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QUEM NÃO SABE DANÇAR, DANÇA!
Acadêmico: José Renato Nalini
Ainda hoje, o candidato se vê na obrigação de percorrer rincões e de se adaptar aos costumes locais. Assim, Taunay foi parar numa festa de arraial de uma fazenda, bem no interior das Alagoas

Quem não sabe dançar, dança!

Vale tudo quando se cuida de buscar voto. Isso, no Brasil de nomeações não necessariamente democráticas, teve início ao tempo da Lei Saraiva, que estabeleceu a eleição direta na última década do Império.

Nessa época, Alfredo d’Escragnolle Taunay vivenciou pitoresca aventura sertaneja, da qual resultou conquistar alguns votos em sua campanha de candidato ao Parlamento, não porque já fosse escritor consagrado. Mas porque sabia dançar polca.

Ele sabia, como Disraeli, que não é fácil conquistar a adesão do eleitor. Disraeli afirmou: “Tenho ouvido muitos discursos na minha vid. Alguns conseguiram mudar a minha opinião. Nenhum mudou o meu voto”. Pois voto e opinião nem sempre coincidem.

Ainda hoje, o candidato se vê na obrigação de percorrer rincões e de se adaptar aos costumes locais. Assim, Taunay foi parar numa festa de arraial de uma fazenda, bem no interior das Alagoas. Embora o chefe político fosse o Coronel, proprietário daquelas terras, que mandava mesmo era a mulher dele.

Foi ela quem se acercou de Taunay:

- “Doutor, o senhor certamente há de saber a polca, uma dança nova lá da Corte. Por que não a ensina à minha filha?”.

Taunay estava extenuado. Cansado da jornada a cavalo e de engolir poeira que nunca enfrentava na Corte. Mas o interesse do candidato era maior do que sua fadiga física. Ei-lo no meio do salão, arvorado em professor de dança. Ensinou um passo aqui, outro ali, solícito e gentil, enquanto sua parceira, pesada e desengonçada senhorita, procurava acompanhá-lo, a suar em bicas e a resfolegar.

Quando já não podia mais senão se sentar e respirar, ele também inteiramente molhado de suor, vem a dona da casa:

- “Muito bom! O senhor tem talento como professor de dança. Só que houve um engano: em vez de dançar com a minha filha, o doutor dançou com a minha sobrinha!”.

Mais do que depressa, o candidato se atirou à outra moça. Esta, muito ofendida, retraiu-se e declarou, peremptoriamente, que com ele não dançava.

- “Mas por quê?”

- “Porque não sirvo para resto...”

E não houve conversa que a demovesse da recusa. Taunay, muito aflito, volveu o olhar suplicante para a mãe da jovem. E a senhora, um tanto envaidecida:

- “É muito geniosa esta minha filha. Só eu é que posso com ela. Se ela perceber que a mãe aprende a dançar polca, mudará de ideia e aprenderá também”.

Com isso, Taunay teve de ensinar polca à matrona e, em seguida, à filhota. No final da noite, estava quebrado.

Valeu a pena. A mulher do Coronel terminou por dizer:

- “Gostei do senhor. Não leve a mal o que se passou. Tudo tem remédio”.

O remédio foi convencer o marido e os que o acompanhavam, a votarem no Visconde nas eleições à deputação provincial daquele ano. Esses votos foram preciosos e o ajudaram a se eleger. Porém, e se o escritor não soubesse dançar a polca?

Para convencer o eleitorado, é preciso ser eclético.

Não se pense que Taunay era um homem vazio e fútil. Quando convidado a escrever para o jornal “A Liberdade”, pela primeira vez que entrou na redação, ouviu de Carlos Laet: - “Espero que o senhor tenha deixado lá fora, com o seu chapéu, as ideias incompatíveis com os nossos intuitos”.

Taunay, rapidamente, fez meia volta no sentido da rua:

- “Não entro onde não entram minhas ideias!”.

Além de saber polca, era um homem de princípios. Coisa bem incomum em nossos dias.

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 02 04 2025



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