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A AMIZADE EM SANTO AGOSTINHO
Acadêmico: Dom Fernando Antonio Figueiredo
Ao escrever sobre a questão social em Santo Agostinho, deparei-me com algumas passagens que falam da vida feliz, como expectativa plena da esperança. No tempo presente, “a demonstração dessa felicidade é a amizade” (Gn.litt.,16).

Ao escrever sobre a questão social em Santo Agostinho, deparei-me com algumas passagens que falam da vida feliz, como expectativa plena da esperança. No tempo presente, “a demonstração dessa felicidade é a amizade” (Gn.litt.,16).

Pensei, então, em partilhar algumas dessas considerações agostinianas, para que, “entre os afetos da alma”, possamos, no seu dizer, “fruir de Deus”:

“Como nos consola, nesta humana sociedade, plena de enganos e tribulações, a confiança sincera e o mútuo amor dos verdadeiros e bons amigos” (De civ. Dei 19,8).

Aliás, Agostinho foi o primeiro autor cristão a elaborar uma teoria sobre a amizade. Cícero viu a amizade como uma virtude política, própria dos grandes estadistas. Agostinho o cita, por diversas vezes: “A amizade, retamente e justamente, foi definida como comunicação, como benevolência e amor, de coisas humanas e divinas” (Cícero, Lael. 6,20, citado por Agostinho in Acad. 3,613; ep. 258,1).

Santo Agostinho a transforma num dom divino, no qual a atração e a delícia se unem à caridade cristã, oferecida a todos. No desejo de que seus amigos, que conviviam com ele em comunidade, cultivassem a amizade, ele ressalta a importância da comunicação mútua:

“Se dois homens de língua diversa devessem viver juntos e não pudessem se comunicar entre si, permaneceriam incompreensíveis um ao outro, mais do que dois animais da mesma espécie, pois nada vale a semelhança de natureza; a tal ponto que o homem prefere estar com o seu cão que viver com alguém com o qual não consiga se comunicar” (Ibid., 19,7).

Em sua experiência pastoral, ele constata que, por habitarem na mesma casa, os seus moradores deveriam ser mais amigos; alguns deles, ao invés, alimentam outros sentimentos:

“A paz é um bem incerto, porque não conhecemos o coração daqueles com os quais queremos conservá-la, e, se hoje, pensamos conhecê-lo, não sabemos, certamente, como será amanhã” (Ibid. 19,5).

Daí a fórmula consagrada por ele: “Pax omnium rerum tranquillitas ordinis” (Ibid., XIX,13). A paz de todas as coisas é a tranquilidade, que nasce da ordem, ou seja, do preceito de não fazer mal a ninguém, mas de se solidarizar com todos, quaisquer que eles sejam.

Princípio singelo, envolvente, apresentado como indicativo precioso para a convivência, que estaria alicerçada no amor a Deus:

“Não se funda e não se protege uma cidade, como convém, a não ser que ela tenha, como fundamento e como vínculo, a fé e a concórdia; mas a fé e a concórdia não existirão, caso não se ame o bem comum, que é o sumo e verdadeiro Deus, e os homens não se amem, sinceramente, uns aos outros, em Deus; pois eles só poderão se amar caso se amem, sinceramente, por causa daquele, a quem não se pode ocultar o sentimento com que amam” (Ep. 127,17).

É bom notar que, para Agostinho, o corpo se move no tempo e no espaço, mas a alma só no tempo, reunindo o presente e o futuro. A força (moto) que os reúne é afetiva, motus affectum: a amizade, cujos frutos seriam a paz e a unidade entre os homens.



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