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A SEDE PRÓPRIA
ANTES DE FALAR NA construção do seu palácio e nas dificuldades vencidas para alcançar esse desiderato, já no término do longo mandato do Presidente Altino Arantes, precisaremos tratar da interessantíssima questão de saber como foi possível aos primeiros acadêmicos criar uma imagem favorável da Academia, num meio originariamente hostil, sem nunca terem tido um local certo para suas reuniões, nem sequer sala de empréstimo em qualquer Secretaria ou instituição particular? O escritor do Rio ou de Lisboa, e até de mais longe, recebido num almoço no Automóvel Clube ou no salão do Mappin, não estranhava o meio ambiente nem manifestava o desejo de visitar as "instalações" da Academia Paulista, pois ali se encontrava rodeado da fina flor da inteligência de São Paulo; sem falarmos que em todos os casos os jornais do dia noticiavam a ocorrência com o relevo desejado, e com fotografias do visitante ilustre, ladeado de acadêmicos da terra, sempre em número apreciável.

E também nas comemorações freqüentes, centenários e festividades outras de caráter literário, nas cidades do interior do Estado ou de mais longe, a Academia não deixava de representar-se e sempre com o maior empenho de fazer sentir a sua presença. Um exemplo, entre muitos: Por ocasião das comemorações do centenário do nascimento de Castro Alves, a Academia de Letras da Bahia oficiou à nossa Academia convidando-a para participar dos festejos programados. Para aquela associação literária da Bahia a Academia Paulista de Letras não era uma abstração, mas existia nalgum ponto da capital de São Paulo, com endereço certo para a correspondência e até mesmo para ligações telefônicas. Imediatamente, o Presidente Altino Arantes designou o acadêmico Oliveira Ribeiro Neto para representar-nos em Salvador e, na mesma hora, comunicou que iria pôr-se em contato com o Governador do Estado para que esse mesmo acadêmico levasse do Governo de São Paulo as suas saudações. E note-se: no exemplo aduzido essa extensão de poderes não se processou como a passagem de um líquido em vasos comunicantes, que deflui do mais alto e de maior capacidade para o de nível inferior, mas o inverso: era a Academia Paulista, entidade fisicamente inexpressiva — como poderiam assacar-lhe seus desafetos gratuitos — que proporcionava ao Governo de São Paulo a oportunidade de participar de um festival de alto nível na capital do Estado da Bahia. E até oferecia de graça um embaixador qualificado.

Vários foram os recursos dos dois presidentes de mais longo mandato, Alcântara Machado e Altino Arantes, para atingirem esse fim: notícias amiudadas na imprensa diária, a publicação da Revista, com a regularidade invejável de sessenta números consecutivos — por obra e graça do acadêmico René Thiollier — e freqüentes iniciativas culturais pelas cidades do interior paulista, com o propósito de criar bibliotecas e promover conferências ou festividades literárias, conforme as circunstâncias cm cada caso.

Como exemplo de homenagens prestadas a visitantes ilustres, mencionemos de corrida os nomes dos professores Fidelino de Figueiredo e Georges Raeders, Afrânio Peixoto — repetidas vezes — Júlio Dantas e Antônio Ferro, de Portugal, Georges Duhamel, da França, e muitos e muitos mais, quando não fosse o caso de reunirem quatro ou cinco figuras de real prestígio numa única manifestação de apreço: Max Fleiuss, Pedro Calmon, Basílio de Magalhães — aposentado oficialmente da Academia, com a sua transferência para a classe de sócios honorários — e Bernardino José de Sousa, da Bahia. Esta última recepção se deu no Automóvel Clube, parecendo-nos desnecessário acrescentar que em todos esses encontros falava um acadêmico diferente, para, em nome da Academia, saudar os visitantes: Francisco Pati, Otoniel Mota, Rubens do Amaral, Oliveira Ribeiro Neto...

Seria cansativa a relação completa desses visitantes recepcionados fora da Academia, em vinte ou mais anos de inefável desabrigo. De Afrânio Peixoto falaremos no lugar devido.

Não menor boa vontade e prontidão revelavam os acadêmicos em suas excursões pelo interior do Estado, nas chamadas "mobilizações culturais", ideia inicial de Alcântara Machado e posta em execução com igual entusiasmo pelo Presidente Altino Arantes. Programa ambicioso: criar centros ou grêmios literários nas cidades interioranas em que ainda não houvesse associações desse tipo, com biblioteca própria — e aí entrava como contribuição apreciável uma coleção da "Revista" com o peso da sua tradição, e outras publicações da Academia ou livros de acadêmicos de que houvesse duplicatas — congregar os elementos locais que por modéstia inata vivessem retraídos, e despertar em todos o interesse para o estudo da literatura em geral e o da história de âmbito mais restrito do próprio Município.

Como executores dessas iniciativas, convirá salientar com especial carinho os nomes dos acadêmicos, Rubens do Amaral e Oliveira Ribeiro Neto. Tais excursões forneciam material abundante para a Revista de René Thiollier, que não se esquecia de emprestar-lhes o devido relevo, assinalando com pontualidade a passagem dos acadêmicos pelas diferentes cidades do nosso interior e os resultados obtidos com as suas mensagens amistosas.

"Mobilização cultural no Interior", conferências de Rubens do Amaral; telegramas e notícias nos jornais de Jaú, Sorocaba, Natividade, Pirajuí, Botucatu e Piraju.

"Mobilização cultural no Interior" — São Carlos. Instalação do "Centro de Cultura Artística Rubens do Amaral" — Discurso de Wamberto Dias da Costa.

Araçatuba: inaugurada a "Biblioteca Pública Rubens do Amaral" — Comunicação de Francisco Pati à Academia Paulista de Letras.

E assim em muitas outras localidades. Tais excursões culminaram na década de 40, digo, com o nome de "Mobilizações", porque, em verdade, de longa data, antes e depois dessas embaixadas a Academia executou esse programa itinerante. Era a maneira singela de provar a sua existência até mesmo para os espíritos mais cépticos da capital do trabalho e da indústria, que já iniciara o seu ciclo de expansão e de conquistas — condigna réplica da expansão do território — para assegurar ao Brasil de agora lugar de honra no concerto das nações industrializadas.

Conforme assinalamos, todas as ocorrências desse tipo eram pontualmente registradas na Revista. Há números, então, impressionantes, pela variedade de referências às atividades dos acadêmicos por longes terras, no cumprimento, quase sempre, de instruções partidas do centro invisível, mas de atuação segura. Para reforço da assertiva, compulsemos o noticiário da Revista n° 6, de junho de 1939, no auge, por conseguinte, da capacidade administrativa do Presidente Alcântara Machado. Sem falarmos na contribuição especial de Otoniel Mota para esse número da Revista, com sua conferência sobre "Gregório de Matos" na Faculdade de Direito (23-11-37), nem na oração do próprio Alcântara Machado, proferida no mês de maio na Rádio Excelsior, sobre "Nossa Senhora da Aparecida padroeira do Brasil", publicada integralmente na Revista, e, ainda, nas transcrições das atas das reuniões da Academia, no Automóvel Clube, no Departamento Municipal de Cultura ou por onde melhor calhasse reunirem-se, numa das quais se fala em duas comemorações programadas, havendo ficado uma delas a cargo do acadêmico Gofredo da Silva Telles, sobre "Machado de Assis, poeta", e outra de Ulisses Paranhos: "Desequilibrados na obra machadiana", detenhamo-nos apenas na seqüência de títulos da última seção da Revista, "Conferências", para melhor ilustração do que afirmamos.

Cândido Mota Filho — comemorando o centenário de Machado de Assis... sob os auspícios da Academia Paulista de Letras... na Sala João Mendes da Faculdade de Direito... uma conferência subordinada ao tema "O sentimento do amor e da morte na obra de Machado de Assis".

Lourenço Filho — no dia 31 de março... proferiu na sede do Clube Militar, do Rio, uma conferência sobre "A Criança na Literatura"... membro da Academia Paulista de Letras.

Altino Arantes — A conferência do acadêmico Sr. Altino Arantes na noite de 13 de maio no salão nobre do Departamento Municipal de Cultura... Por espaço de hora e meia... relatando em linhas gerais a marcha dos trabalhos da Conferência de Lima, da qual fez parte como membro da Delegação Brasileira.

Não ficará fora de propósito nesta seriação, porém já na presidência Altino Arantes — setembro de 1941 — a seguinte notícia colhida na seção "Vida acadêmica" do n° 15 da Revista: "Em cumprimento a um ofício que o sr. Levi Carneiro, Presidente da Academia Brasileira de Letras, dirigiu ao Sr. Altino Arantes, foram designados os senhores Gofredo T. da Silva Telles, Roberto Símonsen e René Thiollier para irem a Santos receber a bordo o notável escritor e diplomata argentino Henrique Larreta". Trecho do ofício do Presidente da Academia Brasileira de Letras: "Cumpro o dever de comunicar a V. Exa. que, a convite desta Academia, visitará o Brasil, proximamente o eminente escritor argentino Henrique Larreta"... "... pelo paquete Uruguai". "Esse navio deverá permanecer em Santos durante 48 horas, aproximadamente e, assim, a Academia a que V. Exa. preside terá oportunidade de prestar ao nosso visitante as homenagens que lhe são devidas. Muito agradecerei a V. Exa...."

Na mesma seção, na página seguinte (181) tomamos conhecimento da visita feita noutra oportunidade à Academia Brasileira pelo acadêmico Oliveira Ribeiro Neto. "O Sr. Presidente designou os Srs. João Luso e Manuel Bandeira para introduzirem o ilustre visitante, que foi recebido com uma salva de palmas... Em seguida deu o Sr. Presidente a palavra ao Sr. João Luso, o qual dirigiu igualmente breve saudação ao Sr. Oliveira Ribeiro Neto, enaltecendo-lhe a obra de romancista e poeta."



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