nome de Guaraná Jesus, pelo farmacêutico Jesus Norberto Gomes. Tem sabor de cravo e canela. Lembra um
chá frio feito para crianças, em casa, em tempos de antigamente. A Coca acabou decidindo comprar a fórmula, a fábrica e o nome. E encerrou a produção,
oferecendo a Coca no lugar. Não deu certo.

A Coca decidiu, então, voltar a produzir o guaraná Jesus. Eu estava em São Luís quando isso aconteceu. Num modesto bar do centro, vi um maravilhoso pôster, artisticamente produzido, com uma foto da garrafa do Guaraná Jesus e este anúncio triunfal e messiânico: “Jesus voltou!”

Num longo documentário paulista de 1929, “São Paulo, o triunfo da metrópole”, num certo momento vê-se, de passagem, numa placa à porta de um restaurante, esta informação: “Hoje, Virado à Paulista”. Ainda em nossos dias, em restaurantes populares de São Paulo, toda segunda-feira é dia de virado à paulista. Comemos história social.

O prato tradicional reúne comidas de duas origens do período colonial. O feijão com farinha de milho, feita no monjolo de beira-rio, torrada no tacho, alimento dos índios administrados, os servos, libertados em 1757. Livres, vieram a ser os caipiras, moradores de favor, quando com a expansão da economia do açúcar, no século XVIII, o trabalho do eito era feito por escravos de origem africana.

Caipiras que, por sua conta, agregaram ao prato do cativeiro, verdura e carnes da liberdade limitada de sua própria produção em terra alheia, como os
torresmos.

É difícil não lembrar do pato no tucupi, derivado de uma herança indígena que deve, em tempos remotíssimos, ter custado muitas vidas até que se conseguisse descobrir como eliminar do caldo da mandioca brava o veneno que ele contém. Posta para pubar durante dias em água corrente, a mandioca é ralada, a massa posta no tipiti para ser espremida e separar o sumo venenoso da farinha a ser torrada. É com o caldo fermentado e cozido que se faz o prato regional saboroso, ao qual se agrega o jambu, uma planta amazônica que produz uma
sensação de dormência na boca de quem está comendo.

Pode-se falar na feijoada, uma comida residual da escravidão. Encontrei documentos do período colonial que de certo modo confirmam a tradição de que
seus ingredientes são as sobras das carnes da refeição dos senhores de escravos. O senhor consumia apenas o lombo do porco. Orelhas, patas, focinho iam para os escravos que os cozinhavam com o feijão. Nesses tempos, o arroz era raro. Na minha família caipira, o arroz era comido com o feijão no domingo, como “mistura”, nome que também se dava à carne.

Comida de senhor de escravos na Colônia era remédio de escravo doente e de escrava parida nos dias de resguardo. Bebida, em vez de cachaça, aguardente
do reino.

Publicado em Eu& Cultura (Valor), An0 25, Nº 1.300, Sexta-feira, 06 de fevereiro de 2026, p. 4




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