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DISCURSO DE POSSE
Acadêmico: Célio Debes
Celio Debes homenageia seus antecessores e fala sobre o prestígio da Academia e alegria de fazer parte de tão seleto grupo.

Discurso de posse em 24/11/1994

Senhor Presidente.
Senhoras e Senhores.
Senhores Acadêmicos.

O pendor pelos estudos históricos, impondo a necessidade de pesquisar o passado, levou-me a registrar o apurado ao esgravatar papéis antigos.

Menos com intuito de dá-los a público, começaram a aflorar alguns escritos. A oportunidade de divulga-los surgiu com a solicitação de Onésimo Silveira, para que colaborasse na Tribuna da Justiça, que, havia pouco, fundara.

O décimo aniversário da Turma Acadêmica de 1950, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, constituiu o pretexto para desencadear a publicação das Evocações, de nosso quinquênio sob as Arcadas.

Daí apareceu, naquele hebdomadário, a secção Coisas de Antigamente e, depois, escritos outros acolhidos pela imprensa, pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, por outros periódicos, até que o primeiro livro veio a lume, a que se seguiram, paulatinamente, outros mais.

A elaboração desses trabalhos obedeceu a uma idéia amadurecida. Na senda da História do período republicano em São Paulo, desde a elaboração de Campos Salles. Perfil de um Estadista, de que decorreu O Partido Republicano de São Paulo na Propaganda, a idéia de tratar da atuação do Partido Republicano Paulista, no curso da chamada Primeira República. Para tanto, o objetivo consistia em estudar as vidas de ambos, ou a de um dos dois, dos derradeiros de seus próceres nessa fase. Washington Luís e Júlio Prestes. Esses personagens desabrocharam, para a atividade política, exatamente no momento mesmo em que declinava a atuação de Campos Salles. Assim, o exame, através de suas vidas, como a daquele, abarcaria, além da propaganda, o lapso que se estende de 1889 a 1930. O de que carecia para semelhante empreitada, não era de solicitação, mas de apoio.

E esse me foi dado pelos detentores dos arquivos particulares. Manuel Ferraz de Campos Salles Neto, Gil Prestes Bernardes, Victor Luís Pereira de Sousa e seu irmão Caio Luís. A aproximação ao primeiro, eu a devo a Carlos Júlio de Bayeux Starace; ao segundo, a Israel Dias Novaes e aos dois últimos, ao fato de haver, com eles, trabalhado na Companhia Paulista de Estradas de Ferro, além de oportuna interferência de Myriam Ellis. Deles, todos, recebi, e a eles sou reconhecido, o estímulo para levar a cabo o intento, de há muito, acalentado. E, graças a eles, além da biografia acima referida, vieram à estampa Júlio Prestes e a Primeira República e, ainda agora, Washington Luís, se bem que através de sua primeira parte.

Produção despretenciosa, nem remotamente trazia o propósito de uma acolhida estimulante. A crítica, parciomoniosa, mesmo quase inexistente, não lhe deu atenção. Gerava-se, assim, a dúvida quanto à sua valia. Embora estudiosos citassem alguns deles, longe estava a crença de que pudessem ter repercussão maior.

Foi assim, com surpresa, que vi, lembrado por amigos desta Casa, meu nome sugerido para ocupar uma Cadeira nesta nobre Companhia.

Se devo a iniciativa a alguns aguerridos e persistentes simpatizantes, com a preferência da maioria alcançada, e, em se tratando de uma Instituição cultural, em que a razão prevalece, essa maioria, para mim, se traduz numa unanimidade. Por isso, meus agradecimentos, pela acolhida que me foi e está sendo dispensada, eu os dirijo a todos os Acadêmicos. A Academia como um todo.

Desvanece-me a honraria com que fui galardoado, temeroso, porém, de que ela exceda a meus atributos. Dela decorre, porém, um imperativo. A obrigação de corresponder às expectativas que investidura tão elevada impõe. É neste afã que me empenharei, ainda que jungido por minhas limitações.

A Cadeira número 4, se bem que conte, no ról, alentado, de seus ocupantes, cultores de vários gêneros, tem uma forte marca assinalada pela História.

Vulto de primeira grandeza na História do País e de São Paulo, seu patrono, o Padre José de Anchieta, pelas Cartas que, no mister apostólico a que se dedicara, dirigiu aos superiores da Ordem, documentou os fastos da catequese e mesmo os da colonização destes Brasis. As Informações e Fragmentos saídos de sua pena, contém subsídios históricos importantíssimos, assim como seu De Gestis Mendi de Saa, em que relata a epopéia do terceiro Governador Geral do Brasil.

Seu fundador, o médico Joaquim José de Carvalho, com o ser igualmente, o idealizador e o criador do Silogeu, fez História.

Historiador, e de boa cepa, foi seu sucessor imediato, Afonso António de Freitas, que, por longos anos, presidiu ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Dos ocupantes da Cadeira número 4, outro houve que prestou relevantes serviços à História da Cultura entre nós, com o levantamento da bibliografia brasileira: Rubens Borba de Morais.

Diante de tais precedentes, não será estranho que alguém interessado pela História, -ainda que guardadas as proporções - passe a integrar esta Corporação. Afinal, as Letras abarcam vasto espectro, que se distingue pelo modo como é tratada cada qual das espécies que o compõem.

Se a História se prende aos fatos e se seu desenvolvimento tem por base o documento, e se a busca da verdade é seu objetivo, nem por isso o resultado obtido deixa de constituir uma modalidade literária. Lenda, crônica, História têm encontrado espaço entre as Letras. Aí estão os cronistas reinois, não apenas a perpetuar fatos - em muitos passos destorcidos, mesmo porque escreviam a história oficial... - mas, igualmente, a servir de modelo aos cultores do idioma. Historiador, e dos que mais respeito merecem neste mister, Alexandre Herculano, é paradigma das belas letras.

Exemplos inúmeros, não somente nas plagas de além mar, mas, do mesmo modo entre nós, se podem apontar. João Ribeiro, Rocha Pombo, Euclides, Taunay, para só referir os mais antigos, que mereceram as palmas da Academia Brasileira de Letras.

Assim, também, tem entendido esta Casa, ao acolher, na Revista, não um ensaio, mas, um trabalho doutrinário, denominado "Conceito de História", da lavra do professor de História e Acadêmico Alfredo Ellis Júnior (63/70-89).

O Regimento desta Casa é impositivo quanto ao ritual de posse. Ao novel acadêmico incumbe o elogio do Patrono e de seus antecessores.

Grande é a messe de trabalhos, e de fôlego, que cuidam da figura veneranda e da obra grandiosa de Anchieta.

A ele se tem dedicado, com destaque, inclusive zelando pela reedição de seus escritos, o nosso preclaro Padre Hélio Viotti. Fastidiosa seria a enumeração de autores que sobre ele escreveram, dentre os quais, alguns há, que se sobressaem, pela importância da contribuição de que as investigações a que procederam resultaram.

Jovem, ainda, alistado nas hostes de Inácio de Loyola, o Irmão José atravessa o "mar tenebroso", integrando um dos contingentes desbravadores da nova conquista da Coroa lusitana. Participa da fundação do arraial, chantado no planalto, sob a invocação de São Paulo, após galgar o íngreme caminho, serra acima, que lhe levaria o nome.

Debalde, discute-se se a ele, ou a seu superior, o também venerando Manuel de Nóbrega, cabe a distinção maior, por aquele sucesso. A ambos, sem dúvida, tocam os méritos. Se a um se deve o realce, por conceber a idéia, como mentor da grei que lhe devia obediência, ao outro se tributam as arras, por te-la acalentado e lhe emprestado, com dedicação e abnegação, as condições para que frutificasse.

A serviço da fé, buscou atrair os aborígenes. Para conquista-las, elaborou a Arte da Gramática da Língua mais usada na costa do Brasil, com o que lhe deu estrutura racional. De igual modo, para integrar os catecúmenos, ergue-se, ao lado da Igreja, ainda tosca, a Escola, que com o correr do tempo, se converteria no Colégio, em que lhes ministrava, em vernáculo, as primeiras letras.

Ainda, no empenho de integrar o silvícola, se transveste em teatrólogo. Conhecem-se dele, oito autos elaborados para servirem de veículo à catequese. José Aderaldo Castelo (A Literatura Brasileira. I-Manifestações Literárias do Período Colonial, São Paulo, Cultrix, 1972, p. 43) exalça a importância desse trabalho catequético.

"Devem ser literariamente valorizados, sobretudo o teatro em verso e a poesia laudatória".

Sílvio Romero, o acerbo crítico da contribuição cultural quinhentista, no entanto, reconhece os méritos do inácino, sustentando que

Não tivemos naquele século uma só produção literária que mereça ser lembrada, além das de Anchieta" (História da Literatura Brasileira, 3ª. ed., II/25).

As qualidades de escritor de mérito do evangelizador, ele as ressalta, quando escreve que "o padre não teve intentos literários, porém, somente desígnios de religião e de catequese" (idem, idem, p. 24).

Na busca da paz com os tamoios rebelados no litoral, entrega-se como refém, e, no aguardo da solução almejada, preenche o tempo, compondo, nas fugidias areias da praia, o poema De Beata Virgine. Sua memória prodigiosa permitiu-lhe, após a libertação, reproduzi-lo de forma definitiva, preservando-o para a posteridade, ainda que se admita a possibilidade de lhe estar faltando parte da narrativa da vida da Santíssima Virgem (cf. o Prólogo a De Gestis Mendi de Saa, ed. do Arquivo Nacional, p. XXVI).

A esses predicados notáveis, se acrescenta o de enfermeiro, pensando os feridos e os doentes, assistindo-os e consolando-os em seus transes.

Piedoso, professou seu ministério, logrando, não há muito, a beatificação, pelo que, no Pátio do Colégio, no lugar mesmo do nascimento da Metrópole, se lhe dedica o templo lá reedificado.

Curioso, talvez poucos o saibam. Não foi seu nome o primitivamente indicado para patrocinar a Cátedra nascente. A escolha inicial recaíra na figura do médico sorocabano Augusto Cesar Miranda de Azevedo, falecido cerca de dois anos e meio antes da fundação da Academia. A derradeira eleição para preenchimento da Cadeira n. 4, que o teve como patrono, foi a em que se escolheu Ciro Costa. É o que revela carta do então secretário-administrativo da Sociedade, de 30 de novembro de 1936, dirigida a Monteiro Lobato, informando-o de que se aprestava essa eleição, ao mesmo passo em que enumerava os anteriores ocupantes da Cadeira e apontava Miranda de Azevedo como seu patrono (Arquivo da Academia, Pasta referente à Cadeira n. 4). A situação durou mais tempo. De fato, o primeiro número da Revista da Academia Paulista de Letras, surgido a 12 de novembro de 1937, menciona, ainda, Miranda de Azevedo na relação dos patronos. Já o segundo número dessa publicação, datado de 12 de março do ano seguinte, o substitui por Anchieta. Dos quarenta de seus numes tutelares apontados, ao instalar-se a Academia, em 1909, além do referido, sofreram igual tratamento dois outros patronatos. É o que se verifica da relação constante da Lembrança da Sessão Inaugural.

lnstituidor da Cadeira número 4, o médico e polígrafo Joaquim José de Carvalho, no dizer do redator da Lembrança da Sessão Inaugural que se esconde no anonimato, dele se sabendo, apenas, que integrava a Academia-

"Para todos os efeitos, assim da detratação soez, como da glória esplendente, foi, é e será o verdadeiro, o único fundador do Cenáculo paulista. Ele foi quem teve a idéia dessa criação, ele foi quem a pôs por obra, vencendo, aqui, a "inveja atrabiliária", ali o mal contido despeito, acolá, a indiferença inerte, muda e palerma, e, a cada passo também, a modéstia que toda se encolhia, e não queria dar de si senão a poder de vigorosos empuxões. (...) Ninguém por isso mesmo, foi como ele consagrado: - consagrado, sucessivamente, de cada um dos trinta e nove companheiros, que, a um por um, vinham laureadamente chegando" (p. 23).

Modesto, recusou os lugares de primeira plana, na Sociedade que criara, cabendo-lhe "a natural, a espontânea preponderância dos chefes, que, para o serem, de nenhuma eleição precisam" (idem, p. 24). Coube-lhe, no entanto, na primeira diretoria, os lugares, cumulativos, de Secretário Geral e Procurador.

Natural do Rio de Janeiro, já formado em medicina, radicou-se no interior paulista. Israel Dias Novaes, ao empossar-se na Cadeira número 3, frisou que J.J. Carvalho em sua demanda para a Capital, procedera de Avaré, terra da qual ele, Israel, é natural e que, é credora de minha simpatia, porque dela são os troncos de que promana minha mulher. Fundar a Academia constituía a intenção, do peregrino. Frustrou-se-lhe a primeira tentativa, que frutificou, pouco depois, na realidade que é esta nossa Instituição viva, hoje, mais que octogenária!

De sua atividade profissional e cultural, deixou bagagem apreciável. Dela se destacam O Catolicismo na República e o estudo fisio-patológico O Sonho - obras das quais a Academia possui, apenas, cópia reprográfica, de originais existentes na Biblioteca Afonso de E. Taunay, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - e O Médico e a Fé. Católico praticante, soube associar seu pendor religioso tanto à atividade profissional que exercia, quanto aos temas que, como beletrista, desenvolvia.

Sucedeu-o o cultor da História, Afonso António de Freitas. Voltado para o exame e o levantamento das tradições e relembranças da Capital, produziu obra do tipo a que Alexandre Herculano dá destaque e ressalta os méritos. Dissertando sobre os estudos particularizados de determinado aspecto da História, do que, posteriormente, se convencionou chamar de "pequena história", leciona o mestre de Eurico, o Presbítero.

"É semelhante trabalho desprezível? Não por certo. Este exame miúdo, feito com consciência, tem grande aplicação e ainda em si é importante" (Opúsculos, 5ª. ed., V/l00).

Tradições e Reminiscências Paulistanas, que contam três edições, fixam fatos e figuras do passado da nossa Cidade. Dentre os registros de acontecimentos, delas constantes, e que, não fosse sua diligência, ter-se-iam perdido no olvido total, figura o desastrado e trágico desfecho da primeira viagem, experimental, de uma composição ferroviária, em tráfego no perímetro urbano da Capital.

Variada sua temática, com incursão pelos estudos indigenistas, como Distribuição Geográfica das Tribus Indígenas na E poca do Descobrimento e Vocabulário Nheengatu, este integrante da extraordinária e valiosa "Coleção Brasiliana" (v. 75) - hoje relegada a plano secundário, já que temas de importância cultural desmerecem a preferência dos que privilegiam os modismos, de retorno financeiro seguro... É dele, também, o inacabado Diccionario Histórico, Topográphico, Ethnographico Illustrado do Municipio de São Paulo, de que publicou apenas o primeiro volume, contendo a letra "a".

Mas, de sua opulenta produção - o verbete do I ndice da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (v. LX) que lhe é dedicado, se desenvolve por sete páginas maciças - se destaca a notável e alentada Imprensa Periódica de São Paulo, que abarca o período de 1823 a 1914, primitivamente inserto no v. 19 da Revista do Instituto, e que mereceu publicação independente.

Coube-lhe, ainda, como se disse, a presidência do Instituto Histórico de São Paulo, de 1922 a 1930, ano de seu falecimento.

Vaga, neste último ano, a Cadeira n. 4, foi eleito, para ocupá-la, o poeta Ciro Costa.

A seu respeito, escreveu Raimundo de Menezes, na História Pitoresca de Quarenta Cadeiras, cujo subtítulo esclarece tratar-se do "anedotário da Academia Paulista de Letras", que, infenso à publicação de seus versos, declarara a René Thiollier, que o incentivava a reuni-los em livro,

"A minha obra literária não interessa ao público; é a minha vida. Da vida que vivo, eu sou autor e ator. Quero levá-la comigo para o túmulo" (p. 40).

Terra Prometida, vinda a lume em 1938, postumamente, foi seu único livro editado.

Inobstante sua relutância, alguns de seus sonetos foram incluídos em antologias didáticas e, imortalizados em bronze, versos seus, fragmentos de poema a ela dedicado, ornam parede das Arcadas do Largo de São Francisco, aprisco em que, como tantos vates de expressão, viveu sua vida acadêmica.

"Ó velha e sempre nova Academia,

Ó bela mocidade a florecer,

............................................... .

.............. não a deixeis morrer".

Paulista de arraigadas convicções, foi dos primeiros a se alistarem nos Exércitos Constitucionalistas, em 1932, combatendo no front de Cunha.

Com seu desaparecimento, em 1937, elege-se o quarto titular da Cadeira n. 4, Gofredo Teixeira da Silva Telles. Bacharel em Direito, desenvolveu atividade política, sem que sua sensibilidade poética deixasse de aflorar. São de sua pena a alegoria, em versos alexandrinos, O Mar da Noite e o poema lírico A Fada Nua. Além dessas composições, que mereceram edições em livro, vasta foi sua colaboração literária, em periódicos nacionais e estrangeiros.

Durante a Guerra Cívica de 32, exerceu o cargo de Prefeito da Capital, salientando-se, dentre as várias obras públicas que encetou, a criação do Parque do Ibirapuera.

Instituído o Conselho Administrativo do Estado, depois de 1937, tocou-lhe a presidência do órgão, cargo que ocupou, ininterruptamente, até sua extinção.

Administrador de grande tirocínio, coube-lhe, quando Tesoureiro da Academia, comandar a construção de sua sede, o Cenáculo que nos alberga, vencendo resistências notáveis, inclusive de economista de tomo, quanto à viabilidade econômico-financeira da obra.

Como é de ver-se, a Cadeira n. 4 teve a fortuna de contar, entre seus ocupantes, com o fundador desta Irmandade, J.J. Carvalho e, ao depois, com Gofredo da Silva Telles, o fautor de seu empreendimento material de maior realce, a sede própria, pondo paradeiro às incertezas que afligiam a Academia, pela ausência de um pouso definitivo.

Em sinal de gratidão, seus pares o fizeram Presidente de Honra, vitalício, da Academia e, para perenizar-lhe a memória, denominaram "Sala Gofredo Telles" ao plenário acadêmico.

É de se não deslembrar outra de suas iniciativas culturais. A fundação do malogrado "Ateneu Paulista de História" que, ao lado da "Associação dos Cavaleiros de São Paulo", teve aquele e continua tendo esta, sua morada no casarão do Pátio do Colégio. Ambas essas Instituições surgiram com a finalidade de preservar as tradições paulistas.

O inexorável da vida, fez com que novo claro se abrisse na Cadeira patrocinada por Anchieta.

Para preenche-la, bem houve a Academia em acolher Rubens Borba de Morais. .

"Bibliógrafo e historiador do livro", em sua própria conceituação, a seu labor são devidas obras da mais elevada importância no campo bibliográfico. No dizer correto de Nogueira Moutinho, o bibliógrafo era, também, bibliófilo. E foi no refúgio de sua livraria, entre suas estantes estuantes das raridades que amealhara, que encontrou a matéria prima para a arte a que se dedicava. Colhera, também, subsídios preciosos, nas mais importantes bibliotecas do País e do exterior, que superiormente dirigiu. Tornou-se, assim, um amante que fez de seu prazer o deleite de quantos, como ele, amavam e amam as belas letras, já consubstanciadas em suas feições definitivas.

Dessa paixão brotou o Manual Bibliográfico de Estudos Brasileiros, obra coletiva -congregando a plêiade maior de especialistas nos variados ramos da cultura nacional - organizada sob sua direção e do norte-americano William Berrien, que o prefaciou. Nele, tocou a Borba de Morais, juntamente com Alice Canabrava, o arrolamento das obras gerais sobre História e, de sua lavra exclusiva, o capítulo dedicado às Viagens. Todos os títulos alinhados nesse trabalho, trazem, além das indicações bibliográficas de praxe, uma síntese, mais, ou menos, dilatada, de seus conteúdos.

Depois do Manual, surge a Bibliografia Brasiliana ou "A Bibliographical Essay on Rare Books about Brazil, em dois tomos, vindo à luz em Amsterdã. Vem, na sequência, a Bibliografia Brasileira de Autores do Período Colonial, em que são coletadas 745 produções, editadas antes da transladação da Família Real portuguesa para o Brasil; O Bibliófilo Aprendiz e Livros e Bibliotecas do Brasil Colonial.

Tão vasta dedicação aos livros, fariam recair sobre Rubens Borba de Morais as preferências para que desse orientação a Bibliotecas. Coube-lhe, assim, a direção da Biblioteca Municipal, hoje Mário de Andrade, cujo edifício se projetou em sua gestão, e da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. A Organização das Nações Unidas atribuiu-lhe a gestão de sua Biblioteca, em Nova York, com extensão de suas atividades a Paris.

Desempenhou papel relevante na criação do Departamento Municipal de Cultura, sob o comando de Mário de Andrade.

Nas reminiscências que traçou, a propósito de sua amizade e convívio com este amigo de infância, na abertura de Lembranças de Mário de Andrade. 7 Cartas, de 1979, a que denominou "O Amigo", e ao lamentar o desaparecimento de Mário, enumera as atividades de que participou.

"Não era somente um amigo que perdia, era parte de minha vida que se acabava. Era o companheiro firme da Semana de Arte Moderna, de Klaxon, de Terra Roxa, da primeira fase da Revista de Antropofagia, da fundação do Partido Democrático, do Diário Nacional, do Departamento de Cultura, que desparecia" (p. 25).

A presença de Rubens Borba de Morais dignificou a Academia, por seu elevado valor intelectual.

A este nome representativo, sucedeu o não menos prestigioso Antonio D Elia.

Paulistano do Brás. Contista, ensaísta, crítico literário, tradutor.

No conto, iniciou-se nas páginas da revista O Malho, do Rio de Janeiro. Na imprensa de São Paulo, colaborou nos prestigiosos Correio Paulistano, O Estado de S. Paulo, Jornal de São Paulo e na revista Anhembi.

Embora fecundo, enfeixou, em livros, parte mínima dessa colaboração, destacando-se A Mágica Mão. De seus contos, foram editados O Diabo veste-se de Preto, O Velho e o Cão, O Major e os Pistoleiros de Pistóia. Como tradutor, demonstrou suas qualidades em O Príncipe, de Nicoló Machiavel.

Incursionou, igualmente, pela biografia, produzindo Marconi. O Animador do Silêncio. Deixou, também, outro estudo do gênero, o inédito, Major Molinaro e a Camorra Eleitoral. Nele, traça a vida de José Molinaro, parente seu que, na década de 20, exerceu, na condição de cabo eleitoral, poder político invejável, nesta Capital.

Ainda sobre este personagem, publicou, na Revista do Arquivo Municipal (São Paulo, 197: 47-54), o interessante e agradável artigo "O Major Molinaro e o Voto Múltiplo", que traz o subtítulo "O Voto dos Ausentes na Velhíssima República". Neste primoroso relato, traça, em largas pinceladas, o perfil do imigrante-infante, de 10 anos de idade, que se fizera empresário de transporte urbano, de carga e de passageiros. Neste último mister, que ele próprio exercia, é que se relaciona com a política. Seus préstimos se revelam quando, para compensar a inconstância de quatro de seus empregados, alistados eleitores, por ele aliciados, se recusaram a votar, em determinada eleição. Tomando-lhes os títulos respectivos, dirigiu-se a quatro seções eleitorais diferentes, e, com tais documentos, votou por seus titulares. Nascia, assim, o "voto múltiplo", para gaúdio dos chefes e chefetes políticos. E, para o Major, abriam-se as portas do prestígio.

Pela riqueza dos dados, pela beleza do texto, pela importância do tema, é de se estimar, diante da amostra contida no artigo, o valor do inédito O Major Molinaro e a Camorra Eleitoral. Sua publicação é um imperativo, não só pelo conteúdo rico da obra, mas, igualmente, pelo brilho literário do autor.

Para a vaga aberta com o falecimento de Antonio dElia, elegeu-se seu panegirista nesta Casa, Monsenhor Primo Vieira, que, em seu discurso de posse, analisou-lhe minudentemente a produção intelectual.

A notícia do falecimento de Primo Vieira, chegou-me, e a um grupo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - a cujo quadro social ele também pertencia - no correr de uma excursão ao Vale do Paraíba. Estávamos na fazenda do Comandante Lauro Furtado de Mendonça. A informação foi dada pelo acadêmico Hernani Donato, com breve elogio do morto. As lembranças da memória do Monsenhor ganharam, então, relevo, dadas suas relações com os anfitriões. Da Blanche exornou-lhe os dotes pessoais, destacando seus pendores humanitários.

Figura humana benfazeja, levava o conforto da fé e da solidariedade aos aflitos.

No "À Guisa de Prefácio" ao livro Busca, de Blanche Charnaux, em que a autora relata a dolorosa experiência da perda de um filho jovem e promissor, deixa conceitos elevados, em que o ministro religioso extravasa o arraigado de suas convicções.

A certa altura, alude ao personagem de Camus, em A Peste, o Padre Peneloux, para quem os padecimentos arrostados pelos indivíduos, nada mais seriam do que expressões da repressão divina. Insurge-se contra essa visão mesquinha do Criador. "Seria -escreve- irrogar a Deus a pena de talião, que representa uma fraqueza da lei mosáica". Aí está a contraposição do Deus compassivo, da concepção cristã, ao Deus punitivo do Velho Testamento.

No tocante ao estilo da autora, traça-lhe o significado, em conceitos carregados de sentimento poético. "As frases são reticentes como estrelas em lágrimas num caminho percorrido e os períodos telegráficos nos recordam que a Dor quase sempre fala em monossílabos"!

O trecho citado põe em relevo o poeta que, sempre, foi Primo Vieira, pendor a que a sotaina, ao invés de abafar, deu alento.

Mineiro de Romaria -topônimo de sabor religioso- abraçaria, por vocação, o sacerdócio. E, em seu mister, empenhou-se, apesar das andanças a que se viu forçado, ou, talvez, por isso mesmo, chegando, em Santos, seu derradeiro pouso, à função destacada de Vigário Geral da Diocese.

Obtivera, pela USP, o título de doutor em Letras, que cultivava por inclinação. Nesta Instituição, exerceu o encargo, atribuído pelo Ministério da Educação e Cultura, de Verificador para o reconhecimento, em âmbito nacional, dos cursos de Literatura Portuguesa. Por duas vezes, a renomada Fundação Galustre Gulbenkian, de Portugal, concedeu-lhe bolsa para pesquisar na área de Literatura Portuguesa e Brasileira, ensejando-lhe permanência na terra a que dedicava enternecido afeto e onde veio a falecer.

Radicado em Goiânia, por algum tempo, bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal de Goiás. Durante sua permanência nesse Estado, foi, representando-o, membro correspondente de nossa Academia de Letras. Tal representatividade cessou, com sua transferência para Santos.

Dando mostras de seu entusiasmo pelas atividades literárias, fundou a Academia Santista de Letras, da qual foi titular da Cadeira patrocinada por Martins Fontes, sobre quem, se sabe, planejava fazer, nesta Casa, uma conferência, que seu falecimento repentino obstou. Mas, a respeito da obra de seu patrono deixou o estudo Como é bom ser bom!

Dada sua condição de poeta, o preponderante da produção que deixou, perpetuada em livros, é a poética.

Litanias, de 1949, abre, cronologicamente, a relação de suas obras. Prefaciada por Guilherme de Almeida, mereceu deste qualificativo enaltecedor.

"Primo Vieira é um puro na linguagem e um puro na poesia. O descassílabo português na composição literária do soneto, é sua expressão preferida. Expressão que não tem segredos para o seu reverente virtuosismo. Rigorosa divisão silogística do pensamento; riqueza de rimas; apuro de aliterações... "

Seria preciso mais, para uma consagração? A voz não é, apenas, a de um poeta. É a do Príncipe dos Poetas!

A opinião favorável do consumado mestre da arte de poetar não se queda isolada. O prefácio, assim como o livro, se não repercute, se não ecoa, fenece no desconhecimento geral. Não assim com Primo Vieira.

Outras autoridades lhe atribuem as honras de que seus merecimentos poéticos eram credores.

Enfileram-se, poetas e críticos, com seus juízos.

O severo e caústico Agrippino Grieco rende-se às qualidades poéticas de Primo Vieira.

"Sempre houve quem deplorasse a tendência de confundir valores estéticos e valores morais. É evidente que não basta aos poetas a escolha de assuntos virtuosos para que a sua forma seja bela. Reconheço, todavia, tornar-se bem melhor quando coincidem elevação de tema e perfeita execução artística. E esse se mostra o caso do sacerdote que escreveu as Litanias".

Ainda neste pronunciamento, Aggripino acrescenta

"Com que delicadeza foram tecidas imagens e ritmos! Encontro em tal livro sonetos e poemas antológicos. Não o felicito, Padre Primo Vieira: felicito, sim, a poesia nacional, por ter neste instante alguém que tão nobremente mantenha as prerrogativas do lirismo cristão da raça ".


Emparelham-se, em importância, aos de Guilherme, os conceitos de Aggripino.

Se, acaso, outros pronunciamentos não houvesse, bastariam os dois citados para que Monsenhor Primo Vieira se alinhasse entre os poetas inspirados.

Opiniões outras, todavia, se acrescentam àquelas. E de vates consagrados. Menotti, Manuel Bandeira, Corrêa Júnior, Judas Isgorogotas, Dom Aquino Correia.

Primo Vieira não se limitou à obra de estréia, tão auspiciosamente recebida. Deu azo a seus pendores. Seguem-se Penumbra Votiva (1951); Cromos Infantis (1958); Estrelas de Rastros (1964); Vitrais, um agiológio em versos (1963); os ramalhetes de Hai-Kais Borboletas Brancas (1967) e Pirilampos (1978); Poemas Franciscanos (I Fioreti) (1987). Essa a sua produção poética, recolhida em livros.

Em prosa, deixou-nos páginas distintas. Preces do Angelus (1955), alocuções pronunciadas, nos fins de tardes, em programa radiofônico; os ensaios contidos em O Verso e a subversão do Verso (1977); e o volume de crítica literária Hospedes do Tempo (1978).

Neste último livro, debuxa "ligeiras impressões críticas sobre autores portugueses e brasileiros", com os quais tivera "contacto no espaço e no tempo", e que "deixam atrás de si o marco de sua presença, pouco ou muito de sua alma naquilo que escreveram".

Desfilam, entre os Hospedes do Tempo, Ferreira de Castro, Almada Negreiros, José Régio, Vitorino Nemésio, Alphonsus de Guimarães, Alvaro Moreira, Cecília Meireles, Guilherme de Almeida, Cleomenes Campos, Adelmar Tavares, Ribeiro Couto, Sebastião da Gama e vários outros. Sobre cada qual, consigna a impressão que lhe causaram. De alguns, focaliza a obra, de outros, o convívio e a produção literária. São crônicas breves, umas datadas de Lisboa, outras sem indicação semelhante, fazendo crer que foram escritas no Brasil e, ao seguro, de datas diversas. Páginas refertas de sensibilidade e sentimento. Sempre generosas e afetivas.

Incursionou, ainda, pela área da biografia, traçando o perfil do Cônego José Amaral Melo (1987). Nele, dedica um capítulo, isento, ao agnóstico Comandante (posteriormente, Almirante) Benjamin de Melo, tio do biografado, que fôra secretário de Saldanha da Gama, no curso da Revolta da Armada, em 1893.

Cabe, aqui, uma ponderação, que enaltece a grandeza intelectual do Monsenhor. Como bem observa seu amigo, o Comandante Furtado de Mendonça, Primo Vieira, um ministro da fé católica, não só discorreu, com elevação, sobre um agnóstico -Benjamin de Melo- e um positivista arraigado, como escolheu a este último - Martins Fontes- para seu patrono, na instituição cultural que criara!

A dedicação à Literatura, impôs-lhe o dever -sim, dever, porquanto este incute, nos que sabem, a obrigação de transmitir os conhecimentos acumulados a bem dos que carecem das benesses, se não da cultura, ao menos da ilustração- de produzir e de divulgar. Assim, deu a lume, em revistas universitárias de Lisboa, São Paulo, Goiânia e Santos, estudos literários sobre figuras destacadas das Letras brasileiras e lusitanas.

O poeta Primo Vieira, senhor de alentada contribuição intelectual, viu recompensado seu esforço, com a acolhida que lhe deu esta Casa, onde conviveu por tão pouco tempo. A brevidade de sua passagem pela Academia, no entanto, só fez crescer seus merecimentos. E sucede-lo, na Cadeira ilustre, notabilizada pela plêiade destacada de quantos a ocuparam, é, mais do que uma honra, é um encargo, que só com zelo constante e pertinaz assegurará a permanência do prestígio que a cerca. Esta, pois, a obrigação que, com empenho, procurarei cumprir, invocando a proteção divina.

Ao encerrar, reiterando meu profundo agradecimento à Academia pela prestigiosa acolhida que me dispensa, seja-me permitido testemunhar ao preclaro Acadêmico Francisco Marins, meus agradecimentos por ter acedido em ser a voz, pela qual se concretiza esta recepção.



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