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UM NÚMERO APAVORANTE
Acadêmico: Antonio Penteado Mendonça
As 37 mil mortes por ano registradas pelas estatísticas oficiais são mais do que suficientes para colocar o Brasil entre os campeões de mortes no trânsito no mundo

Um número apavorante

Em 2025 morreram mais de 1.030 pessoas vítimas de acidentes de trânsito na cidade de São Paulo. Dividido por 365 dias, dá quase 3 mortes por dia, um número absurdo e sem sentido que, infelizmente, deve continuar crescendo, como vem acontecendo ao longo dos últimos anos.

A bem da verdade não há nenhuma ação eficiente no sentido de inverter a tendência. Ao contrário, o governo federal vem enfraquecendo os sistemas de controle de trânsito para conseguir mais votos na próxima eleição. O resultado é que as ações dos governos estaduais e municipais não têm a força necessária para controlar um quadro dramático, que vai piorando dia a dia.

As causas dos acidentes são mais do que conhecidas. Falta de respeito, imprudência, imperícia e negligência, turbinadas pelo consumo de álcool. Como se não bastasse, os rachas e as altas velocidade se somam ao cenário, ajudando o aumento do número de acidentes graves e gravíssimos que enlutam o país.

Dizem as estatísticas oficiais que o número de mortes em acidentes de trânsito no Brasil está na casa das 37 mil por ano. Não sei se este número é confiável, afinal, se a vítima não morre no local e depois de internada vem a óbito num hospital, há forte chance da causa da morte ser traumatismo, mas sem indicar a origem num acidente de trânsito.

Dando de lambuja que isso não aconteça, as 37 mil mortes já são mais do que suficientes para colocar o Brasil entre os campeões de mortes no trânsito, no mundo. Poucos países conseguem atingir essa marca e quando a comparação é feita, por exemplo, com a Índia, onde os números também são superlativos, é preciso não esquecer que o Brasil tem pouco mais de 200 milhões de habitantes, enquanto a Índia tem mais de 1,3 trilhões.

Desde o começo do século 20 o automóvel, tirando o período das grandes guerras, é a mais letal das armas utilizadas para matar seres humanos. Até hoje o estrago feito pelo automóvel é tão grande que a maioria dos países mantem, por lei, a obrigatoriedade da contratação de um seguro para indenizar as vítimas dos acidentes de trânsito.

O Brasil desde meados da década de 1960 sempre teve um seguro com esta cobertura. Primeiro foi o RECOVAT e depois de 1974, o DPVAT, que vigorou até 2024, apesar da arrecadação de prêmios ter sido suspensa pelo governo Bolsonaro em 2020. Em 2024 o governo Lula sancionou uma lei que extinguiu definitivamente o seguro obrigatório para acidentes de trânsito.

O resultado – estima-se - é que mais de 100 mil famílias vítimas de acidentes desta natureza deixaram de receber qualquer indenização pela morte de seu integrante. E o quadro é muito mais grave em relação aos casos de invalidez.

O grosso das vítimas destes acidentes são justamente as pessoas socialmente mais vulneráveis. Majoritariamente jovens entre 18 e 30 anos, a maioria envolvida em acidentes com motos.

Deixar o país sem um seguro obrigatório é condenar quem está as portas da miséria a entrar definitivamente nela. Se o número de mortes no trânsito é uma vergonha, é uma vergonha maior ainda o país não ter um seguro obrigatório para ao menos indenizar as vítimas e seus beneficiários.

Publicado no jornal O Estado de S. Paulo/Opinião, em 02 02 2026



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