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EU NASCI EM SANTA MARIA
Acadêmico: Eros Roberto Grau
"Nunca nascem duas pessoas inteligentes na mesma rua, no mesmo lado da rua, na mesma quadra!"

Eu nasci em Santa Maria. Deixamos nossa cidade,
o pai, a mãe e eu, quando eu tinha 3 anos.
Então a mãe ordenou lembro-me bem que eu
não contasse, lá para onde íamos, que eu era gaúcho.

Não contasse que eu era, que eu sou gaúcho,
para não humilhar os que não são! Ter nascido aí,
isso é maravilhoso. Agora adoro dizer, sem mais
nem menos, desobedecendo a mãe, que eu nasci
em Santa Maria!

Minhas memórias daí são antigas. Poucos, somente
os mais idosos, hão de confirmá-las. Mas
estão bem vivas em mim. E é bom que os jovens
conheçam coisas do passado. É sempre bom lembrar coisas passadas, rever os lampiões, os ancestrais como diz a canção do Jayme Lubianca, falando
de Porto Alegre.

Caminho pela primeira quadra e pela Praça Saldanha Marinho.Em um banco da praça, de repente,
encontro velhos amigos do pai. O Cardoso, o Rubens Belém, o Cherubim Abelin. O tempo não existe
quando pisamos nosso chão!

O Rubens Belém escreveu uma peça de teatro musical com o Pelissier Cruzeiro Na Boca
do Monte de cuja encenação o pai participou, como ator e diretor. O Graúna, Setembrino de Souza, casado com a Paulicéia, também fazia teatro. Vejo-os de modo difuso, como se envolvidos no interior de uma nuvem, porém reconhecendo seus rostos. Um homem sereno, baixinho.
Ela uma pessoa querida, amorosa. Santa Maria que deixei tão cedo, mas sempre junto de mim. Aí, na Praça Saldanha Marinho dou de frente com a erma do Felippe d’Oliveira, que deu o nome a uma rua no centro da cidade de São Paulo. Uma rua central aqui onde agora estou ao lado da Catedral, unindo as duas praças mais importantes da cidade. Unindo a Praça da Sé à Praça João Mendes. Ele me olha, sereno, desde a moldura de um quadro seu, que Portinari pintou e, em uma saudade vaga, me
arremessa os olhos e vê meu vulto a se perder,
a se apagar...
Caminhei por ali, um pequeno trecho de rua, quando era estudante na Faculdade de Direito, encarregado de ir ao Fórum, diariamente, indo e vindo por ali. Enchendo-me de orgulho, em silêncio, dizendo a mim mesmo que o Felippe nasceu em Santa Maria, como eu!

Escrevo até este ponto, mostro a minha mulher, e ela me alerta. Estás falando demais do passado - ela me diz ninguém mais lembra disso! Então volto a
cantarolar a canção do Lubianca é mesmo sempre bom lembrar coisas passadas.

De quando em quando, escreverei a respeito do presente. Sobre um amigo que tenho, por exemplo, com quem me divirto afirmando que nunca nascem duas pessoas inteligentes na mesma rua, no mesmo lado da rua, na mesma quadra, se praticam o mesmo ofício. O que nasceu antes é o inteligente, o outro não! E eu nasci em 1940, ele em 1946...

Isso não é promessa, é uma ameaça! Voltarei a escrever, aqui, para contar muitas cosas, assim
como se estivéssemos a charlar, em conversas de
galpão. Até de repente!

Publicado no Diário de Santa Maria



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