|
||||
|
| ||||
![]() Acadêmico: Betty Milan Doença causa riscos de diabetes, hipertensão, disfunção cardíaca e câncer. Número de adultos obesos cresceu 118 entre 2006 e 2024 no Brasil
O risco de normalizar a obesidade Nem tudo se pode em nome do respeito à diferença. A exemplo disso, a normalização da obesidade. Um terço da população mundial é obesa. O problema é particularmente grave nos Estados Unidos. Segundo levantamento Behavioral Risk Factor Surveillance System de 2024, 40 dos adultos americanos estão obesos com impacto direto na saúde – risco de diabetes, hipertensão, disfunção cardíaca e câncer. No Brasil, o número de adultos com obesidade cresceu 118 entre 2006 e 2024, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde. No mesmo período, houve crescimento significativo de diabetes (135) e hipertensão (31). São dados expressivos da relação entre a obesidade e a doença. Ninguém ignora que a indústria de fast food, que cresceu exponencialmente, seja responsável. No ano de 1970, os americanos gastavam US$ 6 bilhões por ano em fast food; em 2020, US$ 278 bilhões. Mas a obesidade também resulta de uma relação perversa com o corpo, que exclui a possibilidade da contenção. A única lei do desejo do perverso é o prazer, ao qual ele se entrega sem questionamento algum. A cultura alimentar americana, mundialmente difundida, incita ao consumo, contrariamente à francesa, que valoriza o ato de degustar. A ponto de o escritor Cyrano de Bergerac imaginar um povo que se nutria apenas de sabores. A ingestão compulsiva de alimentos é contrária à cultura da França, onde comer não é sinônimo de se alimentar, implica a fantasia que a comida propicia e a conversa. Comer, para os franceses, é simultaneamente degustar, comportar-se à mesa segundo determinadas regras e trocar ideias. Trata-se de um ato que não tem só a ver com a necessidade biológica, é também espiritual. A indústria de fast food é tão responsável pelo desacerto da cultura alimentar americana quanto a propaganda, cujo teórico foi um sobrinho de Freud, Edward Bernays, também nascido em Viena e 35 anos mais jovem do que o seu eminente tio. Bernays foi um dos maiores influenciadores do século 20. Se valeu da teoria psicanalítica –que nasceu da clínica, tendo em vista a cura– para manipular pessoas. Sumariamente, usou o conhecimento do inconsciente para fazer o contrário do que Freud fazia e foi bem-sucedido por trabalhar nos Estados Unidos, o país que mais promove o consumismo. Bernays se baseava na ideia de que as pessoas não são guiadas pela razão, mas por pulsões inconscientes, e suas decisões podem ser determinadas pela propaganda. Valia-se da informação para acessar o inconsciente e produzir narrativas e símbolos, a fim de convencer. Uma de suas obras se chama "A Engenharia do Consentimento". Publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 02 06 2026 voltar
|
||||
| Largo do Arouche, 312 / 324 • CEP: 01219-000 • São Paulo • SP • Brasil • Telefone: 11 3331-7222 / 3331-7401 / 3331-1562. |