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UM DIA LIMPO
Acadêmico: Gabriel Chalita
As duas suavidades: a natureza e a arte, que me expandem, oferecem um mundo que, apesar das durezas, é lindo.

Um dia limpo

Há dias em que ruminam em mim arrependimentos passados e medos futuros. 

Ruminar é um verbo que não deveria se aplicar aos humanos. Os humanos deveriam mastigar e se ver livres do objeto mastigado. E seguir adiante. 
Por que rumino, então? Porque, talvez, tenha dificuldade em seguir adiante. Olho para o passado e desejo um reviver não possível. Uma conjunção que, no passado, indica um não passado. 

Se eu tivesse tido mais tempo para amar. Se eu tivesse errado menos com um amor que se foi, talvez ele não tivesse ido. Se eu tivesse insistido em permanecer... Nada permanece. E nada volta a ser o que, um dia, foi. E, se tivesse sido, como saber se teria sido bom. 

Em muitas histórias de amor de antigamente, quando as personagens superavam as adversidades típicas das tramas, o enredo trazia "e foram felizes para sempre". Nas histórias que acabam, talvez. Nas que prosseguem, quem sabe?!

Quem sabe se eu tivesse aceitado tal emprego? Quem sabe se eu tivesse desistido antes do que trouxe tanta dor? Quem sabe se eu tivesse aprendido com a dor?

Os excessos de "se" só servem à ruminação. E, assim, o futuro. O medo do que ainda não é. E volta o "se". Se eu ficar doente. Se eu não tiver o dinheiro suficiente. Se o meu amor partir. Se quem eu amo morrer antes de mim. 

Os futuros habitam o presente, assim como o passado. Não há como dizer que partam.
O presente, entretanto, precisa exercer o seu senhorio. 

Acordei, hoje, com esses pensamentos.Pensamentos pensados com amor afugentam as ruminações. Vez em quando, elas voltam. Se eu tivesse respondido a ele o que ele merecia ouvir, eu estaria tranquilo. Eu não pensaria tanto. Nesse caso, não é pensar, é ruminar. E a tranquilidade não vem do que eu disse ou deixei de dizer. Vem do sono bonito de uma noite sem ruminações. 

Posso até, antes do despedir do dia, lembrar o que no dia me fez mais ou menos humano. Lembrar dos erros para errar menos. Lembrar dos acertos para celebrar, para agradecer. E, então, acordar com o acordo de viver um dia limpo. 

Na limpeza do dia, duas suavidades me expandem. A natureza e a arte. Sou do interior, das caminhadas pelo cheiro de mato, do contemplar da montanha, do sentar à margem do rio que passa. Do tomar banho de cachoeira. Do ter as noites com as estrelas enfeitando o céu. Do interior ia ao mar. No carro da família. Com comidas para comermos no caminho. Na serra, as delicias se avistando. O mar.

Como não viver o encantamento de vencer as ondas e nadar nas águas que nos abraçavam crianças? Quando ainda hoje entro no mar, entram comigo essas lembranças. 

Na arte, aprendi cedo. Nas aulas de piano de uma senhora que, na minha cidade, se emocionava com as músicas que ensinava. E nos contava do autor, da intenção, das dores feitas acordes. Acordei, muitas vezes, ouvindo a sonoridade das músicas que aprendia. E, depois, o coral. E a banda municipal e os sons andando pela cidade. 

A vida foi me oferecendo oportunidades de ver e de viver a arte. Em salas de espetáculos. Em concertos. Em peças de teatro cuja vida do artista dava vida a sentimentos que nos elevavam. E, também, na leitura de romances e poemas. Nas conversas com os que dedicam a vida a enfeitar o mundo com pinturas e palavras e esculturas e composições e danças e fotografias e tantas outras manifestações em que o belo sai de dentro de quem faz e permanece no mundo para entrar no mundo de quem vê, de quem sente, de quem se eleva com a arte. 

As duas suavidades: a natureza e a arte, que me expandem, oferecem um mundo que, apesar das durezas, é lindo. Então, o passado é libertador e não ruminante.

Enquanto escrevo, as imagens do que vivi estão aqui. Enquanto escrevo, sonho que, no futuro, quando lerem esses escritos, se lembrem dessas suavidades. 
Em qualquer canto, há uma natureza para ser cantada, para ser contada. Em qualquer canto, há um cantador ou um contador de histórias fazendo arte, como pode, para que o dia seja limpo, para que o sorriso encontre razão de estar na obra de arte excelsa que é a natureza humana. 

Um dia limpo é o que precisamos para viver sem ruminações, é o que precisamos para viver.

Publicado em O Dia, em 30 11 2025



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