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DISCURSO DE POSSE DE DANIEL MUNDURUKU NA CADEIRA 21
Acadêmico: Daniel Munduruku
Faço parte de um povo que cultiva a memória e a tradição como instrumentos pedagógicos para não nos permitir esquecer quem somos, de onde viemos e o que fazemos neste mundo.

DISCURSO DE POSSE DE DANIEL MUNDURUKU

APL 19/03/2026

Digníssimo presidente e demais confrades e confreiras, mulheres e homens honradíssimos com quem terei o júbilo de conviver doravante.

Naturalmente não preciso dizer o tamanho da honra que cerca meu ingresso nesta casa não apenas por conta do que me tornei graças à literatura, mas, sobretudo, pela certeza que trago comigo os sonhos de muitos, como bem disse o poeta.

Quero iniciar este meu pronunciamento elevando meu pensamento para meus ancestrais, mulheres e homens que foram construindo um caminho por onde eu pudesse passar. O caminho mais seguro é aquele que já foi pisado muitas vezes, diz a sabedoria de meu povo.
Costumo sempre dizer que sou um brasileiro nascido Munduruku, um paulista nascido no Pará. Primeiro para lembrar que nosso país é rico em diversidade originária. É pródigo em sabedoria ancestral. É pleno em suas infinitas crenças que tornam o Brasil um país com vocação para a felicidade; segundo, para eu poder afirmar que também sou estrangeiro, como tantos outros, neste território paulista. Estrangeiro sim, invasor jamais. Vindo de terra longínqua, aqui sempre honrei a presença dos ancestrais que abençoam este chão. Por isso fiz questão de trazer meus irmãos indígenas para recepcionar a todos nós com a cantoria que traz para o presente a memória de nossos antigos pais.

Faço parte de um povo que cultiva a memória e a tradição como instrumentos pedagógicos para não nos permitir esquecer quem somos, de onde viemos e o que fazemos neste mundo. A memória – transmitida de geração em geração – é atualizada permanentemente pela voz macia de nossos avós ao nos contarem as histórias que deram origem ao nosso mundo. Não ao mundo todo, mas ao mundo que meu povo habita e que construiu uma cosmovisão capaz de interpretar os sinais transmitidos pelos seres que estão ocultos nas folhas secas e nas cavidades das pedras. Lá, onde nossos pensamentos nem sempre chegam, mora o sentido invisível de nossa existência. É a memória que nos proporciona esse pertencimento e nos confere resistência para lutarmos pelo que realmente importa e nos ensina a resiliência para não confundirmos os valores que nos habitam.

Também sou filho do ritual. Ele é a práxis que disciplina nossa conduta para além do que consideramos ser melhor na conjuntura da vida. O ritual faz com que sejamos presentes e não caiamos na falsa auto apologia do merecimento. O ritual nos torna coletivos. O merecimento nos convence para o individualismo. O ritual nos convoca a pensar no outro; o merecimento nos torna egoístas. O merecimento nos obriga a olhar para frente, para o futuro; o ritual nos obriga a olhar para trás para não esquecermos os que vieram antes de nós.

Não sou o tipo de pessoa que tem propensão esotérica, mas não sou também alheio às possibilidades de haver uma mãozinha invisível que comanda o tabuleiro da existência. Por via das dúvidas, prefiro manter um equilíbrio entre o ser e o não-ser. Talvez por isso, ao pesquisar a biografia de meus antecessores nesta cadeira 21 que hoje tomo posse, deparei-me com algumas coincidências – ou seriam confluências? - que me levaram a pensar que estou me assentando no lugar certo. E digo isso nem tanto pela formação acadêmica brilhante de meus antecessores ou pelos cargos que ocuparam nas profissões que exerceram, mas pela magia que essa cadeira parece ter quando atrai seus ocupantes. Senão, vejamos:

Hoje, 19 de março, é dia de São José, na fé católica esposo de Maria, padroeiro dos artesãos e da família. É também o último dia do verão, estação híbrida que mistura o calor muitas vezes aviltante com as chuvas que inundam a terra, tantas vezes maltratada pela inconstância da nossa alma selvagem. É um dia, portanto, de passagem, de mudança, de transformação.
Metamorfose, diriam os poetas. Isso é demonstrável também pela pertencimento astrológico que a cadeira representa, pois ela acolheu, em sua maioria, pessoas nascidas em fevereiro sendo elas, portanto, aquarianas ou piscianas.

Trago essas menções como abre alas do que considero ser uma honra dizer que a maioria dos que me precederam fazem parte da mística da qual me sinto inserido. E não digo isso com pendão religioso ou esotérico, mas por considerar que há “mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”. Parte desse mistério está no fato de eu ser, ao mesmo tempo, do signo de aquário e do signo de peixes. Tendo nascido no dia 06 de fevereiro, data em que minha família – a originária que reside no Pará – e a adotiva – que me faz companhia em Lorena – celebra meu aniversário; fui registrado, no entanto, no dia 28 de fevereiro – data civil que meus amigos – os de carne e osso e os digitais – celebram oficialmente minha chegada ao mundo. Ou seja, sou um peixe dentro de um aquário ou um aquário sedento por um peixe que me traga vida e diversão.

1) O nobre fundador desta cadeira é José Luiz de Almeida Nogueira, nascido no dia 4 de fevereiro de 1851. E ele traz uma outra coincidência notável: ele é de Bananal, cidade que traz uma proximidade muito elástica com minha família adotiva de Lorena. Ambas estão localizadas no vale do Paraíba. Ambas foram definidas – assim como parte das 18 cidades daquela região – por Monteiro Lobato como cidades mortas.

Lembrando que Lobato também fazia parte daquela mesma macrorregião.

2) Vejam que interessante, nobres acadêmicos, senhoras e senhores, que o primeiro a ocupar esta cadeira foi um Fluminense de Piraí, mas que teve forte ligação com a cidade vale paraibana de Taubaté onde foi professor e jornalista. Estou me referindo a Álvaro Guerra que, curiosamente, pediu para tornar-se sócio honorário por motivos de saúde, no dia 6 de fevereiro de 1939. O dia em que eu nasceria 25 anos depois. Em 1897, publicou o primeiro livro, "No Lar", passando para a redação do Correio Paulistano, como cronista e crítico literário. A convite de Afonso Arinos, retornou a O Comércio de São Paulo. Em 1909, afastou-se do jornalismo para dedicar-se exclusivamente ao magistério. Entre os livros que publicou, todos de cuidadoso estilo e preocupação didática estão: "No Lar", 1897; "Páginas esquecidas", 1900; "Os meus serões", 1908; "Galeria de grandes homens", 1922 a 1924 e outros. Veio a falecer em 1942, em São Paulo.

2) Roberto Simonsen foi o segundo acadêmico a ocupar a cadeira de número 21. Nascido no Rio de

Janeiro em 18 de fevereiro de 1889. Um carioca aquariano cuja formação nas primeiras letras aconteceu em Santos, litoral paulista. Posteriormente transferiu-se para o Colégio Anglo-Brasileiro de São Paulo onde cursou a Escola Politécnica. Simonsen foi Engenheiro, Industrial, professor, sociólogo e criou instituições de finalidades intelectuais. Foi, portanto, um brasileiro atuante e comprometido com o desenvolvimento do país. Além disso, publicou, entre outros, "O Município de Santos", 1911; "Ordem econômica e padrão de vida", 1934; "Aspectos da economia nacional", 1935; e "História econômica do Brasil", 1937. Fundou a Escola de Sociologia e Política de São Paulo, sendo professor de História Econômica. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras, titular da Cadeira nº 3. Faleceu a 25 de maio de 1948, quando discursava na ABL.

3) José de Freitas Vale foi o terceiro ocupante desta cadeira. Nascido em 1870 em Alegrete, Rio Grande do Sul, para onde mudara sua família originária de Ilhabela, no litoral paulista. Retratado como uma pessoa distinta e magnânima por seus colegas de então, conviveu com grandes nomes das artes paulistas e brasileiras para quem organizava grandes saraus e conversas literárias. Foi senador da República, poeta e grande visionário além de professor e escritor. Como mecenas, acolhia os artistas e com essa finalidade teve a feliz ideia de criar a Vila Kirial, uma espécie de centro cultural exatamente para acolher e projetar nomes no cenário artístico paulista e brasileiro. Muito se fala sobre as ações magnânimas deste grande intelectual e mecenas e é importante que o lembremos como um grande fazedor de sonhos. Seu ponto de contato com nossa narrativa está o fato de o nobre acadêmico ter falecido em São Paulo no dia 14 de fevereiro de 1958.

4) Plínio Barreto sucedeu nosso Freitas Vale. Infelizmente, no entanto, não teve tempo em vida para assumir à cadeira a que foi eleito, à revelia de sua vontade. A morte o levaria pouco depois de sua eleição. No entanto, não se deve esquecer a memória de tão ilustre paulista porque por seu trabalho como advogado e jornalista, a história ganharia outra escrita e como político, outra garantia moral.

Nascido em 1882, em Campinas Plínio Barreto revelou-se um fenômeno. Formado, em 1902, na Faculdade de Direito de São Paulo, dedicou-se também ao jornalismo, área em que começou a atuar com apenas 14 anos, no jornal O Estado de S. Paulo, onde trabalhou como revisor até 1898, ano em que passa a ser redator. Depois de alguns anos atuando como advogado e jornalista na cidade de Araras, no interior de São Paulo, logo após adquirir a publicação Comércio de S. Paulo, retornou à capital e manteve a seção "Crônicas Forenses" em que escrevia sobre questões jurídicas e os principais julgamentos do Tribunal de Justiça. Mais tarde, em 1912, esses textos seriam reunidos em um livro publicado com o mesmo nome. Posteriormente atuou em outros diversos veículos de comunicação tornando-se uma referência importante na condução dos mesmos.

Ainda atuando na área do Direito, em 1924, Plínio se engajaria na defesa de atores dos movimentos tenentistas, que entre 1920 e 1924 realizaram diversos levantes contra o governo brasileiro. Por isso, ele seria considerado patrono da Revolução Paulista, como afirmou o General José de Souza Carvalho. Contudo, sua atuação na Revolução Constitucionalista de 1932 seria ainda maior, mas aqui nos parece melhor não avançar muito e deixarmos um espaço para dizer que a memória de Plínio Barreto é valorosa por ter sido um cidadão comprometido com São Paulo, com sua gente e com sua história. Sua vida profissional – particular e pública – é exemplo de dedicação à causa cidadã. Plínio Barreto faleceu em 28 de junho de 1958, mesmo mês em que foi eleito para esta casa.

5) Nosso próximo homenageado será Ibrahim Nobre. Aqui quero fazer uma deferência especial a este nobre paulista. Foi na escola que leva seu nome que lecionei quando para a capital mudei em 1990. Confesso que nunca dei muita importância ao nome que batizava a escola, mas agora que tenho que homenagear o quinto ocupante da cadeira que hoje assumo, notei que me deparei com um grande intelectual se não pela obra escrita, pelo seu trabalho como delegado de polícia ou como promotor público da capital. Nosso ponto de encontro é seu nascimento em 19 de fevereiro de 1888. Mais uma confluência astral que me obrigo a lembrar. Ibrahim Nobre estudou no Ginásio do Estado onde fez o curso de humanidades. Bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo, em 1909, sendo nomeado Delegado de Polícia e, mais tarde, promotor público da capital paulista. Considerado um dos grandes, senão o maior orador de seu tempo, destacou-se pelo arraigado amor à terra natal, principalmente durante o Movimento Constitucionalista de 1932 de quem se tornou o maior símbolo e seu patrono. Não deixou obra impressa, a não ser poemas em jornais de São Paulo. Sua biografia foi lindamente escrita pelo acadêmico Roberto Dualibi, a quem substituo nesta cerimônia e sobre quem ainda irei discorrer. Nela, Ibrahim Nobre nos é apresentado em sua eloquência e verve de orador. Suas célebres conferências enlevavam os ouvintes ao clímax do comprometimento e do envolvimento com a causa constitucionalista a que defendia.

Ibrahim Nobre fez jus ao sobrenome que carregava: tinha nobreza no corpo, na palavra e na alma. Por conta disso, foi recebido nesta casa em 1960 e dela participou por 10 anos. Veio a falecer em 8 de abril de 1970.

6) Leonardo Arroyo, sexto ocupante da cadeira 21, substituiu a Ibrahim Nobre em 1970. Ele foi o primeiro acadêmico nascido no século XX a sentar nesta cadeira. Nosso ponto de encontro diz que ele nasceu em fevereiro, no dia 26, do ano 1918. Mais um confluente que garante a mística do lugar. Oriundo de São José do Rio Preto, Arroyo morou dois anos em Lisboa. Depois disso retornou ao Brasil e ingressou na faculdade de direito de onde acabou saindo para cumprir sua verdadeira vocação de jornalista e escritor. Em sua jornada de vida participou de muitos meios de comunicação, teve reconhecimento por seu talento jornalístico e recebeu diversos prêmios e condecorações. Ingressou nesta academia em 1970 e a deixou para abraçar a imortalidade em 13 de agosto de 1985.

7) Odilon da Costa Manso é mais um imortal nascido em fevereiro, no dia 16, para ser mais exato, no ano de 1910. Natural da cidade de Casa Branca, interior de São Paulo. Advogado muito prestigiado por seu zelo com as questões republicanas que recaiam sob seu cuidado. Como escritor foi um cronista de mão cheia e enquanto jornalista deixou uma longa produção nos maiores jornais de sua época. Era considerado um escritor elegante e rebuscado. No entanto, é como jurista que ele se destaca enquanto produtor de conhecimento e de jurisprudência capaz de deixar uma herança jurídica até hoje estudada e aplaudida. De minha parte, é um orgulho assentar-me nesta mesma cadeira assumida no dia 17 de junho de 1986 e deixada por Odilon da Costa Manso a 8 de agosto de 2000.

8) Paulo José da Costa Júnior. Eis outro aquariano a ocupar a cadeira imediatamente após a passagem de Costa Manso. Parece até um chamamento isso que ocorre. Nascido em 15 de fevereiro de 1925, Paulo José foi mais um prodigioso advogado a assumir a cadeira 21 exatamente no dia de seu aniversário de nascimento no ano de 2001.

Foi Professor titular de Direito Penal na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo desde 1970 e Livre Docente da Universidade de Roma (1969). Por ter sido o único latino-americano a obter esse título, recebeu o prêmio Roquette Pinto em 1969. Eleito, em 1990, pela Câmara dos Vereadores, cidadão emérito da cidade de São Paulo. Único brasileiro a ostentar o título Cavaleiro de Grande Cruz, da Ordem do Mérito da República Italiana. Integrava desde 1967, o Conselho Técnico de Economia, Sociologia e Política da Federação do Comércio de São Paulo, bem como o Conselho Superior de Estudos Jurídicos daquela Federação. Conselheiro do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e do Club Atlético Paulistano. E por aí seguem os títulos, as merecidas homenagens e os muitos trabalhos que recheiam o currículo deste que foi um insigne e renomado professor e jurista de São Paulo e do Brasil por quem seus alunos tinham total apreço e carinho. A honra é minha de poder ser um substituto à altura do nobre acadêmico Paulo José da Costa Júnior.

9) Meu antecessor imediato é Roberto Dualibi um publicitário dos mais renomados que dizia ser um proletário da palavra por desejar usá-la com a dignidade e com a assertividade que ela possui. Sua trajetória profissional vai nos garantir que ele soube fazer isso com maestria e competência. Nosso ponto de encontro não se dá pela conjunção zodiacal, mas pelo fato de sermos, ambos, prisioneiros da ancestralidade a qual pertencemos. Sim.

Descendente de libaneses, Dualibi compreendeu profundamente seu papel humano na babel paulistana: não deixar que a metrópole o engolisse e o tornasse apenas mais um transeunte entre os transeuntes. Por isso estudou. Formou-se pela Escola de Propaganda de São Paulo iniciando sua carreira em 1952 na empresa Colgate/Palmolive. Em 1956 associou-se a outros publicitários e formou a DPZ uma das maiores e mais premiadas agências de publicidade do País. Daí pra frente não parou mais. Ganhou notoriedade o seu trabalho e em 1969 foi eleito publicitário do ano. Sua capacidade criativa unida ao conhecimento publicitário o tornou um dos palestrantes mais requisitados além de professor e escritor. Sua inventividade o tornava um inquieto criador de conteúdos capazes de alimentar sonhos e despertar vocações; de desbravar caminhos como ajudar na criação da famosa ECA/USP; presidir por três gestões a Associação Brasileira das Agências de Publicidade; ser conselheiro da Fundação Bienal; do Fundo Social de Solidariedade e do Fundo Cultural do Exército Brasileiro. E ainda lhe sobrava tempo para escrever suas peças publicitárias, suas reflexões pessoais e muitos livros que até hoje auxiliam os
estudantes de marketing por todo o país e para além dele.

Como eu dizia anteriormente, sinto-me ligado ao publicitário Roberto Dualibi de maneira misteriosamente ancestral. Somos filhos originários de outras terras e cujos antepassados tiveram que lutar bravamente para vencer em terra estrangeira. Neste sentido, somos irmãos, somos sobreviventes, somos guerreiros. Para mim é uma honra ter sido escolhido para substitui-lo nesta cadeira e eu desejo honrá-la como ele a honrou.

Bom, nobres amigos e amigas, confrades e confreiras, tendo cumprido o rito de falar de meus antecessores gostaria de encerrar este breve discurso com algumas palavras de reflexão e agradecimento.

Em primeiro lugar quero dizer que São Paulo é terra indígena. Ao verificar a presença de muitos parentes indígenas aqui neste ato posso afirmar com certeza que estou em casa. Oriundo do Estado do Pará, filho do povo Munduruku posso garantir que todos os povos indígenas estarão por mim representados. Entrar para a Academia Paulista de Letras não é uma conquista pessoal ou individual, mas coletiva. Fazer parte desta egrégia casa é mais que um merecimento, é uma ocupação de um território do qual tantas vezes fomos banidos e mantidos distantes. Isso aconteceu não por culpa ou dolo da sociedade, mas por conta de uma visão distorcida sobre nossa gente, sobre nossas cosmovisões, sobre nossa ancestralidade. Mas também não é um gesto de vingança como aquela que brada por justiça. É, antes, um abraço, um recomeço, uma afetação. Também não me vejo como uma ponte a ligar mundos porque pontes são facilmente destruídas. Quero ser encontro, abraço, afeto. É neste lugar do encontro que mora a possibilidade de construirmos laços para pensarmos uma identidade nacional que, de fato, seja inclusiva, respeitosa, diversa e ancestral. Tenho plena convicção que “trago em mim o sonho de muitos”. Quem me dá esta certeza são os livros que escrevo pensando nas crianças e nos jovens brasileiros; são os educadores que se surpreendem quando lanço sobre eles meus piolhos pedagógicos do qual nunca mais se livram; são as políticas públicas que nossa literatura indígena tem proporcionado acontecer; são os galardões que nossa
escrita tem conquistado; são as mudanças que temos provocado na ideologia hegemônica. Enfim, assumir esta cadeira não é uma conquista minha individual ou meritocrática, mas é uma entrada pela porta da frente que é por onde todos os meus irmãos e irmãs indígenas merecem entrar.

Gostaria, por fim, expressar minha profunda gratidão ao querido amigo Gabriel Chalita por ter me conduzido a esta Academia e aqui mora mais um ponto de encontro que quero destacar. Chalita é de Cachoeira Paulista, cidade irmã de Lorena, a aldeia onde moro há mais de 30 anos. De lá também veio a patrona da Academia de Letras de Lorena, a maravilhosa Ruth Guimarães. São dois ícones literários importantes daquela cidade. Os dois têm muito a ver comigo. Gabriel por ter sido meu colega de faculdade nos finais dos anos 1980; Ruth por ser negra e ter sentido na pele as dores que se sente quando se é parte de um grupo tratado como minoria. Sei que aqui chego pelas mãos de Gabriel, mas abençoado pela ancestralidade de Ruth que muito amou os povos indígenas. Gratidão aos dois.

Não tive a possibilidade de contar com a presença de minha família distante, aquela que me trouxe ao mundo. Aqui quero elevar meu pensamento à minha querida mãe Maria que do alto de seus 90 anos eleva suas orações de forma permanente sobre todos os seus 10 filhos. Sinto sua presença de forma constante e afetiva. Assim como sinto a presença de meu pai, Miguel, já ausente fisicamente, mas que certamente vibraria como ninguém essa conquista de seu filho ilustre. A todos vocês, irmãos e irmãs, sobrinhos e sobrinhas minha gratidão pela presença em minha vida.

Também quero agradecer à minha família adotiva. Sim, porque quando cheguei à Lorena, em 1987, fui acolhido como um filho pródigo que estava regressando para casa. Essa família, cujos pais nada possuíam de riqueza, dividiram comigo o carinho, o afeto, a alegria, a acolhida, o amor. Benigno, meu sogro já falecido e Thereza, minha mãe paulista que agora sofre as dores do esquecimento, foram a presença que eu precisava para também não me sentir sozinho no mundo. Dizer obrigado a eles é dizer pouco. Na falta de uma palavra melhor, digo que os amo de coração. Assim como amo a Nanci e o José Henrique, irmãos que se tornaram meus cunhados. Sim, porque essa família me presentou com o amor de minha vida: Tania Mara, a companheira com quem divido o mesmo teto há quase 40 anos. Uma verdadeira heroína que tem aguentado minhas idiossincrasias humanas. Obrigado, meu amor, por ser mais humana que eu.

Deste encontro nasceram nossos três filhos que hoje estão aqui nesta cerimônia. Gabriela, nossa primogênita; Lucas, nosso sustentáculo; Beatriz, nossa instigadora. Juntando-se ao nosso núcleo familiar estão também Mayra e Isaía. A cada um de vocês meu amor. O meu amor também vai para Ariel, minha primeira neta, o presente maior que Tania e eu recebemos nos últimos meses. É para você, Ariel, que dedico esta conquista.

Deixei por último para agradecer a todos os amigos e amigas que aqui estão. Aos nobres vereadores da cidade de Lorena que vieram me honrar com a presença; aos valorosos membros da Academia de Letras de Lorena, meus confrades e confreiras e os vários acadêmicos de nossas academias vale paraibanas que aqui estão. Também me sinto honrado por receber a presença de acadêmicos de outros estados, minha orientadora no doutorado Rosely Fischmann, escritores e escritoras, companheiros de jornada. Em especial minha bruxa madrinha Heloisa Prieto que me iniciou na lida literária; aos amigos do futebol de final de semana e aos correligionários do meu partido – PDT – por acreditarem num sonho possível de transformar o país pela batalha política e pelo trabalhismo. Por fim, a todo o público aqui presente que veio celebrar comigo essa cerimônia. E, claro, aos meus nobres confrades e confreiras da Academia Paulista de Letras com os quais irei compartilhar meu empenho às letras e às artes paulistas em especial a literatura infantil e juvenil e indígena. Sei que serão momentos de muito aprendizado para todos e todas nós.

Encerro invocando os ancestrais de nossa terra brasilis: os santos, os encantados e os orixás, pedindo a todos os deuses e deusas que compõem essa tão diversa
terra de Pindorama que nos abençoem e nos protejam de todos os males. Amém.



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