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REFLEXÃO DO EVANGELHO POR DOM FERNANDO ANTONIO FIGUEIREDO
Acadêmico: Dom Fernando Antonio Figueiredo
“Aquele que come comigo ergueu o calcanhar contra mim”, e se perguntam, um depois do outro: “Mestre, não sou eu, sou? ”. Como transparece, comenta Orígenes, “Jesus fala, de modo geral, para provar a qualidade de seus corações, deixando claro que os Apóstolos acreditavam mais em suas palavras, que em sua própria consciência”. O Evangelista S. Mateus lembra que também Judas, que o chama de Mestre e não de Senhor, como os demais, perguntou: “Porventura sou eu? ”.
Jo 13, 21-33.36-38 e Mt 26, 14-25 - Anúncio da traição de Judas


A declaração de Jesus: “Um de vós me entregará”, inscreve-se no coração mesmo da última ceia. Justamente pela sua imprecisão, suas palavras trazem inquietação e perplexidade a todos, pois cada um deles é marcado tanto pela graça divina, como também, simultaneamente, pelo pecado. Daí o fato de os Apóstolos se entreolharem e se perguntarem: “Quem será? ”. Sem obterem uma resposta direta, confusos e temerosos, eles notam o olhar triste do Mestre ao pronunciar o salmo: “Aquele que come comigo ergueu o calcanhar contra mim”, e se perguntam, um depois do outro: “Mestre, não sou eu, sou? ”. Como transparece, comenta Orígenes, “Jesus fala, de modo geral, para provar a qualidade de seus corações, deixando claro que os Apóstolos acreditavam mais em suas palavras, que em sua própria consciência”. O Evangelista S. Mateus lembra que também Judas, que o chama de Mestre e não de Senhor, como os demais, perguntou: “Porventura sou eu? ”.
Angustiado pela incerteza, Pedro recorre ao discípulo, que estava ao lado de Jesus, para saber quem era o traidor. Recostado sobre seu peito, sinal de um conhecimento íntimo do Senhor, João recebe como resposta: “É aquele a quem eu der o pão, que vou umedecer no molho”. O contraste entre a comunhão da Ceia pascal, símbolo de fraternidade entre os judeus, e essas palavras de traição adquire um sentido trágico. Mesmo assim, querendo salvar a ovelha desgarrada, Jesus tomou um bocado de pão e o deu a Judas, um discípulo escolhido por Ele, que não compreende seus objetivos e não se deixa tocar pela sua misericórdia.
No entanto, Jesus não amaldiçoa, nem condena; predominam sua paciência e bondade. Nesse sentido, o terrível “ai”, embora indicando que a responsabilidade cabe a Judas, seria uma exclamação de dor e não uma fórmula de maldição. É o doloroso enigma do mal praticado, consequência da tensão existente entre a liberdade responsável e os desígnios divinos.
Então nesse contexto, a observação do Evangelho de que “era noite” adquire um valor simbólico dramático, pois, no dizer de S. Agostinho, “a noite acudia em auxílio da noite”. Em outras palavras, afastando-se da luz, Judas embrenhou-se nas trevas da noite, e quem anda à noite tropeça, pois não sabe aonde ir. S. Cirilo de Alexandria dirá: “O infeliz respira a pleno pulmão esta ‘noite’, que é o poder dos maus desígnios”.
Por outro lado, Pedro, ao ouvir Jesus dizer que, por sua causa, eles ficariam escandalizados e tropeçariam, promete que não o abandonará, mesmo se todos os outros o façam. Porém, para fugir da cruz, ele o nega por três vezes, dizendo não ser seu discípulo, nem conhecê-lo. Logo após o julgamento, passando por ele, o olhar de Jesus, segundo o Evangelho de S. Lucas, fará que o apóstolo, ao se lembrar das palavras ditas na última Ceia, arrependido, repare sua negação pela tríplice profissão de fé. Judas reconhece a inocência do Mestre; e vendo que sua morte é inevitável, arrependido, “foi-se enforcar-se”.

+Dom Fernando Antônio Figueiredo, ofm




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