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À ESPERA DO TEMPO
Acadêmico: José Renato Nalini
A proximidade do Natal propicia temporário abrandamento da rigidez com que o ser humano encara não raro o seu semelhante.

À espera do tempo

A proximidade do Natal propicia temporário abrandamento da rigidez com que o ser humano encara não raro o seu semelhante. O julgamento do próximo nem sempre é magnânimo ou compreensivo. Examina-se com exagerado rigor a falha alheia e com tolerância máxima o defeito próprio.

Quando se reflete a respeito de Alguém que nasceu para redimir a criatura racional, que assumiu a humanidade e sua carga de vicissitudes, aceitou a morte na cruz e deixou o legado maior da verdadeira fraternidade, parece ocorrer uma reconfortante pausa na guerra permanente - nem sempre oculta - de todos contra todos.

Por isso é de se receber com esperança um livro como "À espera do tempo", do jusfilósofo e polímata Ives Gandra da Silva Martins. São setenta e cinco sonetos para o amor de sua vida, Ruth Vidal Silva Martins, falecida aos vinte e seis de janeiro de dois mil e vinte e um.

A história de profunda afeição entre Ruth e Ives já mereceu outras obras, como "O Livro de Ruth", mas é emocionante verificar que a separação física não afetou um sentimento de que o mundo necessita cada vez mais e continua a motivar a produção poética de um pensador que não deixou de participar - com fervor e determinação - da discussão a respeito dos destinos de sua Pátria.

O primeiro soneto é de trinta de maio de dois mil e vinte e um e o derradeiro, data do dia do professor de dois mil e vinte e dois. Em todos eles, a convicção de um reencontro futuro, na verdadeira e eterna morada. Um testemunho para a inconstância de tantos casamentos que se desfazem como se não houvesse destroço numa ruptura de compromisso assumido "até que a morte os separe". Mas um atestado eloquente de fé inquebrantável, que sofre com a morte física, mas confia na promessa de eternidade.

Não são frequentes os exemplos de crença autêntica na transcendência, que ampara a fragilidade nos momentos de dor pela perda de um ente amado e alavanca a certeza de um reatamento no amanhã. O amor mais forte do que a morte. A relativização desta ocorrência inevitável, a mais democrática dentre todas as que podem incidir sobre os viventes, é consequência salutar. Quando se pensa sobre a morte, quando se a aceita como irresistível e inelutável, passa-se a valorizar esta preciosa dádiva que é a vida. Sopro vulnerável e efêmero. Durante o qual se costuma exercitar uma cornucópia de inutilidades, de superficialidades, de leviandades, que nos podem fazer chegar ao etéreo sem obras e sem mérito.

Os sonetos de Ives Gandra da Silva Martins revitalizam o dualismo, a considerar corpo e alma como idêntica realidade, sob dois aspectos. Entre essas duas entidades existe uma harmonia pré-estabelecida: tudo é regulado por Deus, sob a forma de uma pré-regulação. À série dos acontecimentos do espírito corresponde a série dos acontecimentos do corpo.

O peregrinar de Ives Gandra da Silva Martins e da família que constituiu com Ruth é também um ensinamento de coerência. Vive-se aquilo em que se crê. A robustez de tal devoção gerou o modelo de serenidade suficiente para vivenciar o afastamento da mulher amada com resignação e vontade de produzir belos sonetos. A serenidade que Norberto Bobbio escolheu como a sua virtude: "Tive alguma incerteza apenas entre 'serenidade' e 'mansuetude'. Escolhi, enfim, 'serenidade', por duas razões. No versículo das bem-aventuranças (Mateus, 5,5), que em italiano aparece como "Beati i miti perché erediteranno la terra" (Bem-aventurados os mansos porque deles será a terra), o texto latino da vulgata fala em "mites" (no sentido de inclinado à doçura, à suavidade, à serenidade) e não em "mansueti".

Mais adiante, em "Elogio da Serenidade", Bobbio observa: "Em Dante, Orfeu domesticava as feras. "Mitigar", que vem de "mite", refere-se quase exclusivamente a atos, atitudes, ações e paixões humanas: mitigar o rigor de uma lei, a severidade de uma condenação, a dor física ou moral, a ira, a cólera, o desdém, o ressentimento, o ardor da paixão".

Com serenidade, Ives não se encoleriza com a dor moral, até mais intensa do que a dor física, diante do arrebatamento de sua metade, amputação com a qual se interrompeu uma doce aventura amorosa. Um homem sereno é propenso a enxergar as misérias humanas, a aceitar a desgraça, como própria à condição da criatura.

A virtude da serenidade surge na primeira estrofe do primeiro dos setenta e cinco dedicados à Ruth: "Quando versejo com você converso/E minha vida fica mais serena/A voz de meu amor foi o meu verso/Que no seu coração me pôs em cena".

Ruth não esperava outro gesto do seu Ives. Nós somos privilegiados por partilhar dessa epifania poética.

Publicado no Blog do Fausto Macedo/Estadão/Opinião
Em 21 12 2022



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