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DISCURSO DE POSSE
Acadêmico: Júlio Medaglia
"Por tudo isso, senhores acadêmicos, vejo minha eleição à esta Casa e tomada de posse desta cadeira, como uma séria missão de duplo sentido. Um deles, voltado para o passado, o de honrar e fazer jus à grandeza de sua historia e dos personagens que a ocuparam. Outro voltado para o futuro, trabalhando, também a partir daqui, para a cultura brasileira como sempre fiz."

Antes de mais nada, quero agradecer imensamente a todos pelo honroso convite que recebi para integrar o privilegiado círculo de intelectuais da Academia Paulista de Letras.

Inicialmente, gostaria de lhes revelar uma curiosidade. É com grande prazer e emoção que volto à esta região da cidade para vivenciar um momento tão importante. Parece que o epicentro de minha vida é mesmo esta região de Santa Cecília não por coincidência, tida como a padroeira dos músicos.

Foi nessa região que eu nasci, foi no colégio Coração de Jesus que estudei, foi freqüentando a antiga Rádio Cultura, ali na Av. São João, próximo da Academia, que assisti os primeiros espetáculos musicais e me encantei com a música daquela pequena orquestra.

Por essa razão, como diria minha mãe, uma costureira de vestidos finos do bairro, ao vir para cá, tive a pachorra de passar pela Rua Apa - uma travessa da Av. São João onde existe um castelinho em ruínas - e parei meu carro diante do número 92.

A antiga casinha onde abri meus olhos para o mundo está lá ainda. Repleta de pichações, com as portas e janelas muradas, mas está lá - bem em frente aos prédios da antiga Missão Militar Francesa, hoje ocupados pela Fundação Nacional das Artes.

Por alguns momentos fixei o olhar na janela de um dos quartos e imaginei uma cena diária de minha infância que tem algo a ver com este momento.

Lá minha mãe sentava-se todas as manhãs numa cadeira, colocava uma taboinha sobre os joelhos e começava a costurar -sempre com o rádio ligado.

Aliás, Dona Miquelina era uma figura muito especial. Apesar de ter dificuldade para escrever o próprio nome, quando empunhava a agulha e a linha, tornava-se uma grande artista.

É que meu avô, depois de casar e colocar 7 filhos no mundo, disse para a minha avó: Cristina, aspetta un pochetino. Io vado in Itália a prendere una grande fortuna e ritorno subito!

Só que o Sr. Saverio nunca voltou e sua mulher e filhas tiveram que cuidar do próprio sustento, lavando roupa "pra fora", como se dizia antigamente.

Uma filha lavava, outra passava, outra remendava, outra ainda fazia as entregas. Cabia à minha mãe remendar as roupas que chegavam e essa prática despertou nela um incrível talento para a costura.

Mesmo sem poder estudar, ela foi adquirindo revistas de moda francesas e, autodidaticamente, aprendeu sofisticadas e recentes técnicas de costura.

E seu modesto atelier, na sala da frente daquela casinha da Rua Apa, ia tão bem que ela chegou a costurar para as mais destacadas famílias paulistanas. Lembro-me muito bem quando meu pai fazia as entregas aos domingos e dizia o nome das freguesas.

Era Baronesa Duprat, Dona Nízia Capote Valente, madame Blanche (mulher do presidente da Rhodia), madame Lebeis que depois vim a saber que tratava-se de Magdalena Lebeis, uma das maiores cantoras brasileiras e tia de nosso poeta Paulo Bomfim.

Ah. E tinha também como freguesa a família Morais Andrade, cujo membro mais importante, Mário, sentou-se na cadeira n° 3 desta Academia, a qual agora vou ocupar.

Mas, se relembrei estes fatos, não é para dizer aos senhores que acredito que a veia artística eu teria herdado de minha mãe e sim porque nessa programação diária da Rádio América, que servia de fundo sonoro para o seu trabalho de costureira, o primeiro programa era apresentado por um radialista chamado Jota Domingues.

Nele, ao som da abertura da ópera O Amigo Fritz de Pietro Mascagni - o grande compositor do verismo italiano que se celebrizou com a Cavalleria Rusticana - o apresentador lia crônicas do escritor e acadêmico Humberto de Campos.

Não sei se pela beleza da voz do apresentador ou do fundo musical, o caso é que aquelas crônicas me encantavam cada vez mais - a ponto de pedir a meu pai que adquirisse a obra completa daquele escritor paraibano, coleção de 29 volumes que possuo ainda hoje. Isso tudo para lhes dizer, senhores acadêmicos, que meu amor às palavras chegou antes do da música.

Só que essa sedução veio pela palavra pronunciada e não impressa. Pela sonoridade de seus fonemas e não por seus símbolos gráficos.

Mas, certa vez, minha mãe contratou uma auxiliar que vinha do interior de Minas e, em sua bagagem, amarrada a barbante, havia um violino. E foi manipulando aquela caixinha barroca, com um primitivo arco, que fui perdidamente enfeitiçado pelo som.

Inicialmente pelo som-brinquedo, depois, cada vez mais pelo som-artístico e, em seguida, profissional, como relatou aqui meu anfitrião e amigo de infância, o acadêmico José Pastore.

Como passar do tempo, porém, os 20 centímetros do braço do violino, apesar de toda a magia sonora que produziam, me pareciam limitados diante das proporções da criatividade musical e artística geral que eu começava a vislumbrar.

E foi, na Escola Livre de Música, tomando contato com os professores Damiano Cozzella e Hans Joachim Koellreutter, este professor alemão que trouxe ao Brasil a informação do que havia de mais recente na produção musical européia, que resolvi ampliar minha atividade, chegando à regência e ao estudo de outras áreas culturais decidindo-me, definitivamente pela carreira profissional de músico, para desespero do velho Júlio Medaglia, um comerciante de peças de automóveis ali da Al. Nothman, também do bairro de Sta. Cecília, que queria ver o filho médico, engenheiro ou dentista...

Passei, então, a freqüentar exposições de pintura, a comprar livros dos mais variados assuntos, a ler as indicações de cinema dominicais do Estadão, tão bem elaboradas por Ruben Biáfora, que me fizeram descobrir a magia da "sétima arte" - eu chegava a tomar um bonde na Lapa, onde passei a morar mais tarde, para ir ao Braz a fim de assistir um filme de Elia Kazan ou ao bairro do Ipiranga para ver Casablanca. De bonde fui também ao Cine Esmeralda nas Perdizes para assistir Um Corpo Que Cai de Hitchcock, que achei o maior de todos os filmes da época.

Queria juntar dinheiro para ir a Hollywood me casar com Kim Novak ou procurar Judy Barton pelas ruas de San Francisco, personagem fictícia e feiticeira que Alfred Hitchcock colocou em minha mente através desse filme para o resto da vida...

Mas a área poética do segundo pós-guerra, senhores acadêmicos, pegava fogo com as provocações da Geração de 45, com o concretismo, com a Poesia Práxis do nosso Mário Chamie, com as releituras da tradição literária feitas por Mário da Silva Brito.

Com a audácia que só os 18 anos nos dão, peguei a lista telefônica e procurei: Haroldo de Campos, Rua Monte Alegre 663, tel. 62-1354. Minha mente estruturalista - típica das artes geométricas da época - já começava a funcionar. Guardei o telefone do Haroldo como uma série hexasa-numérica, já que os números, de 1 a 6, não se repetiam - como bem gostava o dodecafonismo, que não permitia a repetição de sons, antes da série de 12 notas ser exposta por completo numa música.

Passei a me reunir 2 vezes por semana com os concretistas Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos.

Ao mesmo tempo em que sorvia a profunda erudição multicultural do grupo, criava as primeiras partituras para oralizar aqueles poemas ideogrâmicos - para transformar em sons, aquelas letras, palavras e frases discretamente esparsas no papel.

E foi assim que, em contato com a vanguarda poética do início dos anos 60, voltei a me apaixonar pela palavra.

E foi nessa época que surgiu um drama em minha vida. Comecei a compor trilhas sonoras para teatro, cinema e televisão e tive que me ver às voltas com o conflito entre a semântica do texto e a do som.

Por sorte trabalhei com os maiores diretores brasileiros e esse conflito resultou numa simbiose, numa intensa interação criadora que aprendi a desenvolver.

Logo em seguida, porém, veio o desejo de participar da movimentação artística não apenas através de minha música mas também de atitudes e posicionamentos.

Naquele início dos anos 60 a temperatura estética como um todo estava aquecidíssima. O isomorfismo que entrelaçava as linguagens artísticas apontava no sentido de uma filtragem geral de elementos narrativos, despojando-os de diversos conteúdos assimilados no decorrer da história.

E parece que a ordem era reduzir ao máximo os componentes narrativos e aumentar a tensão.

Isso ocorria com o concretismo na poesia e também nas artes plásticas com Waldemar Cordeiro, Fiaminghi, Mauricio Nogueira Lima, Sacilotto, Fejer que, antecipando-se à OP-ART de Albers e Vasareli, criavam uma pintura geométrica e despojadíssima.

Até Volpi, talvez o maior pintor brasileiro da época aderia àquele concretismo.

Foi também o apogeu de Niemeyer com a construção de Brasília, com sua arquitetura de linhas sóbrias, paredes brancas e envidraçadas, com seus edifícios construídos sobre pilotis, que pareciam flutuar.

Na música havia o ressurgimento do dodecafonismo que também pretendia atomizar o som e torná-lo cristalino.

No jazz Miles Davis desarmava as famílias instrumentais e criava uma música camerística, colorística, econômica, low-profile que ele chamou de cool-jazz.

Na música brasileira a Bossa Nova, caminhando no mesmo sentido, se desfazia do ranço verborrágico e lacrimejante do samba-canção "abolerado" e introduzia uma música descontraída, simples, com pouquíssimos efeitos sonoros, sofisticadas harmonias e um canto-não-canto - camerística, mesmo.

Até Vinicius de Moraes que se envolveu com o movimento e vinha de “oh, mulher, estrela a refulgir”, passava a escrever “ela é carioca, ela é carioca, olha o jeitinho dela”.

Mas toda essa compactação, essa rarefação de elementos artísticos durava pouco, como mandava o ritmo seculovinteano de renovação. Dessa implosão de idéias passou-se rapidamente a uma explosão devastadora de conceitos e valores.

John Cage introduzia pra valer o happening na música clássica, o rock abandonava o lirismo melódico e, com a chegada de Yoko Ono, os Beatles partiam para o som psicodélico, como se dizia na época.

Jimi Hendrix e Janis Joplin detonavam o som instrumental e vocal e a geração jovem era influenciada pelas idéias e livros da Jack Kerouac e Allen Ginsberg, partindo para uma solução hippie de vida, que nada tinha a ver com aquilo que se aprende na escola e na igreja...

A resposta brasileira a esse tsunami cultural dos anos 60 era o Tropicalismo, do qual participei, que atiçava toda a criatividade artística brasileira com uma linguagem que envolvia a música de vanguarda e a de retaguarda, a fina e a cafona, a discreta e a comportamental, a intimista e a social, o teremim e o berimbau, o portunhol e o latim, o grito e o melódico, o som e o ruído, a poesia concreta e a do poeta Cuíca de Sto. Amaro, o samba e o rock, o canto e o toque.

Como estar dentro desse redemoinho e não descrevê-lo, comentá-lo, criticá-lo? Criei coragem e, durante mais de duas semanas trabalhei num artigo - o primeiro ato de redação de minha vida.

E foi aí, meus caros acadêmicos, que me dei conta que, em cada palavra se esconde uma poderosíssima dinamite, que deve ser tratada com muito cuidado para não produzir estragos!

Foram noites e noites sem dormir para tentar estruturá-las - como num jogo de xadrez. Às vezes acordava de madrugada para trocar a posição de uma vírgula...

Me dei conta, também, que escrever, não só exterioriza idéias como disciplina a mente, racionaliza e ajuda a entender e, sobretudo, codificar conceitos.

Por fim meu primeiro artigo ficou pronto e falava num novo conceito de interpretação na música contemporânea.

Graças à audácia do nosso acadêmico João de Scantimburgo, proprietário do Correio Paulistano, era publicada semanalmente nesse jornal no início dos anos 60, uma página voltada às expressões da vanguarda artística como nome de INVENÇÃO.

E era lá que eu queria colocar aquelas idéias, aquele texto.

Levei o artigo ao jornal e ele foi publicado. Ver pela primeira vez um texto meu impresso foi emocionante.

Guardei-o com muito carinho e agora lhes mostro.

O meu maior prazer, senhores acadêmicos, seria o de exibir esta página, 50 anos depois ao redator-chefe do Correio Paulistano que permitiu o início de minha inquietação literária, a qual resultou em centenas de artigos, ensaios, crônicas, traduções e alguns livros.

Gostaria mesmo de tê-lo aqui presente, no dia de hoje.

Infelizmente, porém, ele optou por outra solução. Ele não só me abriu as portas para que eu começasse a escrever como, partindo deste mundo há poucos meses, já que era acadêmico, deixou sua própria cadeira, a de número3 para eu ocupá-la.

O redator chefe do Correio Paulistano à época era o mesmo Israel Dias Novaes que agora eu tenho a honra de substituir nesta Casa.

Como os senhores sabem muito bem, e melhor que eu, pois conviveram com ele, o insubstituível Israel Dias Novaes foi um intelectual brilhante, inquieto e com inúmeros talentos.

Já como estudante agitava a vida acadêmica criando jornais e revistas culturais. Mal entrava na vida profissional já tomava posições políticas contra a ditadura do Estado Novo.

Na política, foi sempre eleito com votações expressivas e mesmo considerado, certa vez, o melhor parlamentar.

Criou também uma Comissão de Cultura para Câmara dos Deputados.

Sua integridade e forte caráter o fizeram enfrentar não só a ditadura do Estado Novo mas também a dos anos 60, votando contra o pedido de licença solicitado pelo governo federal para processar o Deputado Marcio Moreira Alves - o que lhe custou o mandato.

Mas em 84 ele volta à Câmara,e vota a favor da Emenda Dante de Oliveira que propunha as eleições diretas para o Brasil.

Ao deixar a política, Israel desenvolveu intensa atividade como jornalista e escritor, recebeu inúmeras distinções e fez parte das mais destacadas instituições culturais, inclusive desta Academia, onde chegou à presidência.

Mas parece que esta cadeira de n° 3 é mesmo um espaço privilegiado. Seu próprio fundador, Luis Pereira Barreto, teve papel histórico quando, como político, elaborou a Constituição que transformou a Província de São Paulo num Estado.

Em seguida Alfredo Pujol, conhecido pela maioria como nome de uma das mais importantes artérias desta cidade, foi, na realidade, um brilhante líder político que se empenhou na luta pelos ideais republicanos. Foi um batalhador pela melhor qualidade do ensino, deixando também obras escritas de importância fundamental.

Que dizer de Franco da Rocha, que o sucedeu, hoje justamente homenageado como nome de uma cidade deste Estado? Foi um humanista de cultura profunda que dedicou sua vida a curar.

Sua grande sensibilidade levou-o, pioneiramente, a fazer uso da magia da música para o tratamento dos doentes mentais.

Bem, até mesmo um Presidente da República, passou por esta cadeira. Após brilhante carreira política de inestimáveis serviços prestados ao nosso Estado, o humanista Washington Luiz foi eleito presidente com unanimidade nacional. O grande homem público, foi também um escritor de importância, justificando e honrando as tradições desta Casa.

E como denominar o sucessor de Washington Luiz?

Seria ele poeta, escritor, pianista, professor, ensaísta, animador e revolucionário cultural crítico de arte, musicólogo, criador de estruturas de ação cultural pesquisador das raízes artísticas e da alma brasileiras? Seria ele que deu status cultural Paulistaneidade?

Todas as mil facetas da personalidade de Mário de Andrade tinham a mesma importância no cenário de nossa cultura, o que o faz um dos mais respeitados intelectuais de nossa história.

E que dizer de um político que ocupou esta cadeira, que, com trinta e poucos anos operou a maior transformação na infra-estrutura de serviços básicos do Estado?

Lucas Nogueira Garcez praticamente criou novos conceitos nas áreas de energia elétrica, sistema hidráulico, higiene, segurança no trabalho, assistência médica, amparo ao menor, construção de aeroportos e rodovias.

Por tudo isso, senhores acadêmicos, vejo minha eleição à esta Casa e tomada de posse desta cadeira, como uma séria missão de duplo sentido.

Um deles, voltado para o passado, o de honrar e fazer jus à grandeza de sua historia e dos personagens que a ocuparam. Outro voltado para o futuro, trabalhando, também a partir daqui, para a cultura brasileira como sempre fiz.

E há muito que fazer. Quando esta Academia foi fundada há 100 anos, o mundo estava em festa.

Explodia o século mais revolucionário da historia. A sensibilidade da inteligência e dos artistas havia pressentido esse fato, iniciando transformações

culturais e comportamentais sem precedentes! Por essa razão, falava-se em Belle Époque.

Nos primeiros 50 anos do século XX tivemos mais "ismos" estilísticos que nos 500 anteriores. Foi um período de um brilho cultural que nos faz lembrar a Renascença.

A tecnologia da época, ninguém levava a sério. As conquistas da Revolução Industrial, que multiplicavam a energia mecânica, estendendo a força do braço, já estavam mais que sedimentadas e parece que o que havia, em termos de facilidades operacionais, era suficiente para permitir aqueles delírios culturais.

Nos Estados Unidos, por exemplo, ao terminar o século XIX, o diretor do departamento de patentes, pediu demissão pois, segundo ele, já não havia mais nada a ser inventado. Imaginem...

E esse período de intensa provocação transformação de idéias e linguagens da beleza era tal que até mesmo nosso genial Santos Dumont, para provar que seus engenhos voadores eram viáveis, teve que apresentá-los à sociedade da época - e não

a cientistas! num grande espetáculo.

Criou um happening voando em volta da Torre Eifel ou dando piruetas no Campo de Bagatelle, sob as vistas da multidão extasiada que o aplaudia freneticamente - como num show.

No início do século atual, porem, dá-se o inverso. Com a invenção da inteligência artificial, desta vez, com a multiplicação da energia da mente, o mundo entrou numa delirante avalanche tecnológica que inundou o planeta de aparelhinhos milagrosos, que encantam por si só mais do que sua própria utilidade.

As paginas e páginas dos jornais vivem repletas de anúncios que incentivam um frenético "consuma & descarte", que funciona muito bem na aquisição de celulares, tênis ou automóveis, mas que em suas relações com a arte, não tem mostrado bons resultados.

Apesar de todas as facilidades de informação, iniciamos o século sem novas tendências artísticas, vanguardas, estilos, propostas abrangentes, horizontes.

Uma gigantesca indústria de comunicação criou um rico e bem acabado entretenimento de massa, baseado numa pirotecnia glamourosa, agressiva e descartável.

A internet, a mais genial invenção recente é o maior banco de dados jamais visto, no entanto ninguém se tornou filósofo rapidamente pelo fato da obra de Kant estar disponível on line ou apaixonou-se pela Nona de Beethoven por existirem mais de cem gravações à disposição em MP3.

O que comanda ou enriquece o gosto da população do planeta, não é a deslumbrante riqueza de dados que a internet disponibiliza e sim esquemas mercadológicos, estratégias de marketing, holdings industriais.

As próprias gravadoras de discos não possuem mais diretores artísticos e sim diretores meramente comerciais.

E elas sequer possuem uma relação visceral com a música, já que num país produzem discos, noutro a mesma holding comercializa aviões a jato e em outro salsichas.

Não sou, porém, pessimista. Acredito que essa fase é passageira. Essa fase "adrenalina" de vida será substituída com o tempo por uma saudável relação entre o maravilhoso mundo novo tecnológico e a capacidade do homem de criar belezas incríveis, apesar de sua sensibilidade estar sendo massacrada no momento e seu talento sendo substituído por Franckensteins mercadológicos de vida curta.

Acredito, portanto, que esta Casa, como ponto de encontro da inteligentzia paulista, verdadeira usina geradora de idéias, como prova o currículo de todos, deve ser um quartel general vigilante e provocador daquilo que difere o ser humano de todos os outros seres deste planeta: sua capacidade de criar beleza.

Aliás, senhores acadêmicos, de todos os seres do planeta, o homem é, também, o único que sabe criar música.

Muito obrigado.



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